Mar, Amor

O mar é o dono da praia do Ourigo. Não uma estrutura selvagem em betão para beber e urinar de seguida. O dono daquele sítio é só um. É o mar/ourigo/areia/algas e ranhosas. Nunca betão!

A praia do Ourigo é “minha” desde há 68 anos. Mas a praia também é do mar. O mar também é nosso. E não o emprestamos a ninguém. Não por maldade mas por amor mútuo.

Gosto muito do nosso mar porque este, aqui do Norte, é único. Não existe nada de parecido. Tem um carácter fortíssimo; ou é calmo e doce ou, na maior parte das vezes, agreste, violento e destrutivo. É essa a sua personalidade.

Cheira a maré e algas! Mas é leal porque é previsível! Ir para o Molhe arriscar ondas era uma brincadeira às escondidas dos mais velhos. Sabíamos ao que íamos! Contávamos até à sétima onda. E por vezes ele fintava-nos e molhava à sexta ou à quinta. E por isso ainda gostávamos mais dele. Mas agora com mais idade não aconselho a fazer o mesmo. Esta idade já me fez ver quantos morreram afogados nas ondas. Se fosse hoje não o iria afrontar.

E é tão forte que também por isso me dá força e o amo. Pertence-me e pertencer-me-á.

E fico-lhe reconhecido por perceber a estranheza e admiração dos turistas ao compreenderem as suas qualidades únicas… Qualidades inexistentes nos mares do Norte da Europa – frios, avessos e terríveis – ou nos do Sul mediterrânico – suaves mas sem algas roxas carregadas de iodo, quentes mas por vezes um pouco “paradinhos”.

O cheiro das algas onde se escondem as ranhosas escorregadias e fugidias que sempre existiram nas pocinhas que vão desde a praia do Molhe, à de Gondarém, da Conceição, da Luz, dos Ingleses, do Ourigo ou das Pastoras, são não só minhas mas de todos os que sentem que a praia, as rochas, o mar e as plantas da costa são uma e a mesmíssima coisa.

Ninguém se pode apropriar deles. E muito menos tentar contrariar e trair a força que lhe pertence.

O construtor da estrutura que está a tentar vandalizar o Ourigo ainda não percebeu que não se pode ser desleal com mar, já que, ainda por cima, é ele que lhe traz os consumidores de bebidas… Em vez de fazer uma pacto de amizade com ele, o que faz? É cada vez mais violento!

Não se terá interrogado quais as razões que estão na base de o mar lhe destruir há anos e anos as estruturas até agora frágeis – em madeira e outros materiais – que lhe quis impor?

A razão digo-lha eu! É porque não pode.

O mar é o dono daquela praia. Não uma estrutura selvagem em betão para beber e urinar de seguida. O dono daquele sítio é só um. É o mar/ourigo/areia/algas e ranhosas. Nunca betão!

Não nos podemos resignar a este atentado. Como dizia um arquitecto meu amigo – quando a Unesco azedar quero ver!