Que ninguém fique para trás

Enquanto as pessoas mais pobres entre nós e no Mundo ficarem para trás no programa de vacinação, a covid-19 continuará a ser um problema

As notícias sobre a vacinação contra a covid-19 parecem animadoras: os EUA e o Reino Unido já conseguiram imunizar com pelo menos uma dose 47% e 54% das respetivas populações. A União Europeia começou mais tarde e devagar, mas conta vacinar 70% da sua população antes do final de agosto.

Mas, na verdade, as notícias são bastante desanimadoras porque muitos países e continentes inteiros ficaram para trás! O Brasil e a Índia ainda só conseguiram vacinar com pelo menos uma dose 17% e 10% das respetivas populações. No seu conjunto, os países de baixo rendimento só conseguiram administrar uma dose da vacina a menos de 6% das respetivas populações. Enquanto as pessoas mais pobres entre nós e no Mundo ficarem para trás no programa de vacinação, a covid-19 continuará a ser um problema

Os Estados Unidos e o Reino Unido conseguiram melhores resultados que os restantes países, porque são produtores de vacinas e optaram por uma política de prioridade à vacinação a nível nacional, proibindo a exportação de vacinas e das respetivas matérias primas, até conseguirem vacinar a maior parte das respetivas populações. Os outros países, sem capacidade para produzir ou comprar vacinas, ficaram para trás. Esta política, de cariz nacionalista, popularizada pelo Presidente Donald Trump dos EUA com o lema “America First”, poderá parecer atraente, a curto prazo, em termos de popularidade e angariação de votos. Mas é uma política que, a médio e longo prazo, poderá ter custos elevados em termos de saúde pública e saúde global.

A prevenção e o tratamento da covid-19 são bens maioritariamente públicos e não bens individuais, são problemas que têm que ser tratados a nível global e não a nível nacional ou internacional.

Os doentes com covid-19 e as respetivas famílias pagam um preço elevado, principalmente nos casos que necessitaram de um internamento em enfermaria ou unidade de cuidados intensivos e aqueles que acabaram na morte. Por isso todos nós estamos prontos a pagar o preço da prevenção, do distanciamento social e da máscara. Muitos pagariam até o preço da vacina para sermos vacinados imediatamente, em vez de esperarmos pela nossa vez no programa nacional de vacinação.

Não são só os doentes e os seus familiares que pagam um preço pela covid-19. Todos nós pagamos os custos elevados do tratamento dos doentes nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde. E pagamos também os custos económicos e sociais dos confinamentos, dos lay off, dos despedimentos, da falência de milhares de empresas...

Hoje muitos de nós já fomos vacinados com uma ou duas doses das vacinas disponíveis. Poderia parecer que o problema está resolvido para nós e que, por isso, podemos voltar à vida normal e ao convívio próximo e esquecer a máscara em casa. Falso! Enquanto ficarem alguns para trás, entre nós e no Mundo, a covid-19 continuará a ser um problema. Por um lado, não basta que nós e as nossas famílias estejamos vacinados. Só conseguiremos controla a covid-19 no dia em que 70 ou 80% da população estiver imunizada, no dia em que se tiver atingido a tão falada imunidade de grupo.

Ora, se é relativamente fácil vacinar os primeiros 50% da população, será muito mais difícil imunizar os que faltam. Entre eles estarão os mais pobres e os com menor literacia, as minorias étnicas, os migrantes, os refugiados, aqueles a quem pouco importa a vacinação e aqueles que têm objeções à vacinação. Esses não poderão ficar para trás. Será necessário assegurar que o programa de vacinação chega a todos, incluindo os mais pobres, sem discriminação ou exclusão.

A covid-19 começou por ser um problema da China, logo transmitido a outros países, nomeadamente à Austrália, Itália, França e Alemanha. Nessa fase, poderíamos pensar que o problema poderia ser resolvido ao nível dos países afetados e com colaboração internacional. Mas em poucas semanas a covid-19 foi declarada como uma pandemia, ou seja, passou a ser um problema global, que só poderá ser resolvido a nível global. Enquanto a covid-19 não for controlada na África do Sul, no Brasil, na Índia e nos países mais pobres, o problema não estará resolvido nos EUA, nos países da União Europeia, ou outros países de maior rendimento, mesmo que consigam vacinar 70% por cento da sua população. Enquanto a covid-19 continuar sem controle nesses países, continuarão a aparecer novas variedades de covid-19, algumas poderão ter maior transmissibilidade, causar sintomatologia mais grave, ter maior letalidade e até serem resistentes às vacinas que temos.

A ideia de que não se podem deixar os mais pobres para trás é, aliás, um tema transversal a muitas outras políticas. Em 2016, os países membros das Nações Unidas acordaram num conjunto de objetivos que poderão contribuir para um desenvolvimento sustentável. Os objetivos estão organizados em 17 capítulos, com metas bem definidas e indicadores que permitirão acompanhar o progresso conseguido pelos diferentes países e regiões. Por detrás desses objetivos e metas está um conceito comum: não basta que alguns, ou mesmo muitos, consigam atingir os objetivos. Para que o desenvolvimento seja sustentável, será necessário que ninguém fique para trás. Não bastará que, de uma forma geral, se consiga reduzir a pobreza e a fome, melhorar a saúde e o bem estar, e a qualidade da educação, da água e do saneamento... Será igualmente necessário assegurar que estes programas chegam a todos, incluindo os mais pobres, sem discriminação ou exclusão. É preciso reduzir as desigualdades entre países, grupos e pessoas.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico