Task force quer postos de testagem em universidades, transportes públicos e eventos de massas

O coordenador da equipa responsável pelo desenho da estratégia nacional de testagem adianta ao PÚBLICO que “vêm a caminho mais 12 a 13 milhões de testes”, a somar aos 1,5 milhões já disponíveis na reserva estratégica do país. E que deverá haver equipas de intervenção rápida em todas as ARS.

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Portugal deverá receber em breve mais entre 12 a 13 milhões de testes para despiste do novo coronavírus Manuel Roberto

A estratégia portuguesa de testagem já começou a ser desenhada e vai fazer chegar postos de testagem aos transportes públicos, universidades, concertos e onde quer que haja aglomeração de pessoas. “O conceito é prevenir, testar e diagnosticar”, adiantou ao PÚBLICO o presidente do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (Insa), que é também o coordenador da recém-criada task force responsável por elaborar a estratégia nacional de testagem.

Dizendo-se “muito tranquilo” em relação à capacidade de fazer chegar os testes de rastreio à população de forma maciça e sistemática, Fernando Almeida precisou que, além da reserva estratégica de cerca de 1,5 milhões de testes actualmente disponível, “vêm a caminho mais 12 a 13 milhões de testes, dos quais entre 750 mil a um milhão chegam já dentro de dias”.

A criação de equipas de intervenção rápida de testagem em cada uma das cinco Administrações Regionais de Saúde (ARS) deverá ser uma das ideias contidas na proposta de estratégia nacional de testagem, que será apresentada “muito rapidamente” ao Governo. “Já existem alguns exemplos destas equipas rápidas de testagem e a ideia é pegar neste exemplo e multiplicá-lo”, precisou o presidente do Insa, no final de primeira reunião deste grupo de trabalho que inclui representantes do Ministério da Saúde, do Infarmed, da Direcção-Geral da Saúde (DGS), do INEM e da Cruz Vermelha Portuguesa, entre outros.

Do mesmo modo, Fernando Almeida preconiza a criação de postos de testagem onde haja eventos de massas, como sejam os festivais de música. “Não vejo por que é que não se possa garantir uma regra no sentido de, do mesmo modo que as pessoas precisam de um bilhete para ver o espectáculo, devam também ter um bilhete que diga que aquela pessoa ‘está negativa’”, exemplificou. Quer isso dizer que a realização destes eventos estará condicionada à existência destes postos de testagem? “De um ou de vários. As negociações terão depois de ser feitas entre a entidade organizadora do evento e a DGS.”

“Varrimento” nas universidades

Por estes dias, estão a ser acertados os pormenores da testagem nas universidades, cujas portas deverão reabrir no dia 19 de Abril, de acordo com o calendário de desconfinamento apresentado pelo Governo. Questionado sobre a criação de postos de testagem no Ensino Superior, o presidente do Insa responde com m taxativo: “claro”. E esclarece: “Todas as universidades vão sofrer um ‘varrimento’ com a realização de testes de rastreio, independentemente desses pontos de testagem facultativa, e, depois disso, serão possíveis vários modelos de testagem, que incluirão naturalmente os alunos”, precisou, para acrescentar que depois da primeira vaga de testes de rastreio nas escolas dos primeiros níveis de ensino, a tarefa passa agora por “estudar com o Ministério da Educação a periodicidade desta testagem, independentemente da intervenção rápida que tem de haver, se houver algum surto”.

Recusando falar num plano nacional de testagem, porque “um plano obedece a algumas metas e a algumas actividades programadas e aqui há muitas coisas que não podem ser programadas nem postas em cronogramas”, Fernando Almeida revela que, além dos rastreios programados, como os que vêm sendo feitos em escolas, prisões, lares e estruturas da rede de cuidados continuados, e cuja periodicidade terá de ser doravante definida, a “testagem dirigida” será um dos eixos prioritários.

“Sempre que a incidência comece a aumentar num concelho, ou haja um surto numa empresa com muitos trabalhadores, por exemplo, teremos de ser capazes de desviar as intenções para lá e testar, testar, testar”, explicou, para sublinhar que esse é, de resto, o princípio preconizado na norma (019/2020) em que a DGS estabelece as orientações para a estratégia nacional de testagem, e onde se lê já que devem ser feitos rastreios periódicos nos concelhos com incidência cumulativa a 14 dias superior a 120 novos casos por 100 mil habitantes.

“Para além de actuarmos o mais rapidamente possível, a nossa missão principal é anteciparmo-nos ao vírus”, acrescentou ainda. E é nessa lógica de intervenção preventiva que a task force quer ver postos de testagem disseminados pelo território e “onde quer que haja aglomerações de pessoas”. Nos transportes públicos, como será? “Não haverá testes obrigatórios à entrada, como nos aviões onde só se entra quem tiver um teste negativo, mas vamos promover a testagem não obrigatória e oportunística, isto é, as empresas de camionagem podem, por exemplo, disponibilizar um drive-thru e as pessoas sabem que se quiserem fazer ali um teste, podem fazê-lo”.

Testagem para todos

Numa estratégia com direito a equipas móveis e que contará com a colaboração da Cruz Vermelha, autarquias, instituições do sector social e até com os serviços de medicina do trabalho nas empresas, os testes de rastreio do SARS-CoV-2, tanto de antigénio como PCR, não deixarão de fora sem-abrigo, trabalhadores sazonais e migrantes. “Não podemos deixar de fora as franjas sociais, porque, além de maciça e sistemática, a testagem tem de ser inclusiva e participativa, isto é, para todos e com todos”, enfatizou o presidente do Insa.

Sobre os prometidos autotestes, cuja venda em farmácia já foi autorizada pelo Governo, Fernando Almeida não se alongou em pormenores, nem sequer quanto aos preços a praticar, mas aproveitou para sublinhar que a autorização de comercialização destes autotestes é uma prova de confiança nos portugueses. “Não podia ser de outra maneira. As pessoas estão a resistir há um ano, passaram por dois confinamentos com as consequências que se conhecem, era o que mais faltava não confiarmos agora no bom senso dos portugueses”, declarou. Quanto à modalidade de registo dos respectivos resultados obtidos por esta via, o grupo de trabalho ainda está a decidir se será criada uma nova plataforma web ou aplicação para o efeito. “Estamos a estudar qual será a melhor forma de registo dos resultados, que terá sempre de ser leve a rápida, além daquilo que acontece actualmente através da Linha de Saúde 24”.