Catástrofe anunciada e pouco noticiada

Os governantes mundiais não fazem nada para travar, ao menos um pouco, as causas das acções antrópicas que provocam a actual “alteração climática” com o consequente “aquecimento global”.

No passado dia 22 de Agosto, na última página do PÚBLICO, Filipa Almeida Mendes, num excelente texto (“Choveu no ponto mais alto da calota polar da Gronelândia – e nunca tinha acontecido”), além de noticiar e explicar o fenómeno da chuva (14 de Agosto) no topo do Gunnbjorn Fjeld, realça bem ser uma gravíssima consequência do aquecimento global, com repercussões catastróficas futuras.

Uma notícia destas deveria ter tido muito maior realce do que o desastre humanitário que decorre no Afeganistão, que não tem repercussões globais e catastróficas como o degelo daquela calote polar. Nesse dia, por ser leitor diário do PÚBLICO, fui comprar outros jornais diários para me certificar se noticiavam tal catástrofe. Todos eles realçavam a descalabro humanitário do Afeganistão e apenas um trazia uma pequena notícia sobre o que estava a acontecer na Gronelândia. Como me recuso a ver os telejornais das estações de televisão portuguesas (prefiro abster-me de enumerar as razões desta minha atitude), perguntei a algumas pessoas se os telejornais desse domingo (22 de Agosto) tinham noticiado a referida catástrofe climática. Nenhuma noticiou.

Fenómenos destes, com consequências globais gravíssimas, pouco ou nada são noticiados, particularmente nos ditos telejornais, que são aproveitados pelos políticos para massacrarem os telespectadores com as suas imagens (praticamente, aparecem sempre os mesmos) e propaganda dos respectivos partidos políticos.

Felizmente, temos alguns jornais, particularmente o PÚBLICO, que vão noticiando e realçando fenómenos resultantes das “alterações climáticas”, como, por exemplo, a desertificação do Sul de Madagáscar, com seca dos rios, morte de gado e de muita gente (PÚBLICO de 04.07.2021); como também está a acontecer no Sul de Angola, com pessoas a morrerem ou a migrarem para o país vizinho, a Namíbia, abandonando os velhos à sua sorte (PÚBLICO de 25.07.2021); como temperaturas a atingirem 50ºC na Europa; como piroverões (em Portugal, não falha um Verão com incêndios devastadores, há dezenas de anos); como inundações devastadoras, onde nunca as houvera antes (Alemanha); etc. Aliás, toda esta migração de africanos através do Mediterrâneo para a Europa é consequência da desertificação do Norte de África, pois o deserto do Sara já atinge o Norte do Senegal.

Mas, os governantes mundiais não fazem nada para travar, ao menos um pouco, as causas das acções antrópicas que provocam a actual “alteração climática” com o consequente “aquecimento global”.

Como já referi (PÚBLICO de 30.06.2020), há uma tremenda irresponsabilidade e falta de ética dos políticos e governantes (mundiais e nacionais) de que são exemplos, os sucessivos falhanços das cimeiras internacionais sobre o ambiente. Desde a cimeira de Estocolmo (Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento e Meio Ambiente Humano), em 1972 (há cera de meio século), que eles se reúnem, sempre variando de cidade (gostam de passear) e, ou não chegam a qualquer acordo (por exemplo, a de Estocolmo de 1972), ou estabelecem acordos e normas, que assinam e, até hoje, nunca cumpriram. Apenas para se ter uma ideia do número dessas reuniões internacionais totalmente ineficazes, que houve desde a primeira (1972), citamos apenas as que se realizaram na década de 70: em 1975, Belgrado, com a promulgação da Carta de Belgrado para a Educação Ambiental; 1977, em Tbilisi​, com o Programa Internacional de Educação Ambiental; 1979, em Genebra, a Cimeira Mundial do Clima.

A partir da década de 90, como já se tinham realizado muitas dessas infrutíferas conferências, com variada e pomposa nomenclatura, passaram a utilizar siglas, como, por exemplo a ECO-92 (Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento), no Rio de Janeiro, 1992) e, finalmente, as COP, tendo-se realizado a primeira, a COP-1, Conferência das Partes, em Berlim (1995). Seguiram-se-lhes, anualmente a COP-2, em Genebra (1996), até à última, a COP-25, que se realizou em Madrid (2019), pois esteve marcada para o Rio de Janeiro, mas Bolsonaro não permitiu. Depois esteve marcada para Santiago do Chile, mas devido à instabilidade política no país foi transferida para Madrid. Mais uma vez, a reunião terminou sem um acordo global dos países presentes, com enorme desapontamento do secretário-geral da ONU, António Guterres. A próxima, a COP-26 (Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas), que deveria ter-se realizado em 2020, mas devido ao surto pandémico foi adiada para Novembro (1-12) de 2021, em Glasgow (Escócia).

Agora, que as consequências estão à vista de toda a gente, pois até os menos atentos já se aperceberam do que está para vir, lá vão os políticos reunirem-se em Glasgow, eles todos engravatados e elas vestidas com elegância. Mas, eu não acredito que desta COP-26 resulte qualquer acordo ou normativa que tenha a mínima eficácia em travar um pouco a velocidade das alterações climáticas, com o consequente aquecimento global, já irreversível.