Somos todos feministas?

O título deste texto é uma pequena provocação. Sei bem que não somos todos feministas. Provavelmente nem seremos a maioria. Mas se ser feminista significa lutar pela igualdade de direitos, então temos a responsabilidade de fazer deste objectivo uma meta alcançável e não um ideal inatingível.

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Lindsey LaMont/Unsplash

A tomada de Cabul pelo regime taliban foi mote para incontáveis análises geopolíticas nos media tradicionais e outras tantas contendas das tribos instaladas nas redes sociais. Estas últimas reduzem a visão do mundo à ortodoxia rígida numa certeza de existir um só caminho”, como escreveu lucidamente Eduardo Lourenço. Com o mundo actual governado por homens autocráticos, com destaque para Xi, Erdogan e Putin, não é de admirar que o ataque claro aos direitos das mulheres afegãs tenha ficado protegido por palavras vagas para não hostilizar acordos actuais e futuros.

Perante este cínico xadrez político, eu defendo que as democracias ocidentais liberais têm o dever moral de não só não abandonar o povo afegão como promover direitos universais como o acesso à educação, cuidados de saúde e vida profissional para todas as mulheres. Como destacou recentemente a revista The Economist, as nações que cumprem os requisitos acima são mais livres, seguras e prósperas. Mas esta promoção só será eficaz se aliada ao discurso tivermos uma comunidade que pratique a igualdade.

No nosso canto luso, e ainda que reconhecendo o enorme avanço das últimas décadas, o patriarcado persiste. Se os meus leitores masculinos tiverem dúvidas disto, peçam às mulheres da vossa vida — sejam elas a vossa mãe, irmã ou colegas de trabalho — para descreverem o dia-a-dia. E ouçam com atenção. Vão, provavelmente, ser surpreendidos.

No meu caso concreto, sendo médico especialista em Medicina Geral e Familiar, percorri durante a minha formação variadas unidades de saúde (hospitais e centros de saúde) de diferentes cidades. Seria portanto simplista generalizar e caricaturar as minhas colegas como vítimas indefesas. Mas tal não significa que o ambiente da saúde seja perfeito para as mulheres e sem qualquer necessidade de melhoria.

Abaixo vou descrever alguns exemplos e sugestões de medidas a implementar. Alguns leitores devem estar já a franzir o sobrolho. O que poderá um médico acrescentar ao debate? Não será esta crónica um exercício de mansplaining? Consciente desta armadilha, vou recordar os desabafos das colegas e tentar focar-me nos temas com verdadeiro impacto.

Apesar de muitos serviços terem um grande número de médicas, ainda persiste a tendência para nomear homens para posições de chefia. É um fenómeno semelhante ao do mundo empresarial. Há uma raiz profunda para isto. Existe a noção errada de que a liderança certa tem de ser “forte” e que tal só será possível com um chefe masculino. Outro ponto é que a estrutura está ainda desenhada para um estilo de vida incompatível com o exercício da parentalidade. As reuniões e e-mails tardios são exemplos concretos disso.

Outro aspecto a salientar é o ambiente hostil para a maternidade tranquila. Felizmente a nossa legislação evoluiu no que diz respeito ao tempo de licença maternidade e tempo para amamentação. Mas demasiadas vezes ouço discursos em que se repete ad nauseum que “antigamente não tínhamos nada disto e também se criavam os filhos…”. Há ainda relatos de várias colegas às quais foi perguntado, no momento da entrevista para contratação, se pretendiam ter filhos nos próximos anos.

Quero acreditar que em todos as unidades de saúde há um estrito cumprimento da lei, mas nalguns locais tal parece um luxo e um peso para as equipas. De facto, a ausência da grávida e puérpera implica, na maioria das vezes, um aumento das horas suplementares pelos restantes colegas. Uma solução para este problema seria criar, para estas situações comuns, uma bolsa de colegas especialistas contratados temporariamente e sem intermediários.

O título deste texto era uma pequena provocação. Sei bem que não somos todos feministas. Provavelmente nem seremos a maioria. Mas se ser feminista significa lutar pela igualdade de direitos, então temos a responsabilidade de fazer deste objectivo uma meta alcançável e não um ideal inatingível.