“Motivar os portugueses é também mantê-los informados”

A falta de clareza é um obstáculo à adesão dos portugueses a algumas medidas de protecção, diz Margarida Gaspar de Matos, psicóloga e coordenadora da task force criada para estudar o comportamento dos portugueses em relação à pandemia.

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Margarida Gaspar de Matos, psicóloga clínica e da saúde Daniel Rocha (arquivo)

Que mensagem deve o Governo passar aos portugueses para evitar o optimismo irrealista e para garantir o comportamento das regras individuais e que, daqui a alguns meses, não teremos de retroceder no desconfinamento?
O que sabemos agora é que a vacina protege de formas graves de infecção. Por isso, é importante passar a mensagem de que temos de continuar a proteger-nos, por via das medidas que já todos conhecem. Para gerir a motivação, temos de falar em coesão social, insistir na ideia de que, ao protegermo-nos, estamos a proteger todos. Temos de “validar” que estamos todos fartos e cansados e mesmo assim apelar para a utilização de todos os procedimentos que temos, durante mais um pouco: vacina, testes, máscaras, distância física…

Que obstáculos identificaram em termos da adesão dos portugueses às restrições?
Alguns desses obstáculos à adesão dos portugueses às medidas de protecção têm que ver com alguma saturação, mas, sobretudo, com alguma falta de clareza nos procedimentos e da razão da sua existência. Motivar os portugueses é também mantê-los informados e competentes na gestão da sua protecção! Os jovens são sobretudo críticos das medidas que não lhes são totalmente claras.

Justificar-se-iam medidas específicas para garantir a adesão dos jovens às regras de distanciamento e higienização, por um lado, e à vacinação, por outro, tal como fez a Grécia, que atribuiu vouchers dedutíveis em áreas de lazer para garantir a vacinação nestas faixas etárias?
No geral, é de esperar uma excelente adesão à vacinação por parte dos mais novos, sobretudo se se conseguir rapidez e cumprimento dos agendamentos. Os jovens mexem-se bem nos agendamentos online e o espaço de vacina podia ser aproveitado para informar e motivar a protecção. Creio que, por outro lado, algumas regras (por exemplo, o uso de máscara no exterior) podiam ser prudentemente descontinuadas neste Verão, como modo de gerir a saturação dos jovens e de os motivar a retomar activamente o seu uso no Inverno em espaços fechados. Aqui, pequenas diferenças podem ajudar a gerir a saturação sem pôr em risco a protecção de todos.