Semáforo laranja para o PS

Se António Costa fizer uma leitura “fina” destes resultados eleitorais, vai objectivamente concluir que o melhor para o seu futuro político - e, quem sabe, para o PS - será abandonar o Governo e o partido antes do fim da legislatura.

O PS pode declarar-se vencedor destas autárquicas — tem mais câmaras do que o PSD e mantém a presidência da Associação Nacional de Municípios —, embora o até agora presidente desta, Manuel Machado, tenha perdido com estrondo a Câmara de Coimbra. Mas depois destas autárquicas nada será como dantes. A erosão do poder foi evidente. A queda de Lisboa é um sinal óbvio de que existe um descontentamento que ainda não chegou às sondagens — o que fez com que, até à última hora, ninguém acreditasse nas possibilidades do candidato do PSD-CDS, Carlos Moedas.

António Costa quis falar ao país antes de ser conhecida a derrota de Fernando Medina em Lisboa, o que, em si, é todo um programa. Medina foi simpático ao dizer que a sua derrota era “pessoal e intransmissível" mas dificilmente é possível dissociar o secretário-geral do PS e primeiro-ministro à queda, para o PSD, da capital do país. Se se associar ao desastre de Lisboa a queda de Coimbra para o PSD e o resultado miserável dos socialistas no Porto, estas autárquicas são obviamente um semáforo laranja para o PS. É hora do “páre, escute, olhe” antes que chegue mesmo o fim de ciclo. A rodovia e a ferrovia dão imensas metáforas para tempos que não são seguramente o pântano de há 20 anos — quando a queda de várias câmaras levou António Guterres, já muito desgastado no Governo, a demitir-se. Mas são um alerta para o PS, que já vai com seis anos de Governo sem maioria absoluta, mas às vezes com absoluta arrogância.

Se António Costa fizer uma leitura “fina” destes resultados eleitorais, vai objectivamente concluir que o melhor para o seu futuro político - e, quem sabe, para o PS - será abandonar o Governo e o partido antes do fim da legislatura. Empenhou-se como nunca nesta campanha, quase como se tratasse de legislativas, e tanto a vitória como o amargo de boca também lhe pertencem. Uma nova candidatura em 2023, oito anos depois, pode não ser o melhor projecto de vida. E também aprendemos nesta noite eleitoral que as sondagens que dão o PS em alta podem não estar certas - eram as mesmas que davam maioria absoluta a Fernando Medina.

Outra saída a que devemos estar atentos é a de Jerónimo de Sousa do cargo de secretário-geral do PCP. Na sua face triste, a anunciar que os comunistas tinham ficado abaixo das expectativas, havia qualquer coisa de despedida.