Covid-19: presidente de painel de cientistas que aconselha Governo indiano demite-se

Grupo de especialistas avisara as autoridades indianas sobre os riscos colocados pela variante identificada em Fevereiro, mas nada foi feito para evitar o contágio.

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Centro de tratamento e isolamento perto de um hospital em Nova Deli RAJAT GUPTA/EPA

Um dos principais virologistas indianos demitiu-se de um painel de especialistas criado pelo Governo de Narenda Modi para detectar novas variantes da covid-19, confirmou o próprio à agência Reuters. Shadid Jameel, presidente do grupo conhecido como Insacog, recusou explicar os motivos da sua demissão mas já criticara a gestão que as autoridades têm feito da pandemia.

A Reuters divulgou no início do mês que o Governo indiano ignorou os alertas deixados por este grupo de peritos no início de Março, quando estes avisavam para a detecção de uma nova variante do vírus SARS-CoV-2 mais contagiosa. As autoridades não tomaram providências para evitar a propagação da nova estirpe, tendo permitido vários acontecimentos que geraram aglomerações, incluindo comícios políticos.

A variante B.1.617, hoje descrita de forma comum como “variante indiana”, foi inicialmente identificada pelos cientistas do consórcio de genética em Fevereiro. A descoberta foi encaminhada para o Centro Nacional de Controlo de Doenças e, daí, a informação chegou ao Ministério da Saúde e pelo menos um alto dirigente que responde directamente ao primeiro-ministro teve conhecimento. O Insacog começou então a preparar um comunicado onde descrevia as mutações como “altamente preocupantes”, mas o texto só foi tornado público pelo Governo na última semana de Março – e sem os avisos defendidos pelos cientistas.

A Índia tornou-se desde então o principal foco de infecções pelo novo coronavírus no mundo, tornando-se no segundo país com mais infecções (só atrás dos Estados Unidos), com 25 milhões de casos, e no terceiro com mais mortes (a seguir ao Brasil e aos EUA), ultrapassando já as 270 mil vítimas.

“Não sou obrigado a dar uma razão”, respondeu Jameel, questionado sobre a sua saída do Insacog, que o Governo também não quis comentar. Jameel já tinha admitido acreditar que “as autoridades não estavam a prestar suficiente atenção às provas quando decidiam as políticas”, comentando o facto de não terem sido proibidos grandes ajuntamentos políticos ou festivais religiosos hindus.

O Ministério da Saúde indiano anunciou este domingo ter registado 4077 mortes e 311.170 infecções nas 24 horas anteriores. Com a taxa de positividade a descer um pouco esta semana, de 21,9% para 19,8%, as autoridades acreditam que o número diário de infecções pode ter, para já, estabilizado.