Ministra das Finanças sueca leu Aristóteles

Mas não leu Cícero e esqueceu-se que é bom mostrar humildade. A ministra tem razão sobre os impostos dos pensionistas, mas a sobranceria traiu-a.

Habituada a ler textos, discursos e entrevistas sem argumentos — às vezes nem um — foi refrescante ver que a ministra das Finanças da Suécia leu Aristóteles. Magdalena Andersson não  leu, como aplica.

Na entrevista que deu ao meu colega Pedro Crisóstomo, aqui no PÚBLICO, vi Aristóteles a passear de frase em frase. Quando vejo Aristóteles é uma alegria, já ganhei o dia.

Por boas razões, os seus bons conselhos sobre a arte da persuasão inspiram-nos há 2400 anos. Todos os que querem convencer os outros seguem Aristóteles. A ministra Andersson faz parte do grupo. Na sua crítica à política fiscal do Governo português, segue Aristóteles à risca.

Não falo da filosofia — embora pudesse, pois é Aristóteles quem diz que a principal virtude é a justiça. Nem falo do facto de a ministra sueca ter razão nas críticas que faz a Portugal: que é errado permitir que os milionários suecos paguem zero ou 10% de IRS quando se mudam para Portugal; que essa “injustiça fiscal mina a credibilidade do sistema fiscal”; e que está há dois anos à espera que Portugal ratifique um acordo que corrige parte do problema.

Diz a ministra: “É uma injustiça fiscal que pessoas que têm milhões de euros de rendimento, ao mudarem-se para Portugal não paguem imposto, enquanto pessoas comuns na Suécia — e em Portugal — pagam imposto.” Alguém com bom senso discorda? Sei que sim. Discordará o governo socialista que fez a lei, os governos que a seguir a mantiveram e os neoliberais (é interessante ver partidos da mesma família com posições distintas sobre os limites da “competitividade fiscal” — falta-lhe a palavra “desleal”, mas isso é outro coffee break)A ministra usa factos, sabe que factos são argumentos, usa exemplos, é directa, viva e concisa. Impecável.

Falo, sim, da forma como a ministra aplica o belo ensinamento aristotélico de convencer provocando uma emoção. Temos tendência para pensar que provocar emoções é coisa de telenovela. Acreditamos tanto nisso que preferimos ser cinzentos e maçadores. Minhas senhoras e meus senhores: é mentira.

Os clássicos da Antiguidade recomendam emoção. Chamaram-lhe pathos. Só assim, diz Aristóteles, a audiência ficaria a pensar nas palavras e nas ideias que ouvira. Ao contrário de António Damásio, Aristóteles não sabia que as emoções estão inscritas no genoma humano, mas mesmo sem neurociência concluiu que as palavras são eficazes para as provocar. Fez até uma lista das mais úteis: medo, compaixão/despertar sofrimento e indignação. Provocar uma destas emoções seria meio caminho para a persuasão.

Porque é que passei a semana a pensar na entrevista da ministra sueca? Porque ela provocou-me uma emoção. Ora vejam: “Se um doente sueco e um doente português estiverem lado a lado num hospital [em Portugal], o português pagou impostos pelos dois, porque os suecos têm todos os direitos — cuidados de saúde, transportes públicos —, mas não pagam impostos.” Argumento exemplar. Pensei logo nos nossos amigos da Iniciativa Liberal que defendem a imoralidade do paraíso fiscal irlandês. Todos conseguimos imaginar um sueco milionário a desmaiar numa praia algarvia, ser levado pelo INEM e acordar num hospital público. E que o pensionista português que paga impostos e está na cama ao lado é quem paga o INEM, o médico, o enfermeiro, o auxiliar de enfermagem, os medicamentos e os tratamentos usados para salvar o sueco milionário. Parabéns: a senhora Andersson usa um truque de Aristóteles e provoca indignação duradoura.

Pequeno problema. A ministra não avançou até Cícero. E Cícero, o mestre romano da retórica, recomenda humildade. A ministra dá o exemplo das duas camas num hospital público e provoca ira. Mas a seguir acrescenta que “é fascinante que isto seja aceite pelos cidadãos portugueses” e perde tudo.

Foi uma pena. A ministra tem razão nas ideias, mas falhou no ultraje, no excesso de sobranceria, no olhar de cima, no falso encanto com que observa a estranha forma de vida dos PIGS. Fascinada, calça umas botas de antropóloga e observa a tribo primitiva. Não sei que resposta terá de Lisboa. Mas o seu fascínio público pela complacência portuguesa foi um tiro no pé. Fazer um ultimato é má ideia. Pior é embrulhar um ultimato com paternalismo.