Moreno, bonito e sexy e ela também

Um entretenimento sofrível, apesar dos temas grandiloquentes.

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Preguiçosamente utilitária ou burocrática, a linguagem raramente vai além do lugar-comum Nuno Ferreira Santos

No dia 24 de Março de 2020, uma coluna de ambulâncias transportando 28 pessoas saídas de um lar de idosos e infectadas com o então ainda novo coronavírus foi apedrejada ao chegar a La Línea de La Concepción, pequena cidade espanhola vizinha de Gibraltar. Cinco dias depois (segundo a datação aposta no final do livro), Miguel Sousa Tavares (Porto, 1952) iniciava a escrita de Último Olhar, cuja acção começa e termina com a recriação daquele dia e do bárbaro episódio. Podem os leitores concluir, e bem, que a covid-19 é um dos (oportuníssimos) temas do novo romance do autor de Equador, outro sendo constituído por um ramalhete clássico de garantido efeito (e, por isso, quiçá, sempre oportuno): a Guerra Civil espanhola, os campos de refugiados republicanos em França, a Segunda Guerra Mundial, o nazismo, os campos de concentração. Não, Último Olhar não é mais um romance sobre Auschwitz. Sousa Tavares optou por Mauthausen. O referido ramalhete dá ao autor a oportunidade de contextualizar historicamente, digamos assim, a vida da personagem Pablo com circunstanciados pedaços de prosa meramente informativa, assim poupando a leitores porventura menos cultivados uma consulta da Wikipédia. Mas, enfim, este municiamento informativo está para o romance dito histórico (ou semi-histórico, como será o caso deste) como os cenários e figurinos historicamente informados (para utilizarmos um conceito do campo musical) estão para as séries televisivas de época. É difícil escapar-lhes.