Variante da África do Sul gera “alguma preocupação” e as do Brasil têm disseminação “residual”

Investigador do Insa referiu na reunião no Infarmed que a situação epidemiológica actual das principais variantes de preocupação em Portugal não é impeditiva da continuação do plano de desconfinamento.

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Partículas do coronavírus SARS-CoV-2 numa célula NIAID

A variante inicialmente detectada na África do Sul gera “alguma preocupação” e há “um aumento de casos com algum significado em Portugal”. Já a situação das variantes associadas ao Brasil está “controlada” e há “níveis residuais de disseminação” no país. Quanto à variante do Reino Unido, representa cerca de 83% dos casos do coronavírus em Portugal. Estas foram as principais conclusões deixadas por João Paulo Gomes, investigador do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (Insa), na reunião no Infarmed, esta terça-feira sobre a vigilância de variantes genéticas do SARS-CoV-2. Por fim, ressalvou: “A situação epidemiológica actual das principais variantes de preocupação em Portugal não é impeditiva da continuação do plano de desconfinamento.”

Tal como já se sabia, a variante do Reino Unido foi detectada por sequenciação genómica com uma frequência relativa de 82,9% na amostragem nacional de Março, segundo o relatório de situação sobre a diversidade genética do SARS-CoV-2 em Portugal do Insa. O Norte tem os valores mais baixos (71,4%) e a Madeira e o Algarve os mais elevados (cerca de 94%).

Relativamente à variante de Manaus (a P.1), há 29 casos confirmados no país. “Está em média com o resto dos países europeus, excepto quando comparamos com a Bélgica ou com a Itália”, indicou João Paulo Gomes. A sua prevalência passou de 0% em Janeiro para 0,4% em Março. Já a P.2 (uma variante também com grande disseminação no Brasil) teve uma prevalência de 0,1% em Março em Portugal.

“Temos níveis residuais de disseminação destas variantes”, afirmou o investigador, assinalando que “são boas notícias para o país”. Também referiu que isto foi algo surpreendente devido ao historial de voos com o Brasil (mesmo não sendo directos e tendo ocorrido durante o confinamento) e da significativa comunidade brasileira no país.

Identificados 53 casos da variante da África do Sul

Da variante da África do Sul estão confirmados até ao momento 53 casos. “Olhando para o panorama europeu, estamos a meio e os casos são inferiores aos mais de 600 casos da Alemanha e da Bélgica, aos mais de 500 de França e mais de 400 do Reino Unido”, relatou. Mesmo assim, indicou que num período de 15 dias (entre 23 de Março e 10 de Abril) os casos duplicaram ou triplicaram em certos países, incluindo Portugal, o que mostra a “importância do controlo de fronteiras”. “Temos de estar atentos ao cenário epidemiológico não só nosso, mas de todos os outros países para tentar saber se há um descontrolo na disseminação desta variante, que é tão preocupante não só a nível epidemiológico como clínico, por estar associado eventualmente a falhas vacinais.”

Mostrou ainda que os 53 casos identificados da variante da África do Sul podem ser apenas a “ponta do icebergue”. Na vigilância de Março feita através da sequenciação genómica a mais de 1000 amostras de SARS-CoV-2 estimou-se que 2,5% dos casos no país eram da variante da África do Sul. Por isso, tendo em conta a casuística de todos os casos positivos, estima-se que cerca de 200 casos estejam associados a esta variante. Mesmo assim, sublinhou: “Não me preocuparia demasiado com isto. Portugal não foge à regra e é uma situação normal [concordante com estimativas feitas também por outros países].”

Quanto às introduções desta variante no país, ao compararem-se sequências genéticas desta linhagem em Portugal com dados depositados em bases de dados genómicos por todos os países, viu-se que há “um grande grau de probabilidade de uma tripla introdução em Portugal” através de Moçambique. Também houve múltiplos casos de Espanha, com origem na África do Sul, que originaram um cluster de introduções em Portugal. “Temos de estar atentos a esta variante de preocupação”, insistiu João Paulo Gomes.

Apesar de haver “alguma preocupação” e um “aumento de casos com algum significado” associados a esta variante no país, o investigador referiu que se prestará atenção ao cenário epidemiológico até para se ver se há necessidade de controlo de fronteiras.