UE prepara primeiras sanções à China desde Tiananmen

Comité dos Representantes Permanentes aprova imposição de sanções a dirigentes políticos chineses por abusos de direitos humanos. Em digressão pela Ásia, Blinken critica China e Coreia do Norte.

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Reunião virtual entre os líderes europeus e o Presidente da China, Xi Jinping, em Setembro do ano passado YVES HERMAN/Reuters
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Entrada de um "campo de reeducação" para cidadãos uigures em Huocheng, na província chinesa de Xinjiang Thomas Peter/Reuters

Os 27 embaixadores do Comité dos Representantes Permanentes dos Estados membros da União Europeia (Coreper) chegaram esta quarta-feira a acordo sobre a imposição de sanções económicas a quatro dirigentes políticos e a uma empresa chinesa, por “abusos e violações graves de direitos humanos” contra a minoria muçulmana uigur, na província de Xinjiang.

O acordo na Coreper foi confirmado à Reuters por dois diplomatas da UE e pressupõe medidas restritivas contra os visados que vão desde proibições de viagem a congelamento de bens. Os dirigentes chineses e a entidade em causa fazem parte de uma lista mais alargada, que inclui representantes da Rússia, da Coreia do Norte, da Líbia e do Sudão do Sul. 

A decisão final sobre a imposição destas sanções ainda terá, no entanto, de ser tomada pelos 27 ministros dos Negócios Estrangeiros europeus, provavelmente no início da próxima semana. 

Caso seja confirmada, será a primeira imposição de sanções da UE à China desde o embargo de venda de armamento, de 1989, decidido na sequência do massacre da Praça de Tiananmen, em Pequim.

“Sanções são confrontação. Nós queremos diálogo e não confronto”, reagiu o embaixador da República Popular da China na UE, Zhang Ming.

“Pedimos à UE que pense duas vezes. Se insistir na confrontação, não nos iremos encolher e não teremos outra opção senão assumir as nossas responsabilidades perante a população”, alertou Zhang, através de uma mensagem publicada no Twitter pela missão chinesa na UE.

Em causa estão as críticas cada vez mais sonoras de muitos países europeus – a par de Estados Unidos ou Canadá, que falam mesmo em “genocídio” – ao tratamento imposto pelas autoridades chinesas aos uigures, particularmente na província de Xinjiang.

Diversas investigações levadas a cabo por organizações de direitos humanos e órgãos de comunicação social na região Noroeste da China denunciam episódios de repressão e perseguição religiosa àquela minoria e informam que há cerca de um milhão de uigures detidos em campos de trabalho forçado em Xinjiang.

O Partido Comunista Chinês assume que esses campos existem, mas nega, porém, todas as acusações que lhe são dirigidas sobre abusos, torturas ou perseguições aos uigures, dizendo que são “campos de reeducação” que têm como objectivo contribuir para o combate ao crescimento dos movimentos extremistas e separatistas da região.

EUA apontam o dedo

Um dos países que mais tem impulsionado a estratégia de pressão e de responsabilização da China pelas suas acções em Xinjiang são os Estados Unidos. O tema estará seguramente em cima da mesa quando o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, se reunir na quinta-feira com representantes do Governo chinês em Anchorage, no Alasca.

Antes disso, o chefe da diplomacia dos EUA ainda vai concluir a sua digressão pela Ásia, juntamente com o secretário da Defesa, Lloyd Austin. Esta quarta-feira, em Seul, capital da Coreia do Sul, Blinken voltou a criticar Pequim por usar métodos “coercivos e agressivos” para expandir a sua influência no continente asiático.

“A China está a usar sistematicamente a coerção e a agressividade para corroer a autonomia em Hong Kong, destruir a democracia em Taiwan, violar direitos humanos em Xinjiang e no Tibete e impor as suas reivindicações marítimas, que violam Direito internacional, no Mar do Sul da China”, denunciou Blinken.

De visita ao Japão e à Coreia do Sul, o secretário de Estado norte-americano criticou ainda o “regime autoritário da Coreia do Norte”, acusando-o de “continuar a cometer abusos sistémicos e generalizados contra a sua própria população”.