Kremlin diz que Biden desconhece “as reais capacidades da Rússia moderna”

Presidente dos EUA desvalorizou a economia russa, dizendo que depende apenas de armas nucleares e poços de petróleo. Casa Branca pediu às empresas privadas que reforcem os seus sistemas de segurança contra ataques informáticos.

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O Presidente dos EUA discursou, na terça-feira, perante a liderança dos serviços secretos norte-americanos Reuters/EVELYN HOCKSTEIN

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, acusou o Presidente dos EUA, Joe Biden, de estar a reduzir as hipóteses de uma parceria entre os dois países e de desconhecer as reais capacidades da Rússia moderna”. A declaração de Peskov, esta quarta-feira, surge depois de Biden ter afirmado que a economia russa “não tem nada para além de armas nucleares e poços de petróleo”.

“É um erro dizer que não há mais nada na Rússia”, disse o porta-voz do Kremlin, citado pela agência Reuters. “É um erro e é uma má compreensão da Rússia moderna.”

Desde a chegada de Biden à Casa Branca, em Janeiro, o tom das declarações públicas dos responsáveis norte-americanos sobre a Rússia endureceu em relação ao que era habitual nos anos da presidência de Donald Trump.

"Guerra a sério"

Na terça-feira, num discurso perante os líderes da comunidade de serviços secretos dos EUA, o Presidente norte-americano manteve o tom de desafio e falou no risco de “uma guerra a sério, com tiros”, com a Rússia ou com a China.

“Se acabarmos envolvidos numa guerra — uma guerra a sério, com tiros, contra uma grande potência —, o mais provável é que a causa seja um ataque informático de grandes dimensões”, disse Biden, numa referência aos recentes ataques contra empresas e agências do governo norte-americano, cuja autoria os EUA atribuem a grupos apoiados pelo Kremlin.

Na mesma ocasião, perante a liderança das várias agências dos serviços secretos, o Presidente norte-americano menosprezou a capacidade da economia russa para se opor ao poderio militar dos EUA.

“Ele controla uma economia que tem armas nucleares e poços de petróleo, e nada mais”, disse Biden, referindo-se ao Presidente russo, Vladimir Putin. “A economia deles é o quê, a oitava maior do mundo? Ele sabe que tem problemas graves, e isso torna-o ainda mais perigoso.”

Na resposta, o porta-voz do Kremlin salientou o início de conversações entre as delegações dos EUA e da Rússia, esta quarta-feira, em Genebra, tendo em vista a estabilidade nuclear. E sugeriu que o discurso de Joe Biden, na terça-feira, foi feito à medida para causar uma boa impressão à comunidade de serviços secretos norte-americana, após quatro anos de uma relação conturbada com o ex-Presidente Donald Trump.

“Os Estados Unidos só muito dificilmente podem ser encarados como parceiros. A postura deles é mais parecida à de um adversário”, disse Peskov. “Ainda assim, é positivo que os especialistas dos dois lados estejam hoje sentados em Genebra”, concluiu o porta-voz do Kremlin.

Reforço da segurança

Num discurso muito centrado na ameaça da Rússia às infra-estruturas e ao sistema eleitoral dos EUA — através de ataques informáticos ordenados pelo Estado russo ou realizados por grupos criminosos tolerados pelo Kremlin —, Biden acusou Moscovo de estar já a interferir no processo para as eleições intercalares de Novembro de 2022 nos EUA.

Sem surpresas, o porta-voz do Kremlin rejeitou as acusações do Presidente norte-americano e reafirmou que a Rússia não interfere nas eleições nos EUA — uma afirmação contrariada pelos serviços secretos norte-americanos.

Em mais um sinal da gravidade da ameaça aos sistemas informáticos dos EUA, a Administração Biden pediu às empresas do país, esta quarta-feira, que reforcem a sua segurança contra potenciais ataques. Segundo a Casa Branca, as questões relacionadas com a segurança no sector privado “foram adiadas ao longo dos anos”, e agora é preciso “avançar rapidamente”.

“O governo federal não pode fazer isto sozinho”, disse à agência Reuters um representante da Casa Branca, citado sob a condição de anonimato. “Quase 90% das infra-estruturas vitais são detidas e operadas pelo sector privado. A segurança dessas infra-estruturas exige um esforço de todo o país.”