Quem é Andrea Marques de Almeida, a filha de portugueses que a Forbes mantém na lista das mulheres mais poderosas do mundo

Filha de pais portugueses emigrados no Brasil, a CFO da Petrobrás está, pelo segundo ano consecutivo, no ranking da revista norte-americana.

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Petrobras

A primeira vez que Andrea Marques de Almeida, CFO da Petrobras, integrou a lista das 100 mulheres mais poderosas do mundo da revista Forbes, há dois anos, a reacção foi de surpresa. Estava no cargo da empresa brasileira de energia há pouco tempo e ainda não existiam resultados “palpáveis” para a colocarem no ranking, considera. “No primeiro ano, eles acreditaram que ia dar certo. ‘Uma mulher CFO da Petrobras? Nunca teve uma mulher, tem uma chance de dar certo’, pensaram”, conta em entrevista ao PÚBLICO.

E, este ano a história repetiu-se. A directora-executiva de Finanças e Relacionamento com Investidores da Petrobras ocupa a 77.ª posição da mesma lista que integra personalidades como a vice-presidente dos EUA, Kamala Harris; a rainha Isabel II ou a jovem activista sueca Greta Thunberg; e que é liderada pela chanceler alemã Angela Merkel. Contudo, desta vez, o destaque não se deveu ao facto de ser uma mulher num cargo que, até à data, foi exclusivamente reservado aos homens, mas sim ao reconhecimento pelo trabalho eficaz que resultou na recuperação da imagem e estabilidade da empresa, após os escândalos de corrupção da operação Lava-Jato.

A vontade de ser líder já se manifestava desde o tempo em que exercia o cargo de engenheira de produção, mas a vontade por si só de nada lhe serviu. “Tive de esperar dez anos para ser gerente, porque era carimbada como técnica”, recorda, durante uma aula do MBA da Porto Business School, na terça-feira. O objectivo do curso é pôr os seus alunos em contacto com executivos que tenham histórias inspiradoras. “Diziam que não ia saber lidar com gente, que não ia ser uma boa líder.” E, enquanto esperava, a agora CFO tinha de suportar os “maus líderes”, que tentaram evitar que chegasse onde está. Sobre o que fez para não sair prejudicada, a resposta é simples: “Nada.” Nada? “Sim. As pessoas se autodestroem, não tive de fazer nada”, garante.

Ao longo dos anos, preferiu ignorar quem não tinha nada de positivo para lhe oferecer e observar os muitos e bons líderes que foi conhecendo — na maioria homens, porque “no passado” não havia muitas mulheres — que acabaram por moldar a sua forma de trabalhar. Com eles aprendeu a ouvir e a tratar todas as pessoas da mesma forma, quer estejam no topo ou na base da pirâmide, porque nunca se sabe de onde chegam as grandes ideias. Percebeu ainda que “o líder não é um formador, é um impulsionador que coloca a sua energia para vencer”.

Nada lhe tira o sono

“Às vezes as pessoas me perguntam: o que te tira o sono? Nada me tira o sono, porque estou fazendo o que é certo.” E o sono nunca saiu prejudicado, há um ano, quando se viu no meio de duas grandes crises. Se, por um lado, a pandemia resultou na quebra das receitas, por outro, a crise no sector do petróleo com preços que chegaram a ser negativos deixava pouca margem de manobra para pagar salários. Foi preciso definir um plano de acção. “Vou ser a CFO que não conseguiu pagar as contas da empresa”, pensou, até reunir-se com a equipa, que apresentou “ideias brilhantes”. Parar com as contratações por um período de 90 dias, criar um fundo de liquidez e até controlar o tráfego no Brasil foram algumas das propostas seguidas, que acabaram por melhorar a posição da empresa.

O segredo, afirma, “é estar com as antenas ligadas para os empregados, reguladores, e, inclusive, para a própria sociedade”, principalmente quando se trabalha numa organização que corre o risco de ver o petróleo substituído pelas baterias eléctricas.

É brasileira, mas os pais são naturais de Águeda e Resende, e embora sempre tenham feito parte de uma classe social baixa — “simples”, prefere designar —, o “dinheiro para os estudos nunca faltou”. Aos nove anos pediu à mãe, que sempre lhe incutiu a vontade de aprender e se subir na vida, que a inscrevesse num curso de inglês. “Ela queria que eu tivesse as oportunidades que ela não pôde ter e isso foi muito forte”, confessa.

Teve sempre a preocupação que os pais gastassem o menos possível com os seus estudos. Por isso, quando chegou o momento de ingressar no ensino superior, escolheu engenharia de produção numa universidade pública. De seguida, um MBA em finanças e gestão. Em toda a sua carreira, que já vai longa, guarda no currículo apenas duas empresas — uma das quais dedicou 25 anos da sua vida. Um percurso que não contou apenas com a competência, o foco, a resiliência e a coragem. “Teve uma bela porção de sorte, também”, admite.


Texto editado por Bárbara Wong