Se doentes de risco e maiores de 80 anos estivessem vacinados, país poderia desconfinar mais à vontade

“Até agora foram utilizados mais de um milhão de vacinas e apenas 300 e tal mil foram utilizadas em pessoas com mais de 80 anos”, critica Jorge Torgal. Para o país abrir em segurança, especialistas sugerem reforço da capacidade de vacinação, equipas de testagem móveis e testes gratuitos para alguns sectores de actividade

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Vacina chegou a apenas 47% dos idosos acima dos 80 anos LUSA/Joédson Alves

O plano de desconfinamento apresentado anteontem pelo Governo “é demasiado prudente” e não tem em conta o processo de vacinação em curso, na opinião do especialista em saúde pública Jorge Torgal. Porque a infecção pelo novo coronavírus, tal como a da gripe, não vai desaparecer da comunidade, este especialista defende que “o desconfinamento tem de ser ligado ao risco real que as pessoas correm vivendo na sociedade, ganhando a sua vida e pondo as crianças na escola”. “Se olharmos para a taxa de morte abaixo dos 80 anos, ela é de 0,1 por mil habitantes. Se vacinarmos aqueles que realmente estão em risco, que são as pessoas com patologias e acima dos 80 anos, não há razão de maior para que o desconfinamento não avance”, considera.

Mais do que ligado a “taxas de transmissibilidade e outros factores completamente abstractos e desligados da realidade”, o desconfinamento do país devia andar a par e passo com a cobertura vacinal, ainda segundo Jorge Torgal. O especialista reserva, a propósito, as maiores críticas ao plano de vacinação. “Acima dos 80 anos, a taxa de mortes é de 163 por cada mil habitantes”, contabiliza. Logo, “o plano de vacinação deveria contemplar em primeiro lugar as pessoas de risco e acima dos 80 anos”. E, reforça, “não é isso que está a acontecer”.

“Apenas 47% das pessoas com idades acima dos 80 anos estão vacinadas. Até agora foram utilizadas mais de um milhão de vacinas e apenas 300 e tal mil foram para pessoas com mais de 80 anos”, sublinha ainda o especialista, para quem o critério seguido no plano de vacinação “não foi o de privilegiar os mais frágeis, mas o peso político de algumas federações, corporações e alguns grupos profissionais”.

“Acho bem que se vacinem os profissionais de saúde de primeira linha, mas aceito mal que estejam a ser vacinados colegas meus, independentemente do risco que correm, só pelo facto de serem médicos”, acrescenta Torgal, para quem tais opções, numa altura em que o Governo está a dias de fazer arrancar a vacinação do pessoal docente e não docente das escolas, configuram, num cenário de escassez de vacinas, “um erro e uma desconsideração para quem tem um elevado risco”.

Monitorização mais amiúde

Voltando ao plano de desconfinamento e aos factores de risco que podem justificar a colocação de um travão ao calendário definido - 120 novos casos por 100 mil habitantes em 14 dias, e um Rt (índice de transmissibilidade) inferior a 1, por exemplo -, o médico de saúde pública Bernardo Gomes considera-o “prudente quanto baste”. “Libertámos a válvula de pressão e sob condições controláveis e em actividades de menor risco”, interpreta, para sustentar que “o Governo não tinha muita alternativa àquilo que decidiu para os próximos 15 dias, até porque quando mais cedo começássemos mais gradual conseguirá ser o processo”.

De resto, e porque “não podemos ficar fechados em casa para sempre”, o médico lembra que os 15 dias entre a abertura dos primeiros níveis de ensino e do 2.º e 3.º ciclos “são um intervalo suficiente para que a situação hospitalar continue a melhorar progressivamente”, por um lado, e permitirão, por outro, “aumentar o leque de vacinados e melhorar as respostas no terreno”.

Elogiando o sublinhado que António Costa fez quanto à necessidade de reforçar as restrições na Páscoa, Bernardo Gomes acha que o primeiro-ministro devia ter deixado mais vincada a ideia de que o calendário apresentado está indexado a um conjunto de indicadores epidemiológicos. E lamenta, por outro lado, “tudo o que ficou por dizer em relação à testagem adicional e às respostas adicionais de rastreio de contactos”.

“Para o país abrir] é importante salvaguardar a capacidade de mobilizar meios em força na testagem, para que não fiquemos outra vez à mercê da evolução de uma situação local que depois contagia os concelhos vizinhos, a região e até o país”, alerta o médico, que considera fundamental a existência de “forças rápidas de intervenção nos diferentes locais”.

“Precisamos de uma vez por todas de quebrar o molde de necessidade de dar mais meios à saúde pública e dar a salvaguarda da interpretação dos dados e do know how da saúde pública à protecção civil e aos militares para que, quando exista outra situação deste género - seja uma epidemia ou um sismo - tenhamos maior facilidade de articulação e de mobilização de meios para os sítios onde são necessários”, preconiza.

Equipas móveis e testes gratuitos

A disponibilização de testes gratuitos e acessíveis e “a capacidade de montar rastreios coordenados em áreas que possam estar a alimentar a transmissão” são outras das sugestões de Bernardo Gomes, para quem, mais do que pensar em testar aleatoriamente em todo o país, seria útil garantir a existência de equipas “que possam ser deslocadas entre regiões, de acordo com a epidemiologia e com a evolução epidémica”.

A propósito dos autotestes cuja venda em farmácia acaba de ser autorizada pelo Governo, o médico considera-os necessários, mas alerta para o risco de a sua utilização poder vir a exacerbar comportamentos de risco. “Se um teste mal-executado der um falso negativo, a pessoa pode a seguir adoptar comportamentos de risco, o que pode transformar estes testes numa desvantagem. E este risco tem de ser comunicado de uma forma mais assertiva”, alerta.

De acordo quanto à disponibilização de autotestes, o pneumologista Filipe Froes acha, aliás, que eles “devem ser gratuitos nalguns sectores essenciais para manter a sociedade a funcionar, podendo ter diferentes níveis de comparticipação noutros sectores”. “O rastreio e o diagnóstico rápido não podem ser vistos como um custo, mas como um investimento para manter a sociedade aberta e salvaguardar o tecido económico do país”, sublinha.

E para fazer aumentar a capacidade de testagem instalada no país, assegurando resultados e diagnósticos em menos de 24 horas, este especialista diz que “falta reforçar a saúde pública, mobilizar a protecção civil, e eventualmente as Forças Armadas, e agilizar o processo de importação e certificação de testes”.

“Não podemos demorar duas ou três semanas para certificar produtos que são essenciais”, avisa, para acrescentar que o Governo devia também “activar a academia nesta questão da testagem”. Como? “Envolvendo universidades e politécnicos na realização dos exames nos seus laboratórios e criando condições para que se produzam mais testes e em tempo útil”.

Matriz demasiado simplificada

Perante aquele que considera “o melhor plano de desconfinamento de todos, à excepção de todos os outros que não existiam”, o pneumologista elogia-lhe a “coerência, uniformidade e transparência” que considera essenciais para promover a adesão das pessoas às restrições vigentes. Mas considera que a monitorização dos factores de risco que podem ditar retrocessos ou a paralisação do calendário deve ser feita mais amiúde. “Não podemos ficar 15 dias à espera de ver o que é que se passa no terreno”, alerta, lembrando, a partir do exemplo do Reino Unido, que “é previsível que a abertura das escolas, nomeadamente nos grupos etários mais jovens, possa estar associada a uma subida de 0,25 do Rt”.

Já o matemático Henrique Oliveira considera que “a abertura é demasiado rápida” e que se devia ter começado pela reabertura isolada das creches. “Atingimos menos de 20 mortes por dia, que era um dos meus critérios de desconfinamento, estamos com menos de mil internamentos nas enfermarias e na segunda-feira estaremos com menos de 240 pessoas nos cuidados intensivos, mas penso que o número de casos diários devia baixar para cerca de 250 novos casos de contágio por dia”.

“Devíamos desconfinar a partir do dia 22 de Março”, calcula este matemático, para quem “a matriz apresentada com os factores de risco é extremamente simplificada e pode comportar um problema grave: se houver um agravamento expressivo, podemos saltar directamente do nível 1 para o 4, ou quase, sem passar pelos escalões intermédios e isto não dá tempo de reacção aos decisores, nomeadamente para fazerem aprovar a legislação que venha a ser necessária”, observa, a propósito de um plano que, no geral, “é prudente e sensato”.