Quanto vale o jornalismo?

Se tudo que consumimos tem um preço, porque a maioria dos leitores se recusa a pagar pelo jornalismo?

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Há umas semanas recebi num grupo de WhatsApp formado por comunicadores uma série de PDF de revistas e jornais do país. Páginas e páginas de jornais e revistas prontos para serem descarregados. Conteúdos pagos, elaborados criteriosamente por jornalistas, designers, editores e outros profissionais, sendo distribuídos aleatoriamente de forma ilegal. Esse acto cometido por uma própria profissional da área da comunicação, além de ser um crime de violação dos direitos do autor, que pode levar a multas e até à prisão, é um retrato da desvalorização do jornalismo. O meio digital propôs a ideia de que as informações devem ser instantâneas e gratuitas e os internautas adoptaram-na como verdade absoluta. Quem quer pagar pelo jornalismo que consome? Quem realmente paga? E, afinal, quanto vale o jornalismo?

Parece que Portugal não responde bem essas perguntas, afinal, é um dos países que menos paga por notícias online. Segundo o estudo da Digital News Report Portugal 2020, cerca de 7% dos leitores portugueses pagaram ou pagam por conteúdo noticioso online.

Às vezes, sob um discurso quase politizado de que a informação deve ser para todos, quem reclama do pagamento de portais e jornais esquece-se de que por trás de cada notícia há um – ou mais – jornalista que trabalhou arduamente para verificar os factos, consultar as fontes, escrever ou gravar, um conteúdo verídico e de qualidade. Por trás de cada reportagem, de cada crónica, de cada artigo ou entrevista, há um profissional que se dedicou para realizar o seu trabalho e, assim como qualquer indivíduo e o seu ofício, merece e deve ser valorizado.

O que parece curioso é que os internautas, mesmo nesse paraíso digital de infinitudes disponibilizadas, pagam pelos streamings, como o Spotify e a Netflix, e pagam por outros materiais e conteúdos, mas reclamam quando esbarram em reportagens feitas para assinantes. Aliás, pior do que reclamar, burlam, através de técnicas cibernéticas, o acesso ao conteúdo restrito. Burlam e distribuem versões em PDF de jornais e revistas. Diante disso, cabe a pergunta: se tudo o que consumimos tem um valor monetário, porque a maioria dos leitores se recusa a pagar pelo jornalismo?

Não se paga o que não se valoriza. Não se paga aquilo que não acredita que deve ter uma moeda de troca. A crença de que o jornalismo deve ser gratuito é a desmoralização do trabalho jornalístico.

Jornais e revistas sobrevivem através dos anunciantes, não dos seus assinantes. E se um dos pilares da democracia, que é o jornalismo, não é reconhecido e aclamado, é sinal de que nos estamos orientando na contramão como sociedade. Em paralelo com a desvalorização dos media, há a desinformação e a disseminação das mentiras.

Em tempos de fake news, onde uma notícia falsa alcança 70% mais que uma notícia real, segundo os estudos do Instituto de Tecnologia de Massachusetts , e onde os efeitos delas podem ser grandiosos e desastrosos — governos do Trump e Bolsonaro que o digam! —, é preciso ser realista ao observar as dimensões a que as fake news podem chegar. Não se trata de uma brincadeira ou de que um golpe facilmente identificável. O impacto das fake news direcciona a opinião pública, orienta cenários políticos, cria medo, difamações e linchamentos. No contexto pandémico, de confinamento e poucas certezas, este perigo é ainda mais alarmante: notícias falsas sobre o novo coronavírus quintuplicaram em apenas um mês no Twitter. Segundo um sistema de extracção automática de fake news arquitectado pela Faculdade de Ciências do Porto e pelo Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (Inesc Tec), em apenas uma semana foram registados 3180 tweets com informações falsas.

Inundado de notícias falsas, Portugal é o segundo país no mundo mais preocupado com a autenticidade das notícias no meio digital, ainda segundo o estudo da Digital News Report Portugal 2020. Três quartos dos portugueses manifestaram-se preocupados com o que é real ou falso na Internet. Mas há um antídoto para essa aflição. Sabes qual é? Apoiar e valorizar, moral e financeiramente, quem tem como ideal o respeito e a busca pela veracidade das informações: o jornalismo.

Enquanto isso não acontece, o jornalismo segue o esforço para ser cada vez mais democrático e acessível: oferece assinaturas gratuitas aos desempregados, descontos aos universitários, promoções aos docentes. Produz conteúdo gratuito para informar toda a população e, ainda, se dedica a combater as notícias falsas que circulam nas redes. O jornalismo segue como um agente de transformação social e há quem reconheça a importância disso, como é o caso da instituição Santa Casa que, no ano passado, ofereceu 20 mil assinaturas de vários meios de comunicação a fim de combater a desinformação. Quanto aos leitores, talvez apenas quando outros tenebrosos rumos forem trilhados a partir da mentira é que a consciencialização da importância do jornalismo possa florescer.