Plano de desconfinamento faz-se com passos “pequenos e seguros”, mas não é “cauteloso em excesso”

Raquel Duarte, que na segunda-feira apresentou linhas gerais para o desconfinamento, acredita que a proposta de plano é lenta, mas não demasiado “cautelosa”. A especialista diz que a abertura do pré-escolar terá menos efeitos na doença, mas maior impacto económico, mental e social nas pessoas.

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Raquel Duarte Nelson Garrido

A pneumologista Raquel Duarte, que na última reunião de especialistas e políticos no Infarmed traçou linhas para as próximas semanas e propôs um plano de desconfinamento por etapas, acredita que a proposta de reabertura do país não é “cautelosa em excesso” e diz que o objectivo é, acima de tudo, “dar passos seguros”.

“O nosso objectivo foi começar de uma forma faseada, lenta, dar passos pequenos, mas seguros, de forma a conseguirmos ir desconfinando de uma forma progressiva. Tivemos um ano para aprender que não há medida nenhuma que funcione sozinha. Tudo tem que ter por base serviços de saúde pública fortes, uma boa testagem da população, detecção precoce de casos, implementação de medidas de saúde de publica precoces — como a identificação dos contactos e isolamento dos doentes — e um bom e célere plano de vacinação. Tudo isto tem de estar no terreno”. 

Raquel Duarte, que foi secretária de Estado da Saúde entre 2018 e 2019, foi uma das especialistas convidadas pelo Governo para pensar “numa resposta pós-desconfinamento” com critérios objectivos em relação à situação sanitária do país em cada momento que permitissem, depois, sustentar a decisão política de abrir actividades ou, por outro lado, encerrá-las. A proposta serviu como base para o plano que o Governo revelará esta quinta-feira e inclui uma avaliação que deve ser feita a cada duas semanas.

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Escola em Faro, Algarve RUI GAUDÊNCIO

Segundo o plano proposto, a abertura do pré-escolar e das creches deve ser a primeira medida a tomar em termos nacionais. “O nosso objectivo era que fosse prioritária, em termos de levantamento, aquela medida que tinha menos efeitos na transmissão da doença, mas maior impacto económico, mental e social nas pessoas. E foi feita uma priorização desta forma”, explica a perita PÚBLICO. “Aquilo que vimos nas crianças mais pequenas é que o risco de transmissão, de desrespeito pelas regras e de mobilidade territorial são mais baixos, mas o risco social e mental é alto. Era uma medida sem grande risco, por isso foi logo das primeiras a ser incluída”.

Em situação diferente estão os restaurantes e actividades similares, que saltam para um dos últimos lugares nesta proposta de plano, mantendo, no entanto, a opção de take-away. Ainda assim, e dependendo da evolução de cada concelho, os restaurantes poderão, logo no nível 3, funcionar em serviço de esplanada. Segundo explica Raquel Duarte, a evidência científica disponível tende a apontar este sector como sendo de alto risco. 

“Podemos ter as mesas separadas, mas as pessoas sentam-se e retiram a máscara, e enquanto comem também falam. Temos o risco de aglomeração, de transmissão e algum risco de mobilidade territorial. A abertura tem, por outro lado, um efeito económico importante, mas efeitos sociais e mentais mais reduzidos. No entanto, as medidas restritivas têm tido um efeito económico devastador nesse âmbito, o que é preocupante e foi tido em consideração. É difícil encontrar um equilíbrio entre a contenção da pandemia e a protecção de determinadas áreas de actividade. A proposta procura permitir algum grau de retorno, mas com a cautela que a situação impõe”, diz a perita, acrescentando que “estas repercussões foram todas pesadas”.

Raquel Duarte diz ainda que a população portuguesa estava a passar uma fase de fadiga pandémica e, para elaborar um plano de reabertura do país, era importante perceber qual o risco de desrespeito de cada medida. E, para tal, os peritos elaboraram um questionário para ser feito a um grupo populacional heterogéneo (de várias idades, géneros, actividades laborais ou residências): avaliou-se a receptividade a cada medida e se estas estavam de acordo com o que era percebido por estes cidadãos como “as necessidades mais prementes”. Além disso, ao contrário do primeiro desconfinamento, foi preciso ter em conta a circulação das novas variantes do SARS-CoV-2, mas também o processo de vacinação que está em curso. 

Sobre o plano que será apresentado esta quinta-feira ao país, a pneumologista diz que terá que incluir (também) decisões “mais políticas”. “Uma coisa é a opinião de peritos depois de revisões científicas e depois de auscultar a população. À parte política compete ouvir tudo isto, mas ter em conta outros factores, também políticos, que nós não tivemos em atenção”, refere.

Segundo disse esta quarta-feira Rui Rio, no final do encontro virtual com o Presidente da República, o índice de transmissibilidade da doença está perto de 1, facto que poderá dificultar o aguardado desconfinamento. 

Para a especialista, este aumento isolado não é uma preocupação porque se trata de uma “pequena variação”. O importante, diz, é focar a atenção em “números reais em tempo real, sem dados atrasados”. “É evidente que temos que estar atentos a todos os indicadores, mas o Rt estar a aumentar por si só não me preocupa demasiado porque a taxa de positividade tem sido baixa. Ao estarmos a testar mais gente (e estamos a testar nesta altura os contactos de maior e menor risco), não estamos a encontrar muitos mais casos”.

A proposta final do plano de desconfinamento deste grupo de especialistas terá algumas alterações, como ter em conta tanto a incidência (número de casos por 100 mil habitantes nos últimos 14 dias) como o crescimento da doença (índice de transmissibilidade) para a avaliação constante da situação epidemiológica. “Também queremos que cada concelho seja avaliado não só por si, mas pelos concelhos vizinhos. Há mecanismos de mobilidade entre os municípios que é preciso ter em conta. No passado, quando a incidência começava a subir num concelho, a mancha rapidamente se alastrava para os concelhos vizinhos, o que é natural.