Tribunal belga abre investigação à acção das autoridades nas cheias

Ministério Público de Liège questiona se pode ter havido “homicídio involuntário por falta de precaução ou previsão” nas cheias de 14 e 15 de Julho, em que morreram 38 pessoas.

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Rescaldo das cheias em Pepinster, na Bélgica STEPHANIE LECOCQ/EPA

Um tribunal belga abriu esta quarta-feira uma investigação às cheias no país de 14 e 15 de Julho em que morreram 38 pessoas. O inquérito vai focar-se na identificação de quem possa ter sido responsável por “homicídio involuntário por falta de precaução ou previsão”, anunciou o gabinete do ministério público de Liège esta quarta-feira.

Liège, na região francófona da Valónia, no Sul do país, foi a zona mais atingida pelas cheias.

Algumas das pessoas apanhadas pelas cheias disseram não ter tido qualquer aviso de que uma barragem em Eupen, na parte oriental do país, tivesse sido aberta. A barragem, que já estava em risco de colapso perla quantidade de água, abriu as comportas antes da evacuação total dos locais que viriam a ser afectados. 

No início da semana, um partido belga, o Centro Humanista Democrático, pediu uma comissão parlamentar de inquérito, declarando, no entanto, que a maior urgência “continua a ser ajudar as vítimas, e todos os esforços devem ser dirigidos à gestão da crise”.

A Alemanha foi também atingida na mesma altura por cheias violentas que deixaram mais de 180 mortos, e as autoridades foram acusadas de ter tido alertas precisos do Sistema Europeu de Alerta de Cheias (EFAS) mas de não terem avisado os residentes nas zonas de risco, nem os terem retirado dos locais afectados.

Na semana passada, uma investigação do jornal Het Laatste Nieuws, com sede em Antuérpia, revelou que as autoridades belgas receberam 25 avisos do EFAS mas que não parece ter havido qualquer acção até ao último minuto.

A investigação judicial não segue nenhuma queixa, nota o jornal Brussels Times, nem parte do princípio de que tenham sido cometidos erros, disse o procurador Damien Leboutte. “Queremos procurar a verdade em toda a serenidade, com toda a objectividade e independência, e com todo o respeito pelas vítimas e pelas suas famílias”, declarou.

Bruno Liesse, que faz parte de um movimento que junta centenas de pessoas afectadas pelo desastre, disse que é crucial analisar as decisões relativas à abertura das comportas da barragem. “Pode ter sido uma reacção de pânico, porque as águas estavam a transbordar. Mas talvez pudessem ter deixado as águas sair muito mais cedo e de modo mais gradual, em vez de ser toda ao mesmo tempo”, disse. “Não queremos atacar ninguém”, sublinhou. “Só queremos saber onde é que o sistema falhou.”

Antes, já alguns cidadãos preparavam um processo legal. Fabrice Dimbourg, agente da polícia de Verviers, é um de vários queixosos num processo em que se juntaram vários familiares de vítimas. “Quero saber o que se passou, mesmo que isso signifique gastar todas as minhas poupanças”, declarou Dimbourg, cuja avó morreu nas cheias. O advogado que representa este grupo, Thierry Delobel, diz que a abertura do inquérito é um sinal de que as vítimas estão a ser levadas a sério.

O governo regional da Valónia pediu uma análise aos dados que chegaram do EFAS e começou uma investigação sobre a gestão das águas durante a catástrofe, em especial sobre abertura da barragem.