“É uma catástrofe moral” se os países ricos não partilharem as vacinas da covid-19, diz OMS

“Apelo a todos os países para que, nos primeiros cem dias desde ano, a vacinação dos trabalhadores da saúde e das pessoas mais velhas possa iniciar-se em todos os países”, pediu o director-geral da Organização Mundial da Saúde.

Mais de 39 milhões de doses de vacinas contra a covid-19 foram já administradas, em 49 países de altos rendimentos, avançou o director-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), ao discursar nesta segunda-feira na abertura da 148.ª reunião do conselho executivo desta agência das Nações Unidas. Mas apenas 25 vacinas foram dadas num país de baixos rendimentos, disse. “Não são 25 milhões, nem 25 mil; apenas 25 doses”, sublinhou. “Tenho de ser directo: o mundo está à beira de uma catástrofe moral”, afirmou Tedros Adhanom Ghebreyesus.

O que está em causa é a enorme desigualdade no acesso à saúde, que se tornou transparente na crise da covid-19. Os países ricos, com capacidade para firmarem contratos com as grandes farmacêuticas para encomendarem antecipadamente muitos milhões de vacinas contra o novo coronavírus, já compraram mais doses do que o número de habitantes da Terra.

“Está certo que todos os governos querem dar prioridade a vacinar os seus trabalhadores na área da saúde e as pessoas mais velhas, mas não está certo que os adultos mais jovens e saudáveis de países mais ricos sejam vacinados antes dos trabalhadores do sector da saúde e pessoas idosas dos países mais pobres”, criticou Tedros Ghebreyesus.

É isso que se está a ver: os países que têm vacinas estão a começar a avançar para outros escalões etários de menor prioridade – com Israel, o campeão da velocidade na vacinação, a anunciar até a intenção de vacinar crianças maiores de 12 anos a partir de Março, se houver ensaios clínicos a demonstrar que isso é seguro.

Enquanto isso aconteceu, os países com menores capacidades económicas não conseguem adquirir vacinas. O primeiro motivo é que as encomendas dos mais ricos simplesmente esgotaram a capacidade de produção das farmacêuticas. E sem poder de compra nem oferta no mercado, têm de confiar apenas nas medidas de saúde pública para evitar a transmissão do vírus. Alguns cálculos estimam que os mais pobres podem ficar sem vacinas contra a covid-19 até 2024.

Estes países depositam grande parte das suas expectativas na iniciativa global COVAX, posta em prática pela OMS, a Aliança GAVI e outras organizações internacionais dedicadas à promoção da vacinação.

O objectivo da COVAX é garantir que pelo menos 20% da população mundial será imunizada contra o novo coronavírus no fim de 2021 – embora os cientistas calculem que só se consegue atingir imunidade de grupo, o valor a partir do qual se consegue que o vírus deixe de circular na população, se 60% da população estiver imunizada. Uma aliança de organizações não governamentais estimou que os países pobres não devem conseguir vacinar mais do que 10% da sua população em 2021.

Foram feitos acordos com farmacêuticas para obter dois mil milhões de doses – embora ainda devam demorar a chegar. No entanto, as primeiras doses, que devem ser destinadas apenas a trabalhadores de saúde nalguns dos 92 países identificados como beneficiários da COVAX, só deverão ser entregues em Fevereiro.

“Nas últimas semanas, vários Estados-membros da OMS questionaram a capacidade da COVAX em manter as suas promessas, em conseguir as vacinas necessárias, e sobre se os países ricos irão manter as suas promessas” de financiamento, reconheceu o director-geral da OMS. “É que enquanto usam a linguagem do acesso igualitário às vacinas, alguns países e empresas continuam a dar prioridade a acordos bilaterais, a contornar a COVAX, a aumentar os preços e a tentar avançar para o princípio da fila”, denunciou. Assim, aos 44 acordos bilaterais para a compra de vacinas assinados em 2020, juntam-se já neste ano pelo menos 12, adiantou.

Tedros Ghebreyesus fez um apelo à transparência: “Apelamos aos países que têm contratos bilaterais – e controlo do fornecimento de vacinas – que sejam transparentes em relação aos contratos com a COVAX, incluindo sobre a quantidade, preço e datas de entrega”, disse o director da OMS. Ao mesmo tempo, apelou a esses países que “dêem uma prioridade maior à COVAX”.

Fez uma sugestão directa: porque não partilharem algumas das doses, milhões de doses que adquiriram, com os países mais pobres, através da iniciativa COVAX – uma proposta que tem sido repetida cada vez mais frequentemente, mas que, até agora, não teve resposta positiva de nenhum país –, depois de terem vacinado as suas populações prioritárias, trabalhadores da saúde e pessoas mais velhas?

“Ainda não é tarde demais. Apelo a todos os países para que trabalhemos juntos para garantir que, nos primeiros cem dias desde ano, a vacinação dos trabalhadores da saúde e das pessoas mais velhas possa iniciar-se em todos os países. Juntos, podemos mudar as regras do jogo”, pediu Tedros Ghebreyesus.

Mas também deixou outro alerta, pedindo que os governos não sacrifiquem a segurança das populações para se lançarem numa corrida desenfreada por uma vacina: “Apelamos a todos os países que estão a introduzir vacinas que só usem as que cumprem os padrões internacionais rigorosos de segurança, eficácia e qualidade, ao mesmo tempo que aceleram a sua capacidade de vacinação.”