Alteração do período de luto parental. Uma questão de humanidade e dignidade

Nestas situações delicadas, uma das coisas que sempre me confrange é ver pessoas em tamanho sofrimento a terem de lidar com todos os detalhes inerentes ao fim de vida. O funeral. O consolo aos outros. O eventual retorno ao trabalho.

A única competência que tenho para falar de pais em luto prende-se com a natureza das minhas funções na Acreditar, que me levaram a conhecer muito pais que perderam filhos. Cruzei-me, cruzo-me, com um número bastante superior de pais em luto àquele com quem se cruza qualquer pessoa que não lide diariamente com doenças que ameaçam a vida de crianças e jovens, como é o caso do cancro.

Ainda hoje, e após 19 anos de exposição a situações limite, como a da morte de um filho, fico sem saber o que dizer aos pais. As palavras parecem-me sempre insuficientes e muito desajeitadas. Porém, já me sinto mais à vontade substituindo-as por um abraço bem apertado.

Muitos pais que conheço perderam os seus filhos depois de meses, anos, de uma jornada muito difícil contra a doença. Dias e dias de hospitais. Dias de dor. Dias de esperança. Dias de desânimo. Dias de partilha. Às vezes, na fase final da doença já não sabem sequer se desejam que o filho continue vivo mais um dia, por perceberem que, apesar de precisarem de lutar por todos os minutos, não conseguem, por mais um segundo sequer, assistir ao sofrimento que não são capazes de minorar.

A morte vem, assim, muitas vezes como algo que já estava anunciado, mas que nunca foi aceite. Vem como um aturdimento total em que os olhos vazios dos pais nos dizem que nada do que está a acontecer ficará retido nas suas memórias. No momento, só têm lugar para o sofrimento.

Os nomes dos filhos foram ficando na minha lembrança, normalmente associados a sorrisos bons, olhares, brincadeiras, conversas. Os dos pais ficaram presos à dor de um momento.

Sei que muitos conseguiram dar sentido a essa dor. Conseguiram reinventar uma vida com a saudade e as memórias, sempre uma vida amputada do filho, que já não está com eles.

Nestas situações delicadas, uma das coisas que sempre me confrange é ver pessoas em tamanho sofrimento a terem de lidar com todos os detalhes inerentes ao fim de vida. O funeral. O consolo aos outros. O eventual retorno ao trabalho.

Sim, o retorno ao trabalho que tem de ser feito em 5 dias de calendário. Há pais que estiveram anos a acompanhar os seus filhos e que, em 5 dias, têm de pôr a casa em ordem. Têm dar apoio aos outros filhos, ao conjugue com quem perderam o diálogo para além do que que era inerente à doença do filho. Têm retomar uma vida que nunca, mas nunca será igual.

Claro que o tempo não apaga a morte de um filho. Porém, um pouco mais de tempo pode ser o essencial para voltar a casa, arrumar um pouco do que está desarrumado há muito tempo, dar colo aos filhos que o não tiveram, chorar e aprender a limpar as lágrimas. 

Para nós, alargar o período de luto parental é uma questão de dignidade e de humanismo.

Procurámos não ser excessivos e alinhar o pedido de luto parental para os 20 dias, à semelhança da Irlanda, o país europeu que nos pareceu oferecer a melhor prática nesta matéria.

Sim, o luto de uma vida não cabe em cinco dias. Provavelmente, dirão muitos, não cabe em 20 dias também. Mas 20 dias constituirão sempre uma possibilidade de retorno um bocadinho mais suave.

Por isso, lançamos a 1 de Setembro a petição para alargar o período de luto parental. Num mês de sensibilização para o cancro pediátrico faz todo o sentido que se lute pela dignidade de quem já lutou tanto, ao ponto de não ter mais força.

Desta vez, a sociedade que não gosta de falar de morte, de luto, discutirá um tema que é quase um tabu e ao discuti-lo entenderá que o que é pedido nesta petição é apenas um passo pequenino, mas absolutamente fundamental, para que o luto destes pais se inicie com a dignidade que eles merecem.