Não há pior inimigo da justiça do que um justiceiro

Para o futuro, além de uma lei justa e eficaz contra a corrupção, que fique também uma lição: a justiça é demasiado importante para ficar nas mãos dos justiceiros.

As minhas ilusões sobre a corrupção são as mesmas que tenho sobre o ser humano. Ou seja, nenhumas. A corrupção existe porque a natureza humana é como é, imperfeita e sinuosa, capaz do melhor e do pior. Nunca percebi sequer a necessidade que há em Portugal de perguntar constantemente se temos um país corrupto ou se a corrupção é só um problema de “percepção”. Nesta matéria, a única percepção útil é a de que o egoísmo, a ganância e o nepotismo são instintos naturais que andam por aí à solta, e que por isso a corrupção é um risco endémico em qualquer comunidade humana. Ou os sistemas democráticos assumem esse módico de pessimismo antropológico, e dispõem de mecanismos de dissuasão do fenómeno, ou estão destinados a falhar.