Uma medalha de ouro levou à discussão sobre imigração e casamento em Israel

O ginasta Artem Dolgopyat venceu a segunda medalha de ouro da história de Israel. A cobertura mediática pôs a nu a diferença entre os requisitos para cidadania e para ser considerado judeu, o que tem implicações no Estado hebraico: Dolgopyat não se pode casar em Israel.

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Artem Dolgopyat e a namorada, Maria Seikovitch, no aeroporto Ben Gurion, em Telavive AMIR COHEN/Reuters

Por vezes, o desporto internacional põe uma lupa sobre histórias de atletas – ou de países. Em Israel, a medalha de ouro do ginasta israelita Artem Dolgopyat levou a uma discussão sobre a imigração num país em que a chegada de judeus é encorajada, mas, mesmo assim, com obstáculos criados pelas autoridades. No caso de Dolgopyat, queixou-se a sua mãe, o problema é não se poder casar.

É que em Israel não há casamento civil. Apenas podem casar no país pessoas da mesma religião, e o atleta não é considerado judeu de acordo com a prática ortodoxa, e por isso as autoridades religiosas não lhe dão esse estatuto (apenas o pai é judeu, e, para obter o reconhecimento, a mãe teria de ser judia). O que fazem muitos casais de religiões diferentes, ou que não tenham religião, é casar no estrangeiro – o Estado depois reconhece a união.

Para fazer a aliyah (literalmente, “subida”, ou seja, a imigração de judeus para Israel) é preciso que pelo menos um dos avós seja judeu, o que é suficiente para garantir a cidadania israelita. Mas para as autoridades religiosas que regulam o casamento, é preciso que ambos os noivos tenham mãe judia, como exige a prática ortodoxa.

Na reacção à medalha, a mãe de Artem Dolgopyat não se coibiu de apontar o problema. “O Estado não o deixa casar-se. Vive com a namorada há três anos, mas não pode casar”, explicou Angela Bilan em declarações à rádio israelita 103FM, acrescentando que a hipótese de ir ao estrangeiro era complicada pelos exigentes horários de treino. A namorada, Maria Seikovitch, mostrou o anel de noivado às câmaras do canal 13 da TV israelita, e disse que percebiam “as regras do jogo” em relação ao casamento.

Em editorial, o Haaretz explica que cerca de 400 mil israelitas, a maioria imigrantes da antiga União Soviética e os seus descendentes, não se podem casar em Israel, ou porque não são judeus sob a lei judaica, ou porque não têm documentos para provar que são. Além disso, Israel “é o único país democrático do mundo que não permite casamento civil no seu território”.

Muitos criticaram o facto de Dolgopyat ser o orgulho do país no pódio, mas ser tratado como “um cidadão de segunda classe” no dia-a-dia, como disse o ministro do Turismo, Yoel Razvozov, ele próprio imigrante da ex-União Soviética e ex-atleta, segundo o Times of Israel.

O orgulho foi tanto maior quanto o feito foi raro: Dolgopyat, de 24 anos, ganhou a segunda medalha de ouro da história de Israel. A primeira foi conseguida por Gal Fridman, em vela, nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004.

A sua família saiu da Ucrânia para viver em Israel quando o atleta tinha 12 anos. No Haaretz, Anshel Pfeffer nota que “esta é a medalha da imigração silenciosa, trabalhadora, que fala russo” – para quem o hebraico continua a ser um desafio e a discriminação também.

O artigo menciona ainda outro caso de diferença entre a representação olímpica de Israel e o dia-a dia-do país: a segunda medalha, bronze no judo em equipas mistas, “ganha por um grupo de atletas homens e mulheres a competir juntos no shabbat”, o dia de descanso em que parte do país pára e a companhia aérea nacional não faz voos. “O facto de muitos terem notado ambos os factos mostra quão profundo é o complexo de inferioridade dos israelitas seculares”, comenta Pfeffer.