O silencioso cemitério nos 115 anos assinalando Senghor

Um destes dias, eu e o Senghor temos de ter a longa conversa. Talvez quando encontrar o texto que este escreveu sobre o 27 de Maio em Angola.

Andava para escrever este texto desde segunda 4, com os três primeiros volumes de Liberté, de Léopold Sédar Senghor, à minha frente, publicados pelas Éditions du Seuil, em 1964 (Paris) e mais uma Anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgache de langue française publicada pela Quadrige/Presses Universitaires de France, 1948 (Paris) precedida do Orfeu Negro de Jean-Paul Sartre, mas só mesmo a esta hora, 22h30 de sexta 8, é que encontrei paz para o fazer.

Um dos meus livros estava na mão de um professor amigo que em abril o levou a contragosto para preparar a sua exposição num seminário sobre o fenomenólogo austríaco Alfred Schutz (1899-1959) que viveu e morreu em Nova Iorque e que cruzou correspondência com o nome maior da filosofia alemã Edmund Husserl (1859-1983). Disse-me o meu professor que andava à procura do Outro, pois queria fazer uma comunicação para um colóquio internacional com o tema “The Stranger”. Não me pareceu por isso estranho que ele me tivesse contactado a mim, que procedi a uma rápida recolha de bibliografia nas prateleiras da minha parca biblioteca caseira, onde encontrei uma dúzia de livros, dois dos quais ele levou de bom grado, sendo que um por quase imposição, ao ter-se apercebido, quando se cruzou com o meu sobrolho arriado, de que não poderia suprir Léopold Sédar Senghor diante da encarnação que sou da mais perfeita estranha. Incomodaria que a escolha deixasse de parte o clássico e eu fiquei menos inquieta, ou pelo menos mais redimida, com aquela ideia de que ele ia ler algo de Senghor e abordá-lo com propriedade. Não sei se o fez, mas eu fiz com que pelo menos uma das obras de Sédar pesassem nos braços do meu amigo professor.

Esta semana, pus-me a refletir sobre o que Senghor pensaria deste corrupio europeu e estado-unidense pelos estudos pós-coloniais e pelo pensamento dos movimentos de libertação nacional dos países africanos sob domínio colonial. Obviamente que há muito de papistas que vêm concentrando em si e no seu caucasiano umbigo a sabedoria dos que nada sabem, julgando-se sempre os inventores da roda, mesmo quando a roda é quadrada e não há como ser-se profeta sem nunca ter avistado montanhas. Mas que este tipo de “tipo” anda por aí, sempre andou.

Hoje lá ganhei coragem e fui até à cave desenterrar os apontamentos amarelados de 1999, ano em que terminei a licenciatura em Filosofia, e tentar descobrir onde estava Senghor, que escolhi como tema da minha tese final. Li e reli a tese e os apontamentos e dei-me perante um exagero de pensamento sartriano. Estranhei e revi tudo outra vez. Lá estavam o honroso prefácio do Orfeu Negro com o Ser e o Nada, enterrados como pá na areia. Comecei a separar. De um lado coloquei as folhas onde Senghor era citado mais vezes, do outro coloquei as folhas onde o era Sartre. Acabei escandalizada. Duas ou três folhas apontavam Senghor em rabiscos numa biografia quase anódina, claramente retirada de alguma enciclopédia. Do outro, um volume de causar impressão. Papel e mais papel acerca do prefácio de Sartre e de todo o seu pensamento existencialista.

Completam-se hoje 115 anos do nascimento de Léopold Sédar Senghor e quase nada de verdadeiro se sabe sobre o seu pensamento. Que pertenceu à Academia Francesa, que os franceses se esforçam pela sua divulgação com o propósito principal da língua, mais do que pela genuína promoção do seu pensamento. Aqui e ali há referências, citações. Mas L. S. Senghor continua a ser um tabu, um fantasma assustador quando citado por um negro numa mesa de aventais burgueses servida por pós-plebeias do tipo Maria de Fátima Bonifácio e Helena Matos, a representar ordeiramente a quota CPLP na confraria caucasiana. Fica aquela fricção: será que se está perante um radicalista africano que nos vai fazer pagar por aquilo que eles sabem que nós sabemos que eles sabem que nós sabemos?

E andamos nisto há anos, tantos, que nem nós, negros africanos, queremos verdadeiramente saber, com medo de que, sabendo, eles saibam que sabemos e que mais uma vez se antecipem para que não nos subjuguemos. Repentinamente, e se não nos subjugarmos? Ou se eles permitissem que não houvesse subjugados? Guardei os apontamentos todos. Depois os livros. Um destes dias, eu e o Senghor temos de ter a longa conversa. Talvez quando encontrar o texto que este escreveu sobre o 27 de Maio em Angola.

Fica a nota de que nasceu a 9 de outubro de 1906, faz hoje 115 anos, em Joal-Fadiout, no Senegal. E fica este trecho de O Homem e a Besta, que sequer me atrevo numa tradução livre, tanta a pujança de cada palavra, a raiva, a consciência da subjugação, o ódio pelo domínio, o silêncio amargo da discriminação, a força frágil da fragilidade violenta, a submissão que é sempre o “não me calarão!”. E, depois, o Homem de Senghor e a sua elevação feita com os pés da raiz, com o Leão Sol Nascente, com essa natureza que ri e que traz em si um arco-íris.

Atentem que no fim, do lago nasce uma flor, nenúfares, que não é homem e tem a grandeza sagrada de extensão de mulher.