Projecto EILOS: notas sobre o impacto do acordo ortográfico nas escolas

Talvez agora possamos ter mais consciência de que nos encontramos no centro de um sistema linguístico que está a crucificar a própria língua.

Quando Primo Levi, o judeu italiano detido em Auschwitz, prestes a enlouquecer de sede, avistou uma estalactite, estendeu o braço para arrancá-la e sugá-la. Porém, um guarda deteve-o. Levi, por isso, perguntou: “Warum?”, isto é, “Porquê?”; ao que replicou o guarda: “Hier ist kein warum”, que quer dizer “Aqui não existem ‘Porquês’”. Quando pensamos em coisas absurdas, fazemos geralmente esta pergunta. Depois de o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) ter passado a vigorar nas escolas, houve quem fizesse essa pergunta. Mas, quando muitos professores deixaram de ser testemunhas do absurdo para se tornarem consciências infelizes do fatalismo, o seu novo compromisso foi deixarem de fazer perguntas. Na verdade, quem perguntava nunca obtinha uma resposta simultaneamente transparente e documentada. Os defensores do AO90 fugiram sempre a explicações coerentes, tantas as pontas soltas do desastre a que chamam “acordo”, de que uma das consequências foi a de nunca ter produzido – e jamais poder vir a fazê-lo – uma unificação ortográfica.

O projecto EILOS (Estudo sobre o Impacto na Linguagem Oral e na Sematologia – A090) foi implementado na última semana de aulas (14 a 18 de Junho de 2021), na Escola Secundária de S. Lourenço, em Portalegre, com apoio da direcção escolar, dos alunos envolvidos e dos respectivos encarregados de educação, que contribuíram significativamente para tornar disponível uma série de dados de tratamento linguístico, merecedores de reflexão. EILOS, acrónimo de Estudo sobre o Impacto na Linguagem Oral e na Sematologia, é um exame linguístico pelo qual se pretendeu obter documentação técnica relativa a (1) alterações ou súbitas convulsões na oralidade (que poderão desencadear gradual mudança de paradigma oral), decorrentes da leitura, e a (2) desestabilização e irreversível desordem no plano semântico. A expectativa inicial seria a de uma amostra de cerca de 90 alunos, respeitantes a 4 turmas, contudo tal não foi possível, limitando-se por agora a amostra a 30 alunos, concernentes a 4 turmas (9.º ano, 11.º ano – curso profissional, 12.º ano de Humanidades (2 turmas). Longe da amostra ideal, convém sublinhar que a variação nos dados poderá não sofrer alterações de monta com o seu alargamento – espera-se estender a análise a mais turmas no próximo ano lectivo. Seria gratificante apercebermo-nos de uma investigação linguística similar noutras escolas do país, de modo a alargar a documentação e as anotações técnicas e conceber uma “unidade” das investigações, com todas as suas variantes (zona geográfica, faixa etária, proveniência socioeconómica, nível de ensino, etc.). Este estudo foi apresentado, na altura sem o tratamento de dados, em conselho de Departamento de Línguas. Podendo encerrar uma componente de contingência, ela será sempre residual, bastando testar em situações e locais diversos.

No caso particular do EILOS, os alunos foram submetidos a duas vertentes técnicas: uma bateria de vocábulos de leitura em sequência ternária (por exemplo, excerto/ exceto/ excepto), sendo incluídos, amiúde, vocábulos grafados segundo a ortografia de 1945; um questionário de 5 perguntas, implicando a significação de pares de palavras parónimas (receção/recessão) e o reconhecimento ou não de ambiguidades sematológicas em frases como “E pronto, para a escola”.

Deu a surpresa de serem encontradas situações caricatas, tendências peculiares acentuadas, propensão para o emudecimento e apagamento de vogais pré-tónicas, mas, paradoxalmente, tendência para a prolação de vogais fechadas pré-tónicas a antecederem a sequência grafemática -ssão, por analogia decorrente da confusão gerada pela supressão da consoante muda (p ou c) na sequência -ção. Um reparo: a articulação dos vocábulos de grafia marcadamente pré-AO90 não constituiu casos de destaque no respeitante à articulação vocálica, se exceptuarmos a pronunciação, em boa parte das ocorrências, das consoantes mudas.

Comecemos pelos grandes números: o preciosismo da concisão obsessiva do AO90, mutilando a consoante c que antecede o grafema t no vocábulo coletânea, gerou uma percepção emudecida da pré-tónica e, tornada muda. O vocábulo coletânea teve direito a duas entradas no exercício oral, em duas sequências ternárias, a saber: coletânea/ colete/ coleta e borboleta/ coleta/ coletânea. No primeiro caso, surgiram 22 ocorrências (73%) e, no segundo, 21 (70%), num total de 43 ocorrências da palavra lida como coltânea [kulɨtɐnjɐ].

O AO90, portador de uma falsa necessidade unificadora, armada com letra de lei, gerou a grosseira entropia nos vocábulos portadores de sibilantes ss e ç: esse é o caso registado relativo ao vocábulo recessão (confundido com receção) com 22 ocorrências (73%) de vogal em posição átona aberta (e), lendo-se recèssão [rɨsɛsɐ͂]. Quanto ao gerador da confusão, receção, com omissão da consoante muda p, registaram-se somente 6,6% (2 ocorrências) com fechamento da pré-tónica, como em reç-ssão [rɨsɨsɐ͂], o que parece validar a hipótese de este termo prevalecer e contribuir para o desconhecimento do seu congénere (recessão).

Uma situação semelhante ocorreu com os pares interceção/intercessão: o vocábulo intercessão passou a deter uma prevalência de prolação aberta na vogal átona, com 21 ocorrências (70%), como em intersèssão [ĩtɨɾsɛsɐ͂]; por outro lado, interceção ocorreu 3 vezes (10%) com e mudo, exactamente como em intersessão [ĩtɨɾsɨsɐ͂], resultado de ausência de sinal diacrítico de acentuação. Aconteceu, talvez por analogia, o mesmo fenómeno de abertura da pré-tónica em secessão, vocábulo com o qual os alunos (e não só) estarão pouco familiarizados, sobretudo se o não apreenderem nas lições de História ou no contexto de Memorial do Convento: o termo deu origem a 13 ocorrências (43% dos inquiridos), na forma oral secèssão [sɨsɛsɐ͂].

Mas há mais: o vocábulo pré-AO90 concepção (de que resultam as palavras cognatas conceptualizar e conceptualização; sem esquecer a vocalização do p na semi-vogal i, como em conceito), destituído da consoante muda p, foi sujeito a 3 entradas em sequências ternárias específicas (excreção/ expressão/ conceção; concessão/ conceção/ concepção; Conceição/ conceção/ concessão), tendo sido verificado um total de 32 ocorrências (10, 12, 10, respectivamente), em que o termo regista um emudecimento da vogal átona e, lida como concessão [kõsɨsɐ͂w̃]. Por sua vez, a congénere concessão obteve um total de 19 ocorrências (10, 9), com abertura da pré-tónica, exactamente como em concèção/concepção [kõsɛsɐ͂w̃]. A confusão é evidente.

Para abreviar, farei somente registo de alguns outros vocábulos atingidos pela obstinação simplista do AO90: o vocábulo coação (na grafia de 1945, coacção), numa única entrada no exercício, registou 14 ocorrências (46,6% dos inquiridos) com emudecimento da pré-tónica a, lido então como coâção [kuɐsɐ͂w̃]; espetador (forma actual de espectador) registou um total de 18 ocorrências (14 e 4), num dos casos o correspondente a 46,6% dos inquiridos, com emudecimento da vogal átona e (a segunda das três vogais), lendo-se esptador (como “aquele que espeta”), isto é, [ɨʃ͂pɛtɐdoɾ]; exceto obteve 9 ocorrências (30%), com fechamento da vogal tónica (como excêto, [ɨʃ͂setu]; da mesma forma, infeto (7 ocorrências, 23%), coleta (14 ocorrências, em duas entradas), correto (2 ocorrências, 6,6%), e afeta (6 ocorrências, 20%), sempre com o mesmo tipo de emudecimento da vogal tónica, beneficiaram da investigação precipitada de filólogos subordinados ao poder político. Seria fastidioso enumerar a vasta lista de palavras sujeita à barbaridade do bisturi manuseado no laboratório linguístico do AO90. Já não nos surpreende que um acento, destituído de funções, tenha permitido que 23 alunos (76,6%) pronunciassem introito como intrôito [ĩtɾoɨtu]. Estes são dados provisórios, mas não casuais.

Alguma perplexidade suscitam, igualmente, os resultados do plano semântico: 33% dos alunos não distinguem o significado de receção e recessão (e 43% conhecem um deles); 73% não distinguem o significado de concessão e conceção (10% conhecem um deles); 60% não distinguem o significado de intercessão e interceção (16,6% conhecem um deles). Para cada um destes pares de vocábulos há uma percentagem de alunos que articula os termos sem distinção: 40%, 33% e 46,6%, respectivamente. Em relação à frase “Ninguém mais para o Acordo Ortográfico”, 76,6% dos alunos não reconhecem a sua ambiguidade, sendo esse valor o de 63%, para a frase “E pronto, para a escola”.

Longe de entrar nessa espécie de euforia que atribui todos os males da língua ao AO90, tenho a convicção de que ele introduziu suficientes factores de desestabilização na língua portuguesa, quando havia que ser prudente. Não me sinto agrilhoado ao latim e tenho consciência de que imensos vocábulos são falsamente dados como provindos directamente da língua dos romanos, quando, na verdade, deram entrada por via de castelhanismos. O novel vocábulo resiliência (dá um estudo de caso o deslumbramento com tal palavra), por exemplo, corresponde a um anglicismo de raiz latina. Porém, isso não me obriga a aceitar como pacífico o processo de deslatinização da língua, engendrado por académicos ditos linguistas, incapazes de prever o caos em que mergulharam a língua (que faria se tivessem o poder de o prever, perguntamo-nos), confiada entretanto a duas ou três normas gráficas. Já temos as provas. Podemos voltar a criá-las e proferir os respectivos diagnósticos. Talvez agora possamos ter mais consciência de que nos encontramos no centro de um sistema linguístico que está a crucificar a própria língua. Não temos desculpa para não sabermos.