Dias mais quentes trazem à tona piores feitios, concluem os cientistas

Estudos admitem que há um aumento da agressividade ligado à subida das temperaturas. À medida que as pessoas se tornam desconfortavelmente quentes, tornam-se também mais irritáveis, pensam de forma mais agressiva, percebem outras acções com hostilidade e comportam-se de forma mais violenta.

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O calor torna as pessoas são mais propensas a adoptar discursos de ódio e um comportamento hostil Peter Dazeley/Getty Images

À medida que as temperaturas em todo o mundo aumentam, os cientistas têm documentado efeitos ambientais em grande escala: aumento do nível do mar, seca e fome, inundações intensas e o desaparecimento de espécies. Mas cada vez mais alguns investigadores receiam que temperaturas mais elevadas possam também contribuir para que as pessoas se comportem de forma mais agressiva. Dois estudos recentes acrescentam a esta ideia um novo dado demonstrando que, quando faz calor, as pessoas são mais propensas a adoptar discursos de ódio e um comportamento hostil.

Um estudo descobriu que o discurso do ódio nas redes sociais escalou com temperaturas elevadas. Outro relatou um aumento do assédio e da discriminação no local de trabalho no Serviço Postal dos EUA quando a temperatura atingiu ou ultrapassou os 32 graus Celsius.

Juntos, os estudos engrossaram uma literatura científica crescente que liga o calor ao comportamento agressivo.

Já sabíamos que as redes sociais podem muitas vezes levar a maus comportamentos. Ao que parece, o calor será mais uma acha para esta fogueira.

Investigadores do Instituto de Potsdam para a Investigação do Impacto Climático encontraram no Twitter um aumento no discurso do ódio de até 22% quando as temperaturas estão acima dos 41 graus Celsius. Também descobriram que os tweets ofensivos eram mais comuns durante o frio extremo, com um aumento de 12,5% quando estava abaixo dos dois graus Celsius.

Para determinar a relação entre o discurso do ódio e a temperatura, os investigadores utilizaram um algoritmo de machine-learning para analisar 75 milhões de tweets de uma base de dados contendo mais de 4000 milhões de tweets postados por pessoas em todos os Estados Unidos entre 2014 e 2020. Os tweets abrangeram 773 cidades.

Os investigadores apoiaram-se na definição da Estratégia e do Plano de Acção das Nações Unidas de discurso de ódio: qualquer tipo de comunicação na fala, escrita ou no comportamento que ataque ou use linguagem pejorativa ou discriminatória com referência a uma pessoa ou grupo com base em quem são – por outras palavras, com base na sua religião, etnia, nacionalidade, cor, descendência ou género, ou outro factor de identidade.

O comportamento agressivo foi o mais brando entre 12 a 21 graus Celsius, de acordo com o estudo revisto pelos pares, publicado na revista Lancet Planetary Health. Enquanto os investigadores descobriram que a “janela de bem-estar” varia com base nas zonas climáticas, as temperaturas acima dos 27 graus foram consistentemente ligadas a aumentos significativos de ódio online em todas as zonas climáticas.

“Isto indica… que há limites na nossa capacidade de adaptação a temperaturas extremas”, conclui Leonie Wenz, co-autora do estudo e investigadora do Instituto de Potsdam.

À medida que os Verões aquecem e o número de ondas de calor aumenta, os investigadores receiam que haja um aumento do ódio online. O Verão de 2022 classificou-se entre os Verões mais quentes do mundo, de acordo com a NASA e a National Oceanic Atmospheric Administration (NOAA) dos Estados Unidos.

“Penso que vivermos num mundo com um impacto climático aumenta o nosso stress e precariedade, e veremos também um aumento da agressão online”, disse Libby Hemphill, uma professora associada da Universidade do Michigan que estuda o discurso do ódio e as redes sociais e que não esteve envolvida no estudo.

Hemphill disse que há um aumento no discurso do ódio e outras formas de agressão sempre que as pessoas se sentem “ameaçadas”, o que pode levar as pessoas a tomarem “más decisões”. “Faz sentido para mim que a ameaça climática tenha o mesmo impacto ou um impacto semelhante a todos estes outros tipos de ameaças que stressam as pessoas e as fazem ripostar”, acrescentou Hemphill.

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REUTERS/Mike Blake/Files

O caso dos trabalhadores dos correios

Desde as temperaturas sufocantes no Sudoeste até à humidade sufocante no Sudeste dos Estados Unidos, os trabalhadores dos correios têm de realizar o seu trabalho em condições difíceis, que só se agravam à medida que as ondas de calor se tornam mais prolongadas, frequentes e intensas.

Nos últimos anos, estes trabalhadores dos correios têm abandonado o trabalho devido a temperaturas sufocantes em instalações sem ar condicionado e queixaram-se de condições de trabalho insuportáveis.

Um relatório de 2019 do Centro de Integridade Pública afirmou que a Administração de Segurança e Saúde no Trabalho tinha notificado o Serviço Postal dos EUA por “expor cerca de 900 trabalhadores em todo o país aos riscos de doenças relacionadas com o calor e morte”, datando de 2012.

Os legisladores realizaram audições sobre este assunto e apresentaram legislação para enfrentar os problemas.

Trabalhar em condições tão sufocantes e perigosas submeteu alguns trabalhadores dos correios a um ambiente de trabalho hostil. O estudo revisto por pares publicado no mês passado na revista Proceedings of the National Academy of Science revelou que, em dias acima dos 32 graus, os trabalhadores enfrentaram um maior assédio no local de trabalho e discriminação por parte de gestores e supervisores.

O estudo, realizado pelo doutorando Ayushi Narayan, na Universidade de Harvard, examinou mais de 800 mil acusações da Comissão de Igualdade de Oportunidades de Emprego apresentadas por funcionários dos Serviços Postais entre 2004 e 2019. O relatório concluiu que tais incidentes aumentaram cerca de 5% em dias acima dos 32 graus em comparação com dias em que as temperaturas se situavam entre os 15 e os 21 graus.

As queixas abrangeram mais de 12 mil estações dos Serviços Postais em todo o país. “Constato que os incidentes aumentam quando as temperaturas são elevadas”, disse Narayan, acrescentando que “a redução da exposição ambiental ao calor extremo, quer seja através de políticas climáticas quer seja através de outro tipo de adaptações, poderia diminuir a quantidade de discriminação vivida pelos trabalhadores”.

O Serviço Postal não respondeu a perguntas sobre o estudo, e o Sindicato Americano dos Trabalhadores dos Correios recusou-se a comentar.

Fundamento biológico

O calor como agravante de maus comportamentos não é um conceito novo. Há anos que psicólogos e cientistas sociais documentam a relação entre temperaturas elevadas, motivação e comportamentos agressivos e crime.

Alguns investigadores apontam para o facto de o corpo humano gerar adrenalina em resposta ao calor excessivo, o que pode levar à agressão como um efeito secundário. Alguns apontam para o aumento da frequência cardíaca, testosterona e outras reacções metabólicas que desencadeiam reacções de “luta ou fuga”.

Craig Anderson, um professor de psicologia da Universidade Estadual do Iowa (EUA) que estudou a relação entre violência e calor desde 1979, escreveu que as alterações climáticas irão aumentar directamente a agressão e violência humanas através do que ele chama o “efeito do calor”.

O efeito sugere que à medida que as pessoas se tornam desconfortavelmente quentes, tornam-se também mais irritáveis, pensam de forma mais agressiva, percebem outras acções com hostilidade e comportam-se de forma mais violenta.

“À medida que o aquecimento global aumenta, haverá, de facto, um aumento da frequência com que as pessoas se sentem desconfortáveis”, disse Anderson. “Isso por si só pode levar à tomada de decisões e a comportamentos mais agressivos e, em algumas circunstâncias, pode levar a um aumento do comportamento violento.”

Outros estudos de campo que Anderson analisou descobriram que homicídios, agressões graves, telefonemas para a polícia, violência doméstica e outros comportamentos violentos aumentam quando as temperaturas são mais elevadas.

Os peritos concordam que a desaceleração das mudanças climáticas pode manter sob controlo o mau comportamento alimentado pelo calor.

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post