O veludo continua a brilhar no escuro

O “mosaico”, o “fresco” de uma época novaiorquina com a sua quase infindável galeria de personagens, é algo que Haynes consegue maravilhosamente.

Foto
Ao contrário do que tantas vezes sucede nos documentários musicais, é um filme que se centra na banda, única e exclusivamente na banda, seu tempo e seu universo, sem procurar a legitimação hagiográfica

“Há oito milhões de histórias na cidade nua”, dizia uma lendária série de televisão americana e novaiorquina. A história dos Velvet Underground podia ser — é — uma delas. Também há, talvez não oito milhões, mas umas largas centenas de histórias na história dos Velvet Underground. Histórias de pessoas, certamente, mas também histórias de lugares, de ambientes, de uma época, de objectos, de discos, de concertos, de filmes. Ao contar a história da banda de Lou Reed, John Cale, Maureen Tucker, Sterling Morrison, Nico, Doug Yule — tantas histórias, já — o mérito maior de Todd Haynes é assinalar todas essas possibilidades, ser um simulacro do “hiper-texto” que não pode realmente ser mas cuja ideia deposita nas mãos do espectador. A ele a tarefa de imaginar, ou perseguir, todas as histórias que ficam esboçadas ou resumidas mas não aprofundadas, e quando dizemos isto pensamos em todas as figuras secundárias na saga (ou meramente no tempo e no espaço) dos Velvet, que com eles se cruzaram apenas marginal ou episodicamente, e que o filme evoca, atribuindo a todos, nem que seja por breves segundos, a possibilidade de também serem “superstars”. E isso, o “mosaico”, o “fresco” de uma época novaiorquina com a sua quase infindável galeria de personagens, é algo que Haynes consegue maravilhosamente, como se quisesse responder aos famosos “screen tests” de Andy Warhol, que de resto o filme repesca em abundância.