Quinta de Alcube: pode-se engarrafar uma paisagem?

É preciso cruzar os limites do Parque Natural da Arrábida para encontrar esta quinta encaixada num vale entre as serras de São Francisco, São Luís e Arrábida. A natureza está por todo o lado: rodeia as vinhas, impõe-se na paisagem, imprime carácter ao vinho. E, por extensão, empurra-nos para o modo lírico, por mais que tentemos manter os pés assentes no chão.

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Quinta de Alcube, Azeitão (Setúbal) Marisa Cardoso
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Quinta de Alcube, Azeitão (Setúbal) Marisa Cardoso
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Quinta de Alcube, Azeitão (Setúbal) Marisa Cardoso
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Quinta de Alcube, Azeitão (Setúbal) Marisa Cardoso
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Quinta de Alcube, Azeitão (Setúbal) Marisa Cardoso

É fácil distrairmo-nos. Damos por nós e já nos fugiu o pé para a poesia. Pode ser pelo túnel de alfenas por onde, das mesas do alpendre, se vislumbra o solar. Ou por causa dos talhões de vinha rodeados de bosque e pelas serras de São Francisco e São Luís. Ou então pela sala de provas panorâmica, com vistas de postal sobre os maciços rochosos da Arrábida. É natural: na Quinta de Alcube, tudo parece ali posto para nos distrairmos do mais importante.

Por isso, vamos já direito ao mais importante. Os vinhos da Quinta de Alcube são especiais, fruto da paisagem onde nascem. Não, a quinta não fica “perto” ou sequer “com vista para” o Parque Natural da Arrábida: Alcube está exactamente dentro da área protegida, faz parte dela.

As vinhas, que rondam os 40 hectares numa propriedade cinco vezes maior, estão espaçadas, entre prados floridos, manchas de sobreiro e azinheira, extensões de pinhal, as margens de uma ribeira que correrá mais vistosa nos dias chuvosos. Por todo o lado, natureza fulgurante. Mas falávamos de vinhos.

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Mais longevidade com menos intervenção

O território onde estes vinhos nascem imprime-lhes carácter. Os solos, “mais ricos” do que os da generalidade da região, são argilo-calcários, “com muita água disponível a pouca profundidade”. A explicação é dada por Pedro Serra, cuja família está ligada a este vale há pelo menos seis gerações. A quinta pertencia ao tetravô de Pedro e, há um quarto de século, foi comprada à família pelo seu pai, João Serra. João, agrónomo de formação, está mais ligado às vinhas, Pedro trata da gestão e Alexandra, sua irmã, tem o pelouro dos eventos e das provas.

“E o microclima deste vale” – continua Pedro, dando como termo de comparação Setúbal, a seis quilómetros em linha recta – “dá diferenças de temperatura que podem atingir os seis graus, para cima no Verão, para baixo no Inverno.” Com esta amplitude térmica, “os vinhos são mais encorpados, mais alcoólicos”. Brancos na casa dos 14%, tintos a bater nos 15%. Não quer isto dizer que a família Serra procure produzir vinhos monolíticos. Interessa-lhes, sim, menos açúcar residual, “o que significa menos estabilizantes, logo menos intervenção”, e a ideia de vinhos mais longevos. E também entra aqui, claro, o gosto pessoal. “Como não sou do mundo do vinho”, explica Pedro, “não sou muito agarrado a predefinições de como deve ser o vinho. Trabalhámos sobre o nosso gosto desde o início.”

Sala de provas, Quinta de Alcube, Azeitão (Setúbal) Marisa Cardoso
Quinta de Alcube, Azeitão (Setúbal) Marisa Cardoso
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Um bom exemplo de que estão a fazer alguma coisa de acertado é que a produção tende a esgotar rapidamente, o que é ainda mais impressionante se atentarmos que só vendem na quinta. Na loja, onde também servem tábuas de queijos e enchidos, no mesmo balcão onde vendem queijos de Azeitão, biscoitos de produção local, laranjas da quinta. Ou então na sala de provas panorâmica, ampla e cheia de luz natural, que foi finalmente estreada, pronta que estava antes de a pandemia forçar uma pausa no enoturismo.

O melhor caminho para lá chegar é pela adega, através de um corredor “cronológico” que conta a história do vale através de vestígios arqueológicos ali achados. Um atestado à riqueza desta terra, cultivada desde tempos longínquos.

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Sala de provas, Quinta de Alcube (Azeitão) Marisa Cardoso

Em busca do equilíbrio

A quinta é propícia ao passeio. Há placas a identificar espécies de flora, castas incluídas, e não faltam sombras onde parar para abrir um vinho, um queijo que lhe faça parelha, e tirar partido da envolvente de Parque Natural. Em consonância com a paisagem de que faz parte, a Quinta de Alcube tem as suas vinhas em produção integrada, que permite “combater o que é nocivo à planta com menor impacto ambiental”, sem entrar no domínio do biológico, coisa em que Pedro diz não acreditar: “Não penso que seja viável uma produção [biológica] com escala para a humanidade.” Sustentabilidade é também isso: alimentar um planeta.

Essa preocupação encaixa também no modo de vindimar, através de meios mecânicos que permitem ganhos de rapidez e de selecção de cachos por estado de maturação: “Com isto, conseguimos escolher o dia da apanha com base naquilo de que precisamos”, explica Pedro, defendendo o mínimo de intervenção sobre as vinhas e sobre a matéria-prima. “Quanto menos o homem interferir nas uvas e no vinho, mais o vinho é o espelho do território.” À mesa da sala de provas com a tal vista que teima em distrair-nos do copo, descobre-se todo esse território, nas suas muitas nuances, espelhado no vinho. A poesia, quase sem darmos por ela, teima em meter-se na conversa. Alcube faz-nos isto.

Quinta de Alcube
Rua do Alto das Necessidades, Azeitão (Setúbal)
GPS: 38.5309, -8.9722
Tel.: 212191566
Web: quintadealcube.pt
Loja das 09h às 13h e das 14h às 18h
Visitas e provas sujeitas a marcação (a partir de 6,50 euros, c/ prova 4 vinhos)


Este artigo foi publicado no n.º 3 da revista Solo.

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