“Bem-vindos ao meu país, Portugal”: Ai Weiwei inaugura a sua grande exposição em Lisboa

A grande exposição do artista e dissidente chinês Ai Weiwei abre amanhã na Cordoaria Nacional, em Lisboa. Na apresentação, Weiwei falou das suas galinhas e dos gatos acabados de nascer na sua propriedade portuguesa, ao mesmo tempo que criticou o regime chinês a propósito da política do filho único. Disse que esta é a sua maior exposição e que Portugal é agora o seu país.

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Ai Weiwei junto a Bicicletas Forever, a instalação à porta da Cordoaria Nacional Daniel Rocha
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Ai Weiwei junto a Bicicletas Forever, a instalação à porta da Cordoaria Nacional Daniel Rocha
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Ai Weiwei junto a Bicicletas Forever, a instalação à porta da Cordoaria Nacional Daniel Rocha
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Bicicletas Forever, a instação no exterior da exposição Rapture Daniel Rocha
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Figuras de bambu no lado da exposição mais ligado à imaginação e à mitologia chinesa Daniel Rocha
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Figuras de bambu e seda no lado da exposição mais ligado à imaginação e à mitologia chinesa Daniel Rocha
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Figuras de bambu e seda no lado da exposição mais ligado à imaginação e à mitologia chinesa Daniel Rocha
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Zodíaco, em esculturas e, na parede, em peças de lego Daniel Rocha

“Bem-vindos ao meu país, Portugal”. É assim, com um sorriso de quem sabe o impacto do que acabou de dizer, que Ai Weiwei cumprimenta os jornalistas na conferência de imprensa de abertura da sua exposição Rapture, que pode ser vista na Cordoaria Nacional, em Lisboa, a partir de sexta-feira, dia 4, e até 28 de Novembro.

Foi a “intuição” que levou o mais famoso artista e dissidente chinês da actualidade a escolher Portugal para viver. Não é algo que se explique. “Ou nos sentimos confortáveis ou desconfortáveis e aqui sinto-me confortável”. Mais para a frente irá falar das galinhas que está a criar na sua propriedade em Montemor-o-Novo, das árvores que já plantou e da gata que acolheu e que há duas semanas teve oito gatinhos – o que é “uma dádiva”. É o tipo de coisas às quais atribui “um significado mais profundo”.

Soma-se a isso o facto de a comida aqui ser “muito aceitável, de uma perspectiva chinesa”, e de Weiwei confiar “sempre num local que tem muito sol, o que torna a natureza humana mais fácil e mais saudável”. Portugal “é ainda uma nação nova de tantas formas, e juntos poderemos fazer muitas coisas ainda”. Esta exposição “é um bom ponto de partida”. Para já, tem planos para outra, no Porto, em Julho do próximo ano. E no início de Novembro lançará o seu livro de memórias, 100 Years of Joys and Sorrows, com tradução também em português.

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O artista junto às fotos Estudo de Perspectiva, nas quais mostra o dedo do meio a vários monumentos e edifícios simbólicos Daniel Rocha

 Rapture, disse Álvaro Covões, da produtora Everything is New, é já “considerada por muitos o maior evento cultural de 2021 no mundo” e tem curadoria do brasileiro Marcello Dantas, que nos guiou numa visita para a reportagem que pode ser lida no Ípsilon desta sexta-feira. Sentado entre Covões e Dantas, Ai Weiwei acrescentaria que é também a sua maior exposição até hoje, reunindo obras “que nunca se tinham encontrado antes e que são estranhas umas às outras”. E que poderão nunca mais estar juntas no futuro.

Ou seja, tudo para dizer que esta é uma oportunidade única de ver reunidos trabalhos de Weiwei que vão da série de fotografias feita durante os anos 80, no período em que viveu em Nova Iorque e era ainda um desconhecido no mundo artístico, até às peças que criou durante o último ano em Portugal – do Pendente, rolo de papel higiénico em mármore, com dez toneladas, até Odisseia, o painel de azulejos feito na fábrica Viúva Lamego e representando a odisseia dos refugiados no mundo.

Numa exposição que se divide entre o lado mais político do artista e o lado da fantasia, cabe também toda a sua produção em vídeo – exibida em diversos ecrãs que se espalham pelas duas longas alas da Cordoaria – incluindo o recente Coronation, sobre o início da pandemia do novo coronavírus na cidade chinesa de Wuhan, um filme que Weiwei fez à distância, sem entrar no território chinês mas usando equipas no terreno.

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Peças de artesãos brasileiros de Juazeiro do Norte com os quais Weiwei trabalhou em 2018 Daniel Rocha

Uma peça que só teve oportunidade de ver agora é a Impressão de Tanque, um tapete de lã, feito na China, com as marcas deixadas pelas lagartas dos tanques enviados por Pequim para esmagar os protestos na Praça Tiananmen, em 1989, cujo 32 aniversário passa precisamente no dia da inauguração da exposição. Rapture apresenta trabalhos de diferentes fases – aqui está, por exemplo, o conjunto de caixas com cenas tridimensionais dos dias que o artista permaneceu na prisão, em 2011, ou, suspensa no tecto, a serpente feita de mochilas, simbolizando as mais de cinco mil crianças mortas no terramoto de 2008 na província chinesa de Sichuan. 

Mas o que nos recebe, logo à entrada, é o maciço rolo de papel higiénico em mármore, produzido em Portugal pela B Stone e que o artista vê como um símbolo do momento actual num mundo que ainda luta para se libertar da pandemia, algo que “diz muito da vida moderna, da sensação de insegurança e da falta de confiança no sistema”. Do outro lado, mais uma obra feita em Portugal: a estátua do próprio artista, sem cérebro e sentado numa cadeira à qual está algemado, feita em cortiça com a Corticeira Amorim.

Muito do trabalho que Weiwei tem desenvolvido nos últimos anos, primeiro no Brasil, já em colaboração com Marcello Dantas, e agora em Portugal, baseia-se na relação com os artesãos locais. As peças produzidas em Portugal partem da exploração de técnicas e materiais locais. “Sou um artista contemporâneo, mas presto muita atenção às tradições. A raiz do meu trabalho é sempre a compreensão do passado e a arte é a chave para percebermos o que se passou na nossa nação.” E o que encontrou aqui foi artesãos “dispostos a aceitar o desafio”, o que permitiu uma troca que foi de aprendizagem mútua.

Três momentos da instalação S.A.C.R.E.D, que mostram os 81 dias que Ai Weiwei passou na prisão em 2011 Daniel Rocha
Daniel Rocha
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Apesar da calma que conseguiu em Portugal – “ficar um ano aqui, durante este período [a pandemia], foi provavelmente a melhor escolha que alguma vez fiz” –, não está desligado do mundo. Pelo contrário, mantém-se activamente a dar entrevistas e a lançar iniciativas a partir de Montemor, sempre atento ao que se está a passar. Por isso, quando um dos jornalistas lhe pede uma reacção à notícia de que a China autorizou os seus cidadãos a terem três filhos, não hesita: “A China é um Estado autoritário. Não há eleições, nem imprensa livre, nem liberdade individual. Nos anos 80 decidiram que cada família só poderia ter um filho, mas a sociedade chinesa sempre viu as crianças como a esperança e o futuro.”

Uma das coisas que o regime comunista destruiu na China foi “a estrutura da família” – os filhos únicos não têm primos nem tios e são responsáveis por tomar conta dos pais e, eventualmente, dos avós. “Uma pessoa tem que se responsabilizar por seis outras”, diz. “Agora o Estado percebeu que essa estrutura não pode servir de base a esta enorme nação. Os jovens não são suficientes.” O problema é que com o encargo dos pais e avós, estes jovens não têm condições para ter três filhos, explica. “Há muito menos gente a casar e a ter filhos. Simplesmente não têm dinheiro para isso.”

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Weiwei em frente a Odisseia, o painel sobre a saga dos refugiados no mundo, que tem agora uma versão em azulejos portugueses feitos pela Viúva Lamego Daniel Rocha

De barba cortada e sempre com enorme tranquilidade, Weiwei passeou-se por entre as suas obras, parando em frente de algumas, observando um pormenor aqui, outro mais à frente, e deixando-se fotografar longamente pelo grupo de repórteres de imagem que o seguia. Muito sério, sem a doçura que mostraria de seguida ao responder às perguntas, deteve-se nos locais que achava que resultariam melhor para a fotografia – junto ao painel de azulejos, por exemplo, ou, aí já com um sorriso, aceitando espreitar pelo orifício do gigantesco rolo de papel higiénico.

Pára ainda para fotografar uma foto antiga de si próprio, de camisa aberta e com a palavra FUCK pintada no peito, e depois volta a câmara do telemóvel e capta os próprios fotógrafos. O que é que sente hoje quando olha para as fotos do período em que viveu em Nova Iorque?, perguntamos-lhe. “Ao fim de 12 anos em Nova Iorque, mudei totalmente. Brincava com a minha mãe, ligava-lhe e dizia ‘não sou o seu filho, sou outra pessoa’”, recorda.

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Figura sem Cérebro em Cortiça, uma das obras feitas já em Portugal, em colaboração com a Corticeira Amorim Daniel Rocha

Hoje, ao olhar para estas imagens, vê-as como um testemunho. Há leituras que só se conseguem fazer quando já passou tempo. “Elas mostram como eu sobrevivi a Nova Iorque, uma cidade muito dura para alguém que vem dos confins da China. Não tinha nada para fazer, tinha uma máquina e tirava algumas fotografia. Nunca quis ser fotógrafo, mas queria registar. E registo porque acredito que a realidade tem um significado mais profundo do que aquele que conseguimos apreender.”