Micropsiquia

Para Rui Tavares não importa muito como se fale ou escreva, desde que nos entendamos – brasileiros, moçambicanos, portugueses, angolanos, por aí adiante. Estará, portanto, disposto a sacrificar a forma pelo valor instrumental da língua.

Deixei de acreditar no ensino sério do Português, desde a implementação do acordo ortográfico (AO90) nas escolas. Tenho algum respeito pela habilidade de espírito, argúcia e credulidade de quem ajudou a conceber esse acordo, mas uma admiração incondicional pela inteligência e sensatez de quem persiste em querer livrar-nos dele.

Há poucos dias, recebi provas de avaliação de alunos do 12.º ano, contendo expressões como “que lhe causou decessão” e “todos sem excessão”. Uma das piores chagas da língua escrita, sabemo-lo, é a incorrecção ortográfica: ora, há coisa mais insensata do que abrir caminho a nova vaga de erros ortográficos? A memória visual das palavras, provou-se já, determina a qualidade da ortografia e, até nisso, as consoantes mudas são auxiliares preciosos: seria, há bem poucos anos, raríssimo deparar com qualquer tipo de hesitação gráfica na transcrição sibilante de vocábulos como “concepção” ou “recepção” (sendo esta última palavra geradora da célebre ambiguidade receção/recessão) – o grupo consonântico não deixava margem para dúvidas. Líamos e escrevíamos com os olhos.

O que aqui me traz são os dois mais recentes artigos de Rui Tavares, no PÚBLICO: a propósito da lusofonia, numa das vezes, e da pretensa micrologia da língua (que o cronista imputa aos críticos do acordo), na segunda. Bom, deixo cair o primeiro dos artigos, aliás de uma singeleza só explicável pela candura de alma do autor ou por inflexível convicção das ideias de que se vangloria.

No artigo “Amar a língua até a asfixiar”, adoptando outro tom, Rui Tavares aparenta ter como objectivo único o de desvalorizar quem refuta o AO90, apondo-lhe o rótulo de inferioridade, picuinhice e narcisismo. Há um provérbio notabilíssimo, para recorrer a Erasmo, admitido por muitos: “É óptimo simular ter aquilo que se não tem.” Digamos as coisas como são: para Rui Tavares não importa muito como se fale ou escreva, desde que nos entendamos – brasileiros, moçambicanos, portugueses, angolanos, por aí adiante. Estará, portanto, disposto a sacrificar a forma pelo valor instrumental da língua. Numa palavra: as suas “sugestões”, que incluem sapientes deambulações pela antiga Grécia, resumem-se a considerarmos o sentimento de amor à diversidade da língua, desde que não nos apliquemos às palavras mas ao conteúdo. Brilhante.

Que vale mais a pena esconder? As coisas ditas ou as não ditas? Quando se garante ser indiferente ao detalhe – o que, por si só, favorece a pobreza da língua –, há sempre razões ponderáveis para ver nisso um sinal de indisfarçável arrogância. A indiferença de Rui Tavares (parecendo assumir a blindagem do inefável ministro Augusto Santos Silva), na sua subtileza, é a que se preocupa em reforçar a muralha dos silenciosos (mudos?) defensores deste “acordo”. É ainda a indiferença, travestida de modernidade e desburocratização, que tem como estreito limite da própria casa e coluna de opinião o nome, note-se, de “Consoante muda”. A outros imputa o autor “negar a realidade e ficar encafuados na micrologia”. A sua indiferença – como a dizer que não tem vagar para bagatelas – esquece que o que o idioma tem de bom foi ter sido parido num lugar, para poder respirar livremente noutros e que isso não nos rouba a alma, antes acrescenta o sentido vital e autónomo que anima os falantes e cultores da língua portuguesa, sem lugar a exibicionismos e produtos da imaginação imperial e tributária.

Se de minudências se tratasse, editoras como a Gradiva, Objectiva, Antígona, Guerra e Paz ou Cotovia não estariam à margem do AO90. Se não houvesse obsessão pelo “narcisismo das pequenas diferenças”, e achando-nos bem conosco, poderíamos, de oje em diante, enveredar por escrever em armonia com a voz umana. Não fôssemos nós picuinhas, e guardaríamos, sem os inevitáveis pruridos, “O prêmio lá no fim, bem merecido, (…)”, tal como nos não chocaria misturar cor-de-rosa e cor de laranja na mesma paleta. Se não assumíssemos a nossa “micrologia”, obedeceríamos ao destino cego e desapegado de quem empalidece a língua, a trai e reduz à indigência, esquecendo como “a ortografia também é gente”.

Posto isto, espreito Séneca, citando Antípatro: “Quando falamos em pobreza não temos em vista a posse, mas sim a privação” (ou orbatio, como se dizia antigamente;  στέρηση, como se diz em grego). (…) A pobreza não consiste em possuir poucas coisas, mas em haver muitas coisas que se não possuem.” Precisamente aquilo a que condenamos a língua: malbaratar os recursos que detém. Há quem lhe chame desperdício. Eu diria estupidez. Um erro equivalente ao dos pais que gostam tão pouco dos filhos que querem que eles sejam adultos desde sempre.