Em Lisboa, os jovens querem ser a voz da mudança nos oceanos

Nicole Reyes quer que o Peru proteja mais a sua área marinha. Vinda do Brasil, Marina Borges Soares quer reduzir a produção de plástico. Por sua vez, Mariam Razavi está a fazer com que os jovens no Qatar tenham uma maior consciência ambiental. Já Afonso e Bernardo Marques pretendem preservar a ria Formosa. E Jacopo Pasquero tem o objectivo de criar pontes pelo oceano. Todos eles querem ser vozes de mudança.

NFS Nuno Ferreira Santos - 27  Junho 2022 -  inicio da United Nations Ocean Conference ( conferenia dos Oceanos ) com a presenca de Marcelo Rebelo de Sousa , Antonio Guterres no pavilhao Altice Arena�
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A jovem bióloga Nicole Reyes conheceu Sylvia Earle Nuno Ferreira Santos
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Várias fotografias foram tiradas com moldura com objectivos do milénio das Nações Unidas Nuno Ferreira Santos
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A bióloga Sylvia Earle esteve no evento Nuno Ferreira Santos
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Activistas da Ocean Rebellion contra a pesca excessiva Nuno Ferreira Santos
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Durante uma acção de activistas contra a pesca excessiva Nuno Ferreira Santos
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Sophie Miller exigiu o fim da pesca excessiva Nuno Ferreira Santos
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No Encontro Nacional Escola Azul, ao lado da Conferência dos Oceanos Nuno Ferreira Santos
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Várias actividades decorreram no Encontro Nacional Escola Azul Nuno Ferreira Santos
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No Encontro Nacional Escola Azul havia bancas com várias experiências Nuno Ferreira Santos
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Conferência decorre no Parque das Nações Nuno Ferreira Santos
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Dia inicial da Conferência dos Oceanos, em Lisboa Nuno Ferreira Santos
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Evento traz mais de 7000 pessoas a Lisboa Nuno Ferreira Santos
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Houve várias sessões ao longo do dia Nuno Ferreira Santos
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Conferência decorre até sexta-feira Nuno Ferreira Santos
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Estão presente na conferência mais de 140 países Nuno Ferreira Santos

Nicole Reyes está a concretizar um grande sonho: conhecer a bióloga Sylvia Earle. Destemida, atravessa um aglomerado de pessoas que a rodeia e tira uma fotografia com ela. Mesmo com todo o turbilhão de gente à sua volta, nos corredores da Conferência dos Oceanos das Nações Unidas, na Altice Arena, ainda tem tempo de lhe confidenciar: “Admiro-a muito!” Afinal, Nicole Reyes tornou-se também bióloga marinha por causa dela. “A Sylvia Earle é a bióloga mais importante do mundo. É uma inspiração! Aprendi com ela a amar o oceano e a falar dele com paixão. Agora quero aprender a transmitir este amor que ela me passou.”

Esta é a primeira conferência das Nações Unidas para esta bióloga peruana de 23 anos e ela quer ser uma voz de mudança. Quer falar com pessoas importantes na área do oceano, quer fazer contactos e quer que este evento contribua para a tomada de medidas no seu país, o Peru. “Precisamos de mais avanços. O Peru é conhecido pelo seu mar tão rico e depois faltam áreas protegidas.” Também quer trazer mais jovens – muitos mais – para a tomada de decisões. “Espero que uma grande mudança [neste evento] sejam as oportunidades dadas aos jovens. Este deve ser um espaço para jovens de organizações não-governamentais e de movimentos conversarem com governantes e para que sejam tomadas decisões.”

Precisamente este domingo, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, falou para os jovens e pediu-lhes desculpa: “Deixem-me pedir desculpa à vossa geração em nome da minha em relação ao estado do oceano, da biodiversidade e das alterações climáticas”, disse uma sessão que antecedeu o início oficial da conferência. E essa geração parece estar motivada.

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Nicole Reyes e Camilo Ávila querem que sejam dadas mais oportunidades aos jovens Nuno Ferreira Santos

Prova disso é Nicole Reyes. A bióloga não veio sozinha a esta conferência, onde se nota a presença dos jovens. Em Lisboa, encontrou-se com Camilo Ávila que, tal e qual como ela, é membro da organização The Millennials Movement. Atento a ouvir a nossa conversa com a bióloga, vai-se intrometendo aos poucos e conta-nos que, no ano passado, teve a oportunidade de representar como activista a Colômbia na Unicef. Nessa altura, conheceu Nicole e agora voltaram a ver-se. “Esta é uma oportunidade muito grande tanto para os jovens como para as empresas e Governos, para se reunirem esforços e passar da crítica à acção. Temos de ir do discurso para a tomada de medidas.” Camilo Ávila, que é especialista em gestão ambiental, não tem dúvidas: ainda vamos a tempo de fazer frente às alterações climáticas e ele quer fazer parte da mudança. “Espero que se saia daqui a ver o oceano como uma fonte de vida e não de recursos”, complementa a bióloga.

Perto destes dois amigos, ainda nos corredores, Marina Borges Soares tira fotografias com os seus colegas. Mas estas são fotografias bem temáticas: a moldura azul tem o símbolo do Objectivo do Desenvolvimento do Milénio 14, que tem o tema da conservação e o uso sustentável do oceano. Adoptado pelas Nações Unidas, está a ser discutido nesta conferência que junta mais de 7000 pessoas de 142 países Parque das Nações, em Lisboa, a partir desta segunda-feira e até sexta.

Uma fotografia do Brasil ao Qatar

Marina Borges Soares está aqui a representar o Centro de Estudos em Direito do Mar da Universidade de São Paulo, no Brasil. Tem feito investigação em direito do mar e veio ouvir os discursos oficiais e alguns outros eventos a decorrer sobre o plástico. A brasileira está optimista com esta conferência e espera que saia daqui alguma cooperação com os diferentes participantes, desde estados, passando por empresas, até à sociedade civil. E nem por um instante se esquece sobre o que a trouxe aqui: “Espero que saia um compromisso para se reduzir, o quanto antes, a produção de plástico mundial. A produção de plástico mundial está a afectar a biodiversidade marinha.”

Susana Fabre e Mariam Razavi também querem ficar com uma recordação desta conferência e tiram animadamente fotografias com a mesma moldura – que até já vai ficando rasgada com tanto uso. Vieram do Qatar e trabalham para a Arab Youth Climate Movement Qatar, uma organização não-governamental. “Estamos a tentar consciencializar [as pessoas] sobre o ambiente no Qatar e estamos, sobretudo, a tentar incentivar a nova geração”, diz a cientista ambiental Mariam Razavi.

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Susana Fabre e Mariam Razavi tiram fotos com uma moldura com o objectivo 14, essencial nesta conferência Nuno Ferreira Santos

As duas jovens têm tentado levar ao Qatar pessoas de todo o mundo para falar sobre ambiente e biodiversidade. “O principal problema é a falta de consciência na população, que é muito diversa. Também há um grande desentendimento sobre os ecossistemas que temos. [O Qatar] é visto como um deserto e, num certo sentido, isso cria menos empatia com a segurança hídrica”, evidencia a antropóloga Susana Fabre. “Qatar é uma península e a biodiversidade está muito nos oceanos.”

Desta conferência esperam que saiam colaborações e que os países se vão comprometendo a proteger 30% dos ecossistemas marinhos até 2030. Susana Fabre e Mariam Razavi querem fazer parte desta mudança. “Esperámos dois anos”, dizem sobre a ansiedade de estarem presentes neste evento em Lisboa, que tinha sido adiado por causa da pandemia de covid-19.

De perto, atento a tudo o que se vai passando pelos corredores, está o experiente Stephen de Mora. Veio de Inglaterra e está a representar o Instituto de Engenharia Marítima, Ciência e Tecnologia, que é um organismo internacional sediado em Plymouth, no Reino Unido​. Diz-nos que desde meados dos anos 90 que fala e ensina temas relacionados com as alterações climáticas. Muita gente ouviu-o, mas também se deu muito espaço ao negacionismo ambiental, resume sobre a sua longa viagem, em que sempre se interessou sobre poluição marinha.

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Desde meados dos anos 90 que Stephen de Mora anda a falar de alterações climáticas Nuno Ferreira Santos

Veio a Lisboa porque esta é a maior conferência sobre o oceano e porque acontece com muito pouca frequência. “Espero aprender algumas coisas e que progressos sejam feitos”, aguarda sobre estes dias. “É uma boa forma de se criarem redes e de troca de ideias.” O relógio climático está a contar e, ainda que não saiba se temos tempo suficiente para remediar tudo o que não fizemos, continua a achar que é tempo de actuar. “Estamos agora a tentar actuar pelo tempo que não actuámos há uns anos. E agora temos a guerra da Ucrânia… Vivemos num mundo de loucos.”

Cabeças de peixe e cavalos-marinhos na ria Formosa

A conferência também se vive fora da Altice Arena. Em frente ao Oceanário de Lisboa, o movimento Ocean Rebellion faz uma acção contra a pesca excessiva. Três activistas envergam umas máscaras faciais volumosas de peixe com redes de pesca à volta e vestem fatos formais. Numa das mãos têm malas de negócios com as mensagens: “End overfishing [Fim da pesca excessiva]”, “Ecocide [Ecocídio]” e “War on fish [Guerra ao peixe]”. Na outra, têm peixes que esmagam com força. Quem está perto, sente o cheiro desses animais. Uma outra activista surge com um chapéu de pescador e deita um líquido que representa sangue pelo chão e pelos peixes.

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Acção de activistas contra a pesca excessiva Nuno Ferreira Santos

Essa activista é Sophie Miller. “Esta acção é parte daquilo que as Nações Unidas têm de fazer: terminar com a pesca excessiva”, diz-nos euforicamente e a segurar um cartaz onde se lê “No more fish in the sea [Não há mais peixe no mar]”. “Exigimos que parem agora a pesca excessiva. Há vidas que dependem disso.” Esta terça-feira farão outra destas acções, mas a activista confessa: “Não espero nada [desta conferência].”

Ao contrário da activista, bem perto dali, junto ao Pavilhão do Conhecimento, Afonso Marques revela-nos que está expectante sobre o que possa sair da conferência. O aluno de 15 anos está a participar no Encontro Nacional Escola Azul (um programa para literacia do mar nas escolas) e assiste a experiências sobre como a acidificação dos oceanos. Ali, neste evento lateral à conferência, diferentes escolas cantam, mostram projectos, jogam e fazem pinturas faciais – tudo relacionado com o oceano.

“Ali daquele lado já é uma coisa mais formal. Estão ali representantes de países, cientistas – pessoas importantes. Não é que não sejamos importantes…”, diz em jeito de brincadeira. “Estão a chegar a um acordo e a medidas para que todos os países consigam alcançar todos os objectivos.” Juntamente com outros dos seus colegas da Escola João da Rosa, em Olhão, também ele está em Lisboa com um objectivo – veio fazer uma apresentação sobre a ria Formosa, no Algarve.

A ouvir a conversa, um dos seus colegas – e irmão –, interrompe para deixar bem claro: “Temos de preservar a ria Formosa. Há lá uma das maiores comunidades de cavalos-marinhos do mundo.” Bernardo Marques tem 11 anos e já aprendeu que a protecção da ria Formosa é importante para todos. E o seu irmão mais velho complementa: “Temos de continuar a trabalhar para a ria continuar formosa.”

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Alunos de uma escola de Olhão vieram a Lisboa fazer uma apresentação sobre a ria Formosa Nuno Ferreira Santos

A uns metros de distância, Jacopo Pasquero concorda com Bernardo e Afonso Marques. Não se conhecem, mas ambos os lados concordam que todos ganhamos com a conservação do oceano. Jacopo Pasquero está na fila para entrar no evento “das pessoas importantes” – como diria Afonso Marques – e veio a Lisboa em representação da organização não-governamental European Bureau for Conservation and Development​, que tenta fazer a ligação entre a conservação do oceano e a produção alimentar.

A conversa com este jovem participante vai decorrendo ao ritmo de entrada na conferência (que nos casos mais demorados chegou a ser de cerca de 30 minutos) e tem de ser rápida. “Espero que haja um entendimento comum de diferentes partes da sustentabilidade do oceano”, expressa. Para si, o maior problema é a existência de caminhos diferentes e sem colaboração entre os interessados na defesa do oceano. “Espero que sejam criadas pontes.”

E quando fala de pontes é mesmo entre todos. Vestido com um fato, escolheu uma gravata cheia de aves coloridas. “Além de ser fashion, vai causar a impressão que não estamos só aqui pelos humanos. Somos todos parte do ambiente.”

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