Filipe Cerejo é o Sangue Novo. E os arraiolos de Béhen no segundo dia da ModaLisboa

O jovem criador venceu o prémio Polimoda e poderá frequentar um mestrado na escola de moda em Florença, Itália. O serão de sexta-feira ficou, ainda, marcado pelas apresentações de Duarte, Béhen e Kolovrat.

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A colecção de Filipe Cerejo Ugo Camera
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O vencedor do Sangue Novo, Filipe Cerejo Ugo Camera
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A colecão de Maria Clara Ugo Camera
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Ivan Hunga Garcia, a concurso no Sangue Novo Ugo Camera
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Veehana, a concurso no Sangue Novo Ugo Camera
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Maria Curado, a concurso no Sangue Novo Ugo Camera
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A proposta de Duarte, inspirada no break dance Ugo Camera
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A designer Ana Duarte Ugo Camera
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A colecção da Béhen Ugo Camera
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Joana Duarte, designer da Behén Ugo Camera
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Proposta da Kolovrat Ugo Camera
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A criadora Lidija Kolovrat Ugo Camera

“Bem-vindos à Factory Lisbon no Hub Criativo do Beato. Estamos de volta e estamos juntos”, ouve-se na sala de desfiles da ModaLisboa, ao final da tarde desta sexta-feira. Está prestes a começar o segundo dia de desfiles e a chuva deu tréguas no complexo ainda em obras. Dentro de momentos, os cinco finalistas do concurso Sangue Novo vão cruzar a passerelle. Filipe Cerejo viria a vencer a distinção principal, em parceria com a escola de moda italiana Polimoda, e Maria Clara levou, ainda, para casa dois prémios.

Em Outubro passado, Maria Curado, Ivan Hunga Garcia, Filipe Cerejo, Veehana e Maria Clara conquistaram o lugar de finalistas no concurso Sangue Novo, a distinguir jovens criadores desde 1996. Todos os anos a plataforma recebe entre 70 a 100 candidaturas, recordava o presidente do júri Miguel Flor, em conversa com o PÚBLICO na primeira fase do concurso. Nos vencedores procuram qualidades como “identidade, qualidade e criatividade”.

Foi isso que encontraram em Filipe Cerejo, o vencedor desta edição. Com a colecção “Do you feel rush yet?”, o jovem designer arrecadou o prémio Polimoda, que lhe dará a oportunidade de frequentar o mestrado na escola de Florença, em Itália, a que se somam 3500 euros para impulsionar o desenvolvimento do projecto em nome próprio. “Foram tantos anos a querer este prémio que conquistá-lo foi mesmo uma missão cumprida”, diz, ao PÚBLICO, no rescaldo do desfile.

Nos últimos seis meses, Filipe e os restantes finalistas desenvolveram as suas colecções lado a lado com os júris e mentores do concurso ─ além do designer Miguel Flor, fazem parte a criadora Constança Entrudo, a coordenadora de eventos de moda Nelly Gonçalves, o director de design da escola Polimoda, Massimiliano Giornetti, e a stylist Rosamaria Coniglio, em representação do jornalista Federico Poletti.

A trabalhar em Londres, Filipe Cerejo confessa que foi desafiante conciliar o horário laboral com o desenvolvimento da proposta de sete coordenados. “Sinto que é uma colecção mais ousada para homem, que é algo que já queria explorar há algum tempo”, conta. O trabalho foi quase todo feito por si, da modelagem, ao tingimento dos tecidos ─ provenientes dos parceiros industriais do Sangue Novo ─ e até alguma da costura.

Filipe Cerejo Ugo Camera
Filipe Cerejo Ugo Camera
Filipe Cerejo Ugo Camera
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Ugo Camera

“Explorei muito o drapeado e deixem que as peças falassem por si, neste contraste dos roxos com cores mais neutras”, explica o jovem criador, natural do Porto. E o que dizem as peças é um desafiar de normas e proporções, com base na alfaiataria, levada mais além pelos materiais desportivos. Os casacos, por exemplo são vestidos com a cabeça pelas mangas. “Acho que foi isso que me fez vencedor: conseguir misturar diferentes materiais e todos eles funcionarem bem uns com os outros”, acredita.

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Filipe Cerejo Ugo Camera

A distinção da ModaLisboa em parceria com empresa Tintex Textiles foi atribuída à jovem designer madeirense Maria Clara. Durante três semanas terá a oportunidade de aprender sobre a indústria têxtil em Vila Nova de Cerveira. Deverá receber, ainda, um prémio monetário de dois mil euros. Além disso, arrecadou o prémio atribuído pelo público, patrocinado pela United Colors of Benetton, no valor de 1500 euros.

Em “I Had a Flashback of Something that never Existed”, dá continuidade ao trabalho da estação passada com o bordado da Madeira. Através da técnica de estampagem dos bordados, com recurso a anil, Maria Clara imprime os desenhos que evocam um mundo imaginário. “Pensei num mundo em que vivo bem, feliz e não há tantos problemas, onde não me sinto culpada por gostar de moda, onde não existem guerras, nem ódio”, conta.

Além dos bordados, Maria Clara explora, igualmente, as malhas, todas feitas por si à mão. Surgem com padrões e em peças quase inacabadas, que transmitem o carácter artesanal do trabalho da jovem madeirense. A viver no arquipélago, a designer assegura que, hoje, “com as redes sociais, o factor geográfico” já não é importante na moda.

Maria Claro Ugo Camera
Maria Clara Ugo Camera
Maria Clara Ugo Camera
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As despedidas sem regresso de Béhen

Depois de, na estação passada, ter feito uma homenagem às mulheres que desbravaram o caminho para a liberdade, Béhen de Joana Duarte faz, esta estação, com “Adeus, até ao meu regresso”, uma viagem pelas histórias de despedidas da família. “É o partir sem saber o quando é que se volta. Infelizmente, coincide com a actualidade, em que muitas pessoas estão a sentir o mesmo neste momento”, lamenta a criadora, em entrevista ao PÚBLICO fazendo menção aos mais de dois milhões de pessoas que já abandonaram a Ucrânia.

Os planos para a colecção da próxima estação fria são muito anteriores ao espoletar do conflito no leste europeu, mas é inevitável estabelecer o paralelismo em termos de temática. Já em termos visuais e materiais, a proposta de Joana Duarte tem uma novidade: a criadora usou, pela primeira vez, Arraiolos. A ideia chegou, uma vez mais, das histórias dos enxovais de família ─ a missão da marca é precisamente recuperar as peças desses arquivos reunidos, frequentemente, por mães e avós.

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Behén Ugo Camera

“Arraiolos é um material pesado e não fazia sentido trabalhá-lo numa colecção de Verão. Mas são particularmente interessantes porque há um simbolismo por trás dos desenhos”, explica. As tapeçarias transformam-se em casacos, malas, e até botas, assumindo formas femininas. A proposta de Béhen está, aliás, intimamente ligada à mulher, por ser (ainda) quem maioritariamente é responsável pela preservação destas artes.

Se inicialmente o projecto se dedicava apenas a recuperar peças perdidas em enxovais ou em espólios de artesanato, Joana Duarte explica que o tem levado mais além, no trabalho com as comunidades, gerando novo emprego para artesãs. Despertar o interesse das novas gerações nestas artes é o seu principal objectivo e, para isso, considera fundamental a apresentação na ModaLisboa, em virtude da atenção mediática conquistada.

Behén Ugo Camera
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Todavia, no preservar do artesanato e no trabalho que tem feito em comunidades, no norte do país, nos Açores e na Madeira, defende ser necessária mais liberdade temporal. “Daí, se calhar, este ser um ‘adeus até ao meu regresso’ porque preciso de tempo para trabalhar com estas artes”, avança, deixando em aberto se voltará na próxima estação ao calendário do certame.

No atelier, inaugurado no final do ano passado na Rua Poiais de São Bento, em Lisboa, a designer continua a recuperar enxovais de família e quem quiser pode levar peças antigas para transformação. “Obviamente se calhar não faz sentido ter 50 toalhas de linho como as nossas bisavós tinham. Mas se calhar faz ter camisas desse linho bordado e estarmos a apostar, à mesma, no bordado de Viana do Castelo”, defende.

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Behén Ugo Camera

Da ode ao artesanato a passerelle passa ao contraste tecnológico de Kolovrat com a colecção “Are Ghosting Us” A designer natural da Bósnia, Lidija Kolovrat, reflecte sobre a sensualidade das próprias peças que acredita serem, crescentemente, fluidas no género. Mantém-se a produção pequena que caracteriza a marca, bem como as formas fluidas e esvoaçantes, transversais a qualquer estação. Para o Outono/Inverno destacam-se, ainda, os vistosos sobretudos com uma estrutura exagerada e formas divertidas.

Kolovrat Ugo Camera
Kolovrat Ugo Camera
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Kolovrat encerrou, assim, o segundo dia de desfiles da ModaLisboa Metaphysical. Ainda que a moda siga a sua rotina de cada estação, no Hub Criativo do Beato não se ignora a tragédia na Ucrânia. Esta sexta-feira, a designer Ana Duarte ─ que apresentou uma colecção dedicada ao break dance ─ informou que doaria, para emergência humanitária, 10€ por cada peça de roupa e 5€ por cada acessório vendidos, este sábado, no site da marca Duarte. Na área social do evento, está em destaque o balcão da Unicef, onde se recolhem também donativos.

Para este sábado, 12 de Março, são esperadas as apresentações dos jovens Cravo Studios, Inês Manuel Baptista e Filipe Augusto, do consagrado Luís Buchinho, Buzina, Ricardo Andrez, Olga Noronha, Luís Carvalho e Hibu, a marca de Marta Gonçalves que regressa depois de ter estado ausente na estação passada. Os desfiles podem ser acompanhados em directo na página oficial do evento e nas redes sociais.

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