Os partidos comunistas inimigos do comunismo

Os partidos comunistas (e suas transformações e derivados) têm sido fortes aliados (involuntários) do capitalismo.

Os recentes acontecimentos em Cuba, com as populações mais jovens em protesto contra o funcionamento do país, são uma espécie de eco do que, historicamente, tem acontecido nos países ditos comunistas. Desde a revolução bolchevique, do início do século XX na Rússia, muitas foram as tentativas de implantação do comunismo em diversos países, supostamente seguindo os pensamentos de Karl Marx.

Nesses países, os partidos comunistas chegaram ao poder e tentaram criar um modelo de sociedade que fosse diferente do capitalismo e do feudalismo.

A verdade é que essas implementações práticas basearam-se num conjunto de ideias concretas e iguais, independentemente das culturas e regiões (da América Latina à Ásia) onde estivessem a ser tentadas, e independentemente das subcorrentes da ideologia comunista. A saber: a planificação central da economia, um sistema político de partido único e o fechamento comercial face aos países capitalistas (com a excepção da China contemporânea, que se converteu num capitalismo de mercado).

São estas três características aquelas que, de forma mais ou menos dogmática, todas as tentativas de construção do comunismo tiveram. E são essas opções as grandes responsáveis pelo fracasso, a prazo, destas tentativas.

E é por isso que os partidos comunistas, na prática, têm sido inimigos do comunismo: ao se tornarem os partidos únicos, impossibilitaram a concorrência democrática entre partidos e ideias (à semelhança do que sucede na democracia liberal que, apesar de imperfeita, é a melhor forma de democracia já testada). Esse monolitismo origina caciquismos, seguidismos, sectarismos e autoritarismos.

Depois, ao optarem pela planificação central da economia, enrijeceram o sistema económico, tornando-o pouco capaz de acompanhar a evolução das ambições humanas. Finalmente, ao cortarem os laços com os países capitalistas, e ao serem seus antagonistas, tornam as relações internacionais tensas e desconfiadas, em vez de cooperantes e aliadas. Nem mesmo a aposta na massificação da saúde e da educação foi suficiente para estas nações prosperarem.

Com as ditas características, que se tornam verdadeiras restrições, não é muito difícil perceber que países assim geridos não se consigam sustentar. Até se pode é dizer que foi surpreendente o tempo que duraram os regimes implantados pelos partidos comunistas.

A verdade é que o comunismo nunca existiu e nem sequer necessita daquelas três características enunciadas. Aliás, Marx, que falou muito de capitalismo e pouco de comunismo, entendia que o capitalismo seria uma etapa fundamental rumo ao comunismo, e que este sucederia, naturalmente, àquele. Isto é, o capitalismo é que iria criar as condições tecnológicas sociais e políticas para a passagem para o comunismo.

Coisa diferente foi o Manifesto do Partido Comunista, onde Marx cedeu à tentação de querer, revolucionariamente, acelerar a história que ele previa que ocorreria naturalmente.

Hoje, não restam dúvidas de que essa tentativa de aceleração correu mal. Pior, como fracassou, corrompeu a própria noção de comunismo.

Por outro lado, nos regimes capitalistas, os partidos comunistas (e suas transformações e derivados) têm sido fortes aliados (involuntários) do capitalismo: ao proporem e votarem leis de livre acesso ao ensino, à saúde e à segurança social, para além de todos os direitos laborais, acabam por evitar que o capitalismo se extreme, o que o tornaria insuportável para a maioria das pessoas. 

Curiosamente, os partidos ultraliberais que existem, e os que aderiram a essa agenda (dentro dos conservadores, sociais-democratas e até socialistas), e se dizem defensores do capitalismo, são um perigo para esse sistema, como os partidos comunistas são para o comunismo. É que, ao empurrarem o capitalismo para a sua versão mais liberal, destroem a coesão social que só a social-democracia dá. Logo, retirar-lhe-iam o apoio popular.

O Marx do Manifesto do Partido Comunista estava errado. Mas o Marx que falou do capitalismo como etapa do comunismo (o do “de cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades”), pode bem estar certo: se olharmos para o mundo actual, o mais próximo desse comunismo que estamos é através do capitalismo tecnológico global, que vai embaratecendo cada vez mais os bens essenciais e que até nos oferece esquemas de optimização das escolhas individuais através dos algoritmos de inteligência artificial. Tem sido pelo capitalismo que o mundo se tem unificado, pacificado e tem conseguido erradicar muita pobreza absoluta.

Nenhum sistema social, económico e político é eterno. O capitalismo tem, como o feudalismo teve, os seus dias contados. Mas ainda não chegou o seu fim. Pelo contrário, ainda se vai expandir antes de se transformar noutra coisa qualquer. E essa outra coisa qualquer pode bem ser o comunismo.