O maior nenúfar do mundo foi descoberto agora, mas estava guardado no museu há mais de 100 anos

Tem folhas que ultrapassam os três metros de diâmetro e aguentam o peso de uma criança pequena. Há quase 20 anos que o botânico Carlos Magdalena suspeitava de que pudesse ser uma nova espécie – e tinha razão.

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Lucy Smith e Carlos Magdalena fazem a medição de um nenúfar da nova espécie RBG Kew
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Carlos Magdalena e a nova espécie de nenúfares gigantes, no Reino Unido RBG Kew
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Uma das flores do nenúfar gigante RBG Kew
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Os nenúfares gigantes selvagens são originários da Bolívia RBG Kew
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A parte inferior de um dos nenúfares gigntes da nova espécie RBG Kew
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Uma nova espécie de nenúfar gigante foi descoberta, mas afinal não estava assim tão escondida quanto isso: um exemplar, seco e fragmentado, esteve guardado durante 177 anos no herbário do Jardim Botânico Real de Kew, no Reino Unido, só que tinha sido confundido com outra espécie (Victoria amazonica). O artista botânico Walter Hood Fitch também o tinha desenhado em 1847, sem saber que se tratava de uma espécie distinta. Passados quase 200 anos, a descoberta da “espécie nova para a ciência” foi apresentada na revista científica Frontiers in Plant Biology, num artigo publicado esta segunda-feira.

Chama-se Victoria boliviana – precisamente por ser nativa da Bolívia, onde cresce no pantanal de Llanos de Moxos, mas também em rios e várzeas da região – e produz várias flores por ano, mas só se abre uma de cada vez, durante apenas duas noites. Quando florescem, são brancas e depois passam a cor-de-rosa.

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O horticultor Alberto Trinco com uma flor da Victoria boliviana no Jardim Botânico Real de Kew RBG Kew

Com folhas que ultrapassam os três metros de diâmetro, esta planta detém agora o recorde de maior nenúfar do mundo. O maior registo até agora é de folhas desta espécie que chegam aos 3,2 metros de comprimento, nos jardins de La Rinconada, na Bolívia. As folhas são tão grandes e têm uma estrutura tão resistente que aguentam o peso de uma criança pequena.

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Ilustração científica da nova espécie Victoria boliviana Lucy Smith

A artista botânica Lucy Smith fez várias ilustrações científicas da espécie, depois de visitar os jardins durante a noite (quando as flores abrem). Ao desenhá-la, a artista apercebeu-se das semelhanças entre a nova planta e os desenhos que o artista Walter Hood Fitch tinha feito de um nenúfar recolhido em 1845 na Bolívia. Feita a comparação, os cientistas aperceberam-se de que se tratava da mesma espécie e que Fitch tinha desenhado – sem se aperceber – uma nova espécie de nenúfares.

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Uma criança de seis anos sentada em cima do nenúfar RBG Kew

Este nenúfar também já estava guardado desde essa altura no herbário de Kew, que recolhe plantas desde 1696, mas pensava-se que era de uma das outras duas espécies (Victoria amazonica e Victoria cruziana), também existentes na Bolívia, ainda que noutras regiões do país (e também da América latina).

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O exemplar que estava guardado no herbário de Kew RBG Kew

Um nenúfar suspeito

O botânico especialista em nenúfares Carlos Magdalena foi dos primeiros a suspeitar de que esta poderia ser uma nova espécie. “Desde que vi pela primeira vez uma fotografia desta planta, em 2006, que fiquei convencido de que se tratava de uma espécie nova”, contou, citado em comunicado. Depois disso, trabalhou em conjunto com cientistas da Bolívia: do Herbário Nacional da Bolívia, dos Jardins Botânicos de Santa Cruz e do Jardim Botânico Público La Rinconada. E, em 2016, essas instituições ofereceram-lhe uma colectânea de sementes de nenúfares gigantes da espécie suspeita, lê-se no site do Jardim Botânico Real de Kew, onde Carlos Magdalena trabalha.

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A parte inferior do nenúfar gigante RBG Kew

“Pudemos fazer com que crescesse lado a lado com as outras espécies, exactamente nas mesmas condições”, explicou à BBC. Ao ver as novas plantas nascerem e crescerem junto das outras espécies de nenúfares do género Victoria, apercebeu-se de que algo não batia certo. A espécie tinha uns espinhos que apareciam noutra disposição e a forma das sementes também era diferente. Foi “o momento alto” da sua carreira, disse Carlos Magdalena. Era uma espécie nunca antes descrita pela ciência.

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Os espinhos da nova espécie RBG Kew

Os cientistas do Jardim Botânico Real de Kew também analisaram o ADN da espécie para mostrar que era geneticamente diferente das outras duas espécies já conhecidas. Além disso, a equipa de investigadores analisou todas as fotografias que encontraram na Internet de nenúfares gigantes num ambiente selvagem, “um luxo que um botânico dos séculos XVIII e XIX ou até do século XX não teria”, brinca Carlos Magdalena.

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As medições do nenúfar RBG Kew

Como a sua área de distribuição é menor, esta espécie pode estar mais ameaçada do que as outras duas, sobretudo por causa da destruição de habitat. Como se lê no site dos jardins britânicos, “fazer a descrição de novas espécies é crucial para os esforços de conservação perante a perda de biodiversidade e as alterações climáticas”.

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O botânico Carlos Magdalena na Bolívia, habitat natural desta planta Carlos Magdalena

Esta nova espécie de nenúfar gigante pode ser visitada no Jardim Botânico Real de Kew, que é o único sítio em que é possível ver as três espécies de nenúfares Victoria lado a lado.

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