Turquia: a minha terceira viagem a Pamukkale

“Ainda há lugares no nosso planeta que, de tão inimagináveis e tão puros, me fazem pensar nos primeiros dias do homem na Terra”, escreve o leitor José Alberto Santos.

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Forma de relevo eólica
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A vida é uma viagem composta por várias viagens. Umas vezes chegamos e depois partimos. Às vezes demoramos mais um bocado. E depois partimos novamente. Cada uma destas viagens é feita, pelo menos, três vezes. Primeiro, como a idealizamos. Depois, como a realizamos. E, finalmente, a terceira viagem: como a recordamos. E, hoje, esta é a minha maneira de fazer a minha terceira viagem a Pamukkale, na Turquia: como eu a recordo. 

25 de Agosto 2007. 6h45. Acordo com o nascer da aurora no continente asiático. Estou numa suíte enorme no Laruj Polat Thermal Hotel, em Karahayıt, Pamukkale/Denizli, na Turquia. O Sol ainda não se levantou. Sento-me na cama, escrevo pensamentos no diário de viagem e olho de soslaio o mapa da Turquia. Quarenta e cinco minutos depois estou a tomar um lauto pequeno-almoço turco. Em seguida dirijo-me para o autocarro. Quando entro sou surpreendido pelos “Parabéns a você” entoados por quase quatro dezenas de portugueses a bordo do autocarro. Sim, hoje é o meu dia de aniversário. Fico sem jeito e coro pela surpresa familiar. Depois perco a timidez e cantamos todos em uníssono. E preparamo-nos para a viagem até Pamukkale.

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Olho com sofreguidão pela janela do autocarro e, à medida que me aproximo de Pamukkale, parece que estou a olhar para uma estância de Inverno, coberta de neve, algures no Norte da Europa. Mas não. É verdade que, ao longe, a longa mancha branca que desce dos montes sugere uma pista de esqui, ou um monte de algodão branco como as nuvens do céu. Mas a realidade é outra. O autocarro estaciona no cimo do monte, à sombra de um bosque, e em frente ao Museu Arqueológico de Hierápolis. Ylknur, a nossa jovem guia turca, de mochila às costas, é a primeira a descer do autocarro. Ylknur confidencia-me que serviu de guia e intérprete à comitiva do ex-presidente Jorge Sampaio, aquando da sua visita oficial à Turquia, em 2003. Estamos em boas mãos.

A família e o resto do grupo dispersam-se pela montanha. Com o diário de viagem numa mão, o mapa e o guia da Turquia na outra, sigo Ylknur pelo castelo de algodão - é este o significado de Pamukkale, um conjunto de piscinas termais, de origem calcária, fruto de muitos séculos de trabalho da natureza, ao lado de Hierápolis, e uma das maravilhas naturais mais extraordinárias da Turquia. As razões do fenómeno estão à vista: com o passar dos séculos formaram-se gigantescas bacias de água que descem em cascata por uma colina. Famosas pela sua beleza, as suas águas termais são benéficas para a saúde e usadas desde a Antiguidade Clássica.

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Os pequenos ribeiros de água quente (cerca de 35ºC) que brotam do solo são muito ricos em sais de cálcio, que, ao deslizarem sobre as rochas da colina, foram deixando depósitos de calcário que, com o passar do tempo, acabaram por criar uma série de terraços sobrepostos, descendo em cascata pela montanha abaixo, em brilhantes estalactites. Parecem um véu de noiva. A explicação científica é que os locais térmicos por baixo do monte provocam o derrame de carboneto de cálcio, que solidifica com o travertino. O travertino é a rocha calcária que dá o tom branco, imaculado e cristalino, a Pamukkale, distinguido como Património da Humanidade, pela UNESCO, em 1988. Desta distinção também faz parte a vizinha Hierápolis, antiga cidade greco-romana, construída no topo deste castelo de algodão.

Ylknur diz-me que por perto também existem numerosas ruínas arqueológicas romanas, um museu e o local onde, alegadamente, Cleópatra tomaria banho sempre que passava por esta região. A guia tira as sandálias e desafia-me a fazer o mesmo. Convida-me a molhar os pés e a caminhar por cima de todo aquele algodão. Desafio aceite. O mundo é um livro que se deve ler com os pés. São 17 as nascentes de água quente em Pamukkale com temperaturas entre os 35ºC e os 100ºC, por isso tenham cuidado para evitar queimaduras. Sigam sempre o vosso guia. Nem todos os locais são visitáveis, a fim de evitar o desgaste provocado pelo excesso de turismo. Por vezes o chão é áspero. Outras vezes faz cócegas nos pés. A água é, de facto, quentinha.

Sentamo-nos e falamos palavras de circunstância, em paz, tranquilidade e descanso, para tirarmos o máximo partido das sensações que nos envolvem a alma. Um verdadeiro paraíso. A cor do travertino muda de acordo com a luz solar que o ilumina. É um ambiente inigualável. Ainda há lugares no nosso planeta que, de tão inimagináveis e tão puros, me fazem pensar nos primeiros dias do homem na Terra. 

Dedico esta crónica de viagens a ti, amigo leitor, pelo prazer da tua companhia nesta minha terceira viagem a Pamukkale. Hoje, muito do que sou é onde eu estive. 

José Alberto Santos 

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