Pequim condena à morte dois ex-funcionários de Xinjiang

Antigos responsáveis da Educação e Justiça foram sentenciados por acusações de separatismo e corrupção, com pena suspensa por dois anos.

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Erkin Tursun, condenado a 20 anos de prisão em Xinjiang, apela ao regresso do filho num vídeo feito pelas autoridades Reuters/REUTERS TV

A China condenou à morte um ex-funcionário da Educação e um ex-funcionário da Justiça da região de Xinjiang por acusações que incluem separatismo e corrupção, com pena suspensa por dois anos.

Sattar Sawut, antigo director do departamento de Educação da região do noroeste da China, e Shirzat Bawudun, antigo responsável do departamento regional de Justiça, são os mais recentes casos de burocratas de Xinjiang, quase todos membros da etnia uigur, a serem acusados e condenados por colocarem em causa a segurança nacional, num processo que Pequim classifica como uma campanha contra os “funcionários de duas caras” que procuram minar a autoridade da China.

Este tipo de sentença é, geralmente, comutada para prisão perpétua após dois anos de bom comportamento. 

Os dois funcionários declararam-se como culpados e não interpuseram qualquer recurso à sentença, afirmou Wang Langtao, vice-presidente do Tribunal Regional Superior de Xinjiang, citado pela Associated Press. Como os casos de segurança nacional são julgados à porta fechada, não ficou claro quando é que os julgamentos e respectivas sentenças aconteceram.

O tribunal considerou que Sattar Sawut, o antigo director do departamento de educação “incorporou separatismo étnico, violência, terrorismo e conteúdo de extremismo religioso em livros didácticos em línguas minoritárias”.

“Sattar Sawut aproveitou a compilação e publicação de livros didácticos escritos em línguas étnicas para escolas primárias e secundárias para dividir o país, a partir de 2002. Instruiu outros a recrutar várias pessoas com pensamentos separatistas para se juntarem à equipa de compilação de livros didácticos, concluiu o tribunal,” reportou a agência noticiosa Xinhua, citando uma conferência de imprensa do vice-presidente do tribunal.

Já Shirzat Bawudun, o antigo responsável do departamento regional de justiça de Xinjiang, foi condenado por “dividir o país”, ao ter conspirado com o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental e “oferecido ajuda a separatistas e extremistas religiosos, e colaborado com separatistas e forças estrangeiras”.

O Movimento Islâmico do Turquestão Oriental está listado pelas Nações Unidas como organização terrorista, embora muitos analistas questionem a existência operacional do grupo.

Segundo o tribunal, Shirzat Bawudun reuniu-se com representantes do movimento e encorajou outros a juntarem-se ao grupo. Realizou também “actividades religiosas ilegais no casamento de sua filha” e aceitou subornos no total de 11,12 milhões de yuans (1,4 milhões de euros).

Pressão sobre uigures no estrangeiro

A China está também a aumentar a pressão sobre os uigures que vivem no estrangeiro, nomeadamente académicos, através de conferências de imprensa onde familiares detidos apelam ao regresso ao país, segundo relata a Reuters, dando o exemplo de Erkin Tursun, um antigo produtor de televisão a cumprir uma pena de 20 anos por “incitamento ao ódio, discriminação étnica e encobrimento de crimes”.

“Vou dar o meu melhor para mudar e receber a clemência do partido e do Governo”, diz Tursun, de cabeça rapada e vestido com um uniforme prisional, numa mensagem dirigida ao seu filho, que vive no estrangeiro e que tem feito campanha pela libertação do pai.

O vídeo de Erkin Tursun é um entre pelo menos meia dúzia de casos semelhantes em que uigures detidos apelam aos familiares no estrangeiro para regressarem a casa e abster-se de criticar a China e o Partido Comunista. 

As conferências de imprensa, assim denominadas pelas autoridades, tornaram-se parte importante na campanha da China para defender as suas políticas em Xinjiang, numa altura em que as críticas do Ocidente têm subido de tom, nomeadamente por parte dos Estados Unidos.

Um possível boicote aos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, marcados para Fevereiro em Pequim, admitido inicialmente por Ned Price, porta-voz do departamento de Estado norte-americano mas depois desmentido pela Casa Branca, motivou uma resposta furiosa de Pequim, que ameaçou com uma “resposta robusta” da China.