Radovan Karadzic vai ser transferido para o Reino Unido

O ministro dos Negócios Estrangeiros britânico diz que o acordo é um motivo de orgulho, pelo facto de o país ter pedido justiça, durante 30 anos, “para estes crimes hediondos”.

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O antigo líder sérvio da Bósnia cumpre prisão perpétua por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade PPETER DEJONG/LUSA

Radovan Karadzic, o antigo líder dos sérvios da Bósnia condenado por genocídio no massacre de mais oito mil muçulmanos bósnios em Srebrenica, em 1995, vai ser transferido para o Reino Unido, onde vai continuar a cumprir a sua pena de prisão perpétua. Perante a ameaça de possíveis ataques por presidiários muçulmanos, como sucedeu com o criminoso de guerra Radislav Krstic, o aparato de segurança será reforçado para proteger Karadzic.

O anúncio foi feito pelo Governo britânico, na quarta-feira, dando conta da transferência de Karadzic dos Países Baixos para o Reino Unido no seguimento de um acordo com o órgão que gere as consequências dos processos judiciais após o encerramento do Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia, em Dezembro de 2017.

Foi em 2016 que Karadzic foi condenado pelo seu envolvimento no massacre de civis durante o cerco a Sarajevo entre 1992 e 1996, que levou à morte de dez mil pessoas, numa das sangrentas guerras que acompanharam o desmembramento da antiga Jugoslávia. Karadzic foi também condenado por limpeza étnica contra croatas e muçulmanos no território reivindicado pelos sérvios. A pena, inicialmente de 40 anos, foi alargada para prisão perpétua depois de uma tentativa de recurso sem sucesso, em 2019. 

Segundo o jornal britânico The Times, a localização de Karadzic não será revelada por questões de segurança, mas o antigo líder dos sérvios da Bósnia será transferido para uma das oito prisões de alta segurança, onde os custos de acomodação por prisioneiro ultrapassam as 30 mil libras (quase 35 mil euros). O valor pode vir a subir se for necessária uma maior protecção.

O advogado de Karadzic, Peter Robinson, alertara a ONU sobre a transferência para o Reino Unido, encarada como sinónimo de uma sentença de morte devido ao risco de ataques de presidiários muçulmanos. Para exemplificar a ameaça, citou o “ataque de vingança”, em 2011, de três muçulmanos contra Radislav Krstic, um criminoso de guerra e antigo general dos sérvios da Bósnia que está a cumprir 35 anos de pena na prisão de Wakefield.

“Com uma elevada percentagem de muçulmanos entre a população da prisão, sentimos que Karadzic vai estar em perigo, e para o proteger necessitamos de medidas semelhantes a um confinamento solitário”, disse Robinson, citado pelo diário britânico The Guardian.

A ideia foi confirmada por uma fonte do Serviço Prisional que falou ao Times: “Karadzic não vai passar muito tempo fora da cela.

Sobre a transferência, o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Dominic Raab, disse que Radovan Karadzic é uma das poucas pessoas consideradas culpadas de genocídio”. Também por isso, acrescentou, o país deve “ter orgulho no facto de o Reino Unido ter sempre pedido justiça, durante 30 anos, para estes crimes hediondos”.

Segundo o Guardian, a decisão do Reino Unido de se voluntariar para receber Karadzic insere-se numa estratégia para apoiar a justiça internacional. Esta é a sexta vez que o Reino Unido recebe criminosos de guerra, entre eles Krstic e Momcilo Krajisnik, também acusados de genocídio na antiga Jugoslávia.