ONU pede “diminuição da tensão” em Tigré após bombardeamentos na capital

Os ataques aéreos marcam uma aguda escalada do conflito, mas podem ter o efeito contrário e “fortalecer a determinação de Tigré em resistir”. A crise humanitária está a aumentar de dimensão com a extensão dos confrontos a Amhara e Afar.

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Uma nuvem de fumo paira sobre um local atingido por um ataque aéreo, em Mekelle, capital da região de Tigré, na Etiópia STRINGER/Reuters

As Nações Unidas apelaram esta quinta-feira à “diminuição da tensão” em Tigré, no Norte da Etiópia, para “evitar mais vítimas” na sequência dos ataques aéreos que atingiram nos últimos dias a capital da região, Mekelle, e que provocaram a morte de três crianças.

O porta-voz adjunto do secretário-geral da ONU, Farhan Haq, indicou que tanto a organização como os funcionários das organizações humanitárias presentes na Etiópia estão “alarmados” pelo recentemente agravamento do conflito.

“Reiteramos o nosso apelo a todas as partes do conflito para que diminuam a tensão em Tigré, Amhara e Afar, de modo a evitar mais vítimas e o sofrimento dos civis”, disse o porta-voz.

Há quase um ano que se arrasta a guerra entre as forças etíopes do primeiro-ministro, Abiy Ahmed, e a Frente de Libertação do Povo Tigré (TPLF). Nos 11 meses de confronto, milhares de pessoas morreram, mais de dois milhões de pessoas foram forçadas a fugir e centenas de milhares estão em situação crítica de insegurança alimentar, segundo a ONU.

Mekelle não era palco de confrontos desde Junho, quando as forças tigré reclamaram o controlo da cidade. Mas na última semana o conflito recrudesceu: no espaço de três dias, a capital de Tigré foi alvo de dois bombardeamentos por parte da aviação etíope.

O primeiro ataque foi lançado na segunda-feira contra infra-estruturas de comunicação da cidade. Segundo os relatos, uma detonou perto de um mercado e de um hotel. Três crianças terão morrido em resultado dos bombardeamentos .

O segundo ataque aéreo foi lançado na quarta-feira, contra edifícios usados pelas forças tigré para fabricar e reparar armamento na periferia de Mekelle e contra um centro de treino militar, disseram as forças governamentais. No entanto, os líderes tigré, dizem que o ataque atingiu o centro da cidade. Pelo menos 14 pessoas ficaram feridas, três delas em estado muito grave, disse à Associated Press, Hayelom Kebede, antigo director do Hospital Ayder Referral.

Agravamento do conflito

Para William Davison, analista para a Etiópia do International Crisis Group,  “juntamente com a quantidade de efectivos, o controlo dos céus é das poucas áreas onde o Governo federal ainda tem vantagem militar”.

“O bombardeamento de áreas urbanas reforça a impressão de que Adis Abeba está disposta a arriscar as vidas de civis em Tigré como parte do seu esforço militar, algo que foi demonstrado pelas restrições contínuas impostas à ajuda humanitária e pela recusa de providenciar electricidade, serviços bancários e de telecomunicações na região”, continuou Davison.

E enquanto os bombardeamentos marcam uma aguda escalada do conflito, podem ter o efeito contrário do pretendido pelas forças etíopes e “fortalecer a determinação de Tigré em resistir”, acrescentou.

A par do agravamento do conflito, “as necessidades humanitárias também estão a aumentar em Amhara e Afar devido à extensão a estas regiões do conflito de Tigré”, disse Farhan Haq. “Todas as partes envolvidas devem respeitar sempre o direito internacional e garantir a protecção da população e das infra-estruturas civis”, acrescentou.

O alargamento do conflito para Amhara e Afar começou em Julho, quando as forças tigré anunciaram a recuperação de Mekelle após o Governo ter declarado um cessar-fogo unilateral. Na semana passada, depois de a TPLF ter afirmado que começou uma ofensiva em Amhara (onde vem conquistando terreno), as forças governamentais acusaram os rebeldes de terem “iniciado uma guerra em todas as frentes”.