Pedro Queirós teve medo de morrer no Evereste, mas continuou a subir até atingir o topo do mundo

“O Evereste é um dos lugares mais bonitos, trágicos e misteriosos do mundo.” O português, o sexto a alcançar o pico mais alto do mundo, vai buscar a sua força a um sonho: chama-se Dreams of Kathmandu e apoia crianças nepalesas.

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"Subir ao Evereste..." Pedro Queirós
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Pedro Queirós, “um gajo completamente normal” Pedro Queirós
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"E foi então que o avistámos. O topo do mundo." Pedro Queirós
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“E foi então que o avistámos. O topo do mundo. O topo do Evereste. Não havia mais sítio para subir. Éramos os homens mais altos do mundo naquele momento. Estávamos sozinhos.” 9h39 do dia 9 de Maio de 2022. Pedro Queirós e Mingma estavam a dois metros do cume. O seu sherpa foi primeiro, ajoelhou-se e agradeceu aos deuses. O português avançou de seguida, abraçou o summit, gritou o nome da mulher Ghazal e do filho Vicente, olhou para o alto e disse obrigado. “Sabia onde estava e porque ali estava. A partir dali tudo ia ser igual e tudo ia ser diferente. Era o momento de uma vida.

Pedro tornara-se no primeiro não nepalês a subir ao topo do Evereste nesta temporada e o sexto português a alcançar o pico mais alto do mundo. Conseguiu-o aos 40 anos. Com 40 graus negativos e ventos entre os 50 e os cem quilómetros hora, “rajadas de meter medo”. “O Evereste é um dos lugares mais bonitos, trágicos e misteriosos do mundo. O fascínio que o ser humano tem por este lugar só é comparável ao místico, à criação e ao sobrenatural.” Em conversa com a Fugas, uns dias depois, Pedro tentava explicar um “sentimento fortíssimo de superação”, um desejo enorme de não morrer na montanha, de não querer ficar por ali como muitos outros ficaram, mais um corpo congelado — como os que encontrou pelo caminho —, de não querer fazer o caminho “numa só direcção”. E principalmente a vontade imensa de cumprir o seu objectivo, a meta que lhe dá forças quando está esgotado e que no fim é sempre o seu sonho, o projecto Dreams of Kathmandu — com esta aventura angariou 9793,51 euros aos quais juntou do seu bolso o restante para perfazer dez mil euros redondos, 400 para cada uma das 25 crianças nepalesas que está a apoiar.

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Pedro e um "sentimento fortíssimo de superação" Pedro Queirós

“Subir ao Evereste... Estou a falar contigo e eu próprio não acredito que estive no topo do mundo”. Pedro descreve-se como “um gajo completamente normal” que vai ao Lux e ao Bairro Alto jantar fora, “cem por cento alfacinha”, “cidadão do mundo” que começou a explorar cá dentro (Serra da Estrela, Douro, Minho, costa alentejana...) para se perder de amores lá fora, depois de uma vida inteira de Gestão (pela Católica), multinacionais, vida de escritório, uma segunda licenciatura em Agricultura em Inglaterra (objectivo: “comprar terras em Portugal"), projectos na Argentina e na Austrália (Worldwide Opportunities on Organic Farms), um InterRail e uma viagem de mochila na América do Sul. Sentia-se “mais simples e mais livre”. Aos poucos, apercebera-se que a vida “tinha outras coisas”, que ainda era capaz de “recuperar sonhos de criança”.

Aquela viagem de 2015, que seria “a última” antes de se estabelecer em Portugal, marcou “a grande transformação” da sua vida. No primeiro dia, em Halong Bay, conheceu “a mulher mais bonita”, fez um desenho de Ghazal, com quem viria a casar e com quem vive há cinco anos em Teerão. No fim da mesma viagem, visitava o Campo Base do Evereste quando aconteceu o fim do mundo, o grande terramoto de 25 de Abril, o mais violento em 81 anos que resultou em milhares de mortos e de feridos e que fez Pedro Queirós agir. “Do nada, criamos a missão Obrigado Portugal, criámos um campo de refugidos, alimentámos cerca de 50 mil pessoas. Nunca tinha feito trabalho humanitário na minha vida. Tive que dar muito de mim, mas ao mesmo tempo recebi muito”, conta Pedro a propósito dessa metamorfose. “Transformei-me no homem que sempre quis ser”. A “grande tragédia” despertou em si “coisas novas”. “Passei a ser uma pessoa muito mais generosa e livre e apaixonada por aquilo que faço”.

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Pedro Queirós

Acima de tudo, o português não queria que todo o seu esforço humanitário fosse efémero e que as pessoas que conheceu caíssem no esquecimento. Os miúdos que conheceu perguntavam “Vocês voltam amanhã?” (Nome do livro que escreveu com os companheiros de viagem Lourenço Macedo Santos e Maria da Paz Braga) e ele até hoje responde que sim. Cem por cento dos fundos angariados com as suas aventuras são para os projectos relacionados com a educação, saúde, nutrição e habitação de famílias nepalesas. Pedro detecta a necessidade, angaria o dinheiro e publica fotografias e facturas de tudo o que gastou e de tudo o que alcançou. “Máximo de rigor e transparência”, sublinha. Todas as despesas das suas aventuras saem do seu próprio bolso (é consultor de investimentos na capital do Irão, onde Ghazal tem uma exploração de pistácios orgânicos que baptizou com o seu nome).

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"Só pensava que não queria morrer" Pedro Queirós

Tendo em conta que “não é fácil angariar fundos para o Nepal”, criou aquilo a que chama de “aventuras humanitárias”, que lhe permitem “viver grandes aventuras numa lógica de superação”. “Exploro o meu potencial enquanto ser humano, ajudo os mais necessitados e vivo os meus sonhos. Viajo, vivo grandes aventuras, escalo as montanhas e peço à minha comunidade, aos meus amigos e pessoas que me seguem nas redes sociais, que escalem comigo. E as pessoas identificam-se.”

Este grande poder traz-lhe uma “grande responsabilidade”, que faz com que prepare minuciosamente as suas jornadas e o seu próprio corpo. Para este Projecto X, por exemplo, foi treinar para o Quénia 45 dias com “grandes atletas” locais ("eles têm mil atletas com tempos para ir aos Olímpicos"), isto para além do seu treino regular, 150 quilómetros de corrida por semana, ginásio, ioga, escalada e natação.

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"Isto é um monstro, impossível de escalar" Pedro Queirós

Quando olha para trás, recorda “isto é um monstro, impossível de escalar”. E vai repetindo a aventura da subida ao Evereste como se de um sonho se tratasse. “Eu e mais três sherpas. Partilhávamos tudo. São como família”, sublinha Pedro, com “grande respeito pelo povo das montanhas” que o terramoto fez com que fizessem parte da sua vida. “Subir sem o apoio dos sherpas é apenas para um por cento dos alpinistas”. São eles que transportam a comida, o oxigénio e as tendas. São eles que fixam as cordas até ao topo. “São a tua bengala, o teu farol, a tua luz.” Principalmente quando o forasteiro é invadido pelo medo, pelo frio, pela solidão e por todas as questões técnicas que estão mais ou menos planeadas, mas que lá, na montanha, parecem Adamastores, o “labirinto de fendas de gelo”, paredes de 20 e trinta metros sem solução, um glaciar em constante movimento, uma avalanche que passou a cinquenta metros de distância. “Só pensava que não queria morrer. Estava bem preparado, tinha excelente equipamento, mas estamos a falar do Evereste, onde todos os anos morrem três, quatro, cinco pessoas. Não queria ser um mártir”.

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Pedro e Mingma sherpa Pedro Queirós

Ao todo, a expedição, que começou a 8 de Abril, durou 35 dias. Foram 12 dias até ao Campo Base, que é a meta de muitos. E dez dias a viver no Campo 2 — o português decidiu não fazer a tradicional aclimatação, mais demorada, que consiste em voltar ao campo anterior antes de subir ao seguinte. Campo 3 a 7 de Maio, South Col no dia seguinte, oito mil metros de altitude, “vento descomunal, parece que estás na lua”.

“Eram 22h30 da noite de domingo dia 8 de Maio de 2022. Mingma, o xerife da cidade, muito calmo e sábio, deu-me um toque na perna como quem diz: ‘Está na hora, vamos.’ Mas não era necessário, eu estava acordado há quase três dias.” A recta final — à sua frente estava a maior montanha do mundo, dez a 12 horas de escalada seguidas a subir e... o regresso — está descrita num post na sua conta de Facebook que vale a pena ler sem respirar. “'Vou viver e vou continuar'”, resume agora Pedro. “Gelo, gelo, neve, neve e de repente avistei o topo.” Pôs um pé na China, tirou algumas fotos e voltou costas ao cume ("subir é opcional, descer não"). Foram mais 36 horas até ao Campo Base, 36 horas até estar em segurança e mais quatro histórias para contar: a dos três cadáveres que viu na descida, a das vezes que adormeceu a pé, a da queda numa fenda de gelo (salvo pelas cordas) e a da máquina fotográfica que ficou pelo caminho (recuperada por uma equipa da National Geographic que vinha logo atrás dele).

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"O Evereste é um dos lugares mais bonitos, trágicos e misteriosos do mundo" Pedro Queirós

Uns dias depois, já Pedro estava seguro e o explorador continuava preso no Evereste. “Não estou na montanha mas é como se ainda estivesse”, escreveu. “De noite ainda sonho com o Evereste. Nas últimas duas noites acordei no meio do quarto a caminhar e não sabia onde estava. A dormir, também tenho ataques de tosse intermináveis. Chamam-lhe a tosse de Khumbu. Desde que a Ghazal voltou para Teerão, o meu escudo de energia esvaziou e tenho dores por todo o lado, principalmente nos pés e mãos. Os lábios ainda sangram por vezes. A roupa está-me toda grande e a pele vai-se deixando cair.”

Foram 13 dias sem dar notícias. Para a história fica uma carta de despedida molhada em lágrimas que nunca chegou aos destinatários da qual fazia parte a lista de herdeiros do Dreams of Kathmandu, embaixadores do seu sonho, “outras pessoas que ajudam pessoas a fazer as coisas acontecer”. Tiago Bilbao, Pilar Bilbao, Pedro Bento, Luís Ferreira, Andreia Nogueira, Rui Colaço, Margarida Colaço, Ricardo Henriques e Dina Cruz.

No seu Facebook, de repente as fotos da montanha, do fim do mundo, deram lugar a crianças sorridentes que vão receber bolsas de estudo, Binita Kafle, Simran, David, os irmãos Ritu e Rizen Pudasaini. A escalada ainda agora começou.

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Pedro no topo do mundo Pedro Queirós
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