Lagos a transbordar tiveram um papel crucial na formação de vales em Marte

Artigo publicado esta quarta-feira na Nature conclui que as inundações de lagos tiveram uma papel mais importante e mais amplo na evolução da paisagem marciana.

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Exemplo de uma bacia de um lago em Marte (centro) e grande desfiladeiro de escoamento associado (estendendo-se para Noroeste a partir das margens da bacia), que se formou a partir de inundações THEMIS (NASA/JPL-Caltech/Arizona State University) and MOLA (NASA/GSFC/MOLA Science Team), Timothy A. Goudge.

As inundações causadas por lagos a transbordar em Marte terão causado cerca de um quarto da erosão dos seus antigos vales, onde há muito tempo se encontravam rios, de acordo com um artigo publicado esta quarta-feira na Nature. As descobertas são um importante contributo para compreensão da formação da rede de vales e rios em Marte.

“Acredita-se que a actividade da água superficial em Marte antigo tenha sido responsável pela erosão dos vales fluviais do planeta e pelo enchimento dos seus lagos durante uma era de formação da rede de vales que terminou na sua maioria há cerca de entre 3,5 e 3,7 mil milhões de anos”, adianta o resumo do artigo. Apesar de já ter sido descrita antes a importância do papel dos lagos que transbordaram em território marciano, na versão da história contada sobre os velhos tempos do planeta vermelho destaca-se habitualmente como mais importante e mais ampla a acção de processos erosivos persistentes e graduais causados pelo ciclo da água ali distribuída.

No estudo publicado agora na Nature, a equipa de investigadores apresenta as conclusões de uma análise ao desenho da paisagem marciana em áreas onde, no passado, a água líquida terá corrido através de antigos vales fluviais. “Os resultados demonstram que o transbordamento de água armazenada em lagos teve um papel crucial na formação da antiga rede de vales fluviais do planeta”, concluem. De acordo com os cálculos apresentados, as inundações causadas pelo transbordo dos lagos serão responsáveis pela rápida erosão de pelo menos 24% do volume dos vales detectados em Marte.

Os autores do estudo defendem que estas inundações ocorridas no passado “não só foram importantes para a erosão dos vales – por pura contribuição volumétrica – mas também influenciaram subsequentemente a evolução da paisagem marciana mais vasta, nomeadamente as terras altas das crateras”. Assim, este tipo de fenómenos deve ser tido em conta quando se estudam as propriedades dos vales dos rios marcianos e também em comparações com os sistemas geomorfológicos que existem na Terra, a forma como os rios influenciam as características da paisagem marciana.

Em 2020, num estudo publicado na Nature Astronomy , uma equipa de cientistas apresentou alguns detalhes sobre um conjunto de lagos com água salgada em Marte. Os investigadores defenderam que a composição extremamente salina das águas fará com que se mantenham líquidas durante mais tempo, baixando o ponto de congelação. A descoberta foi feita analisando dados da Mars Express da Agência Espacial Europeia e imagens de radar mostram pontos brilhantes naqueles locais e veio acompanhada de alguma expectativa sobre a presença de vida nestes lagos salgados.