Promessas e… realidades

Este será um tempo muito difícil e exigente. Não se compadece com facilitação, cedência a interesses e temor das decisões difíceis. E o dever de exigência não será apenas dos responsáveis, é também de todos nós, de uma cidadania empenhada e lúcida. A responsabilidade será sempre nossa, pois a nós, cidadãos, pertence o dever democrático irrecusável de escolher!

23 de Fevereiro de 2021: será que a tempestade passou e a tranquilidade se imporá? A informação pública é não só exaustiva, como me parece engagée: redução sustentada em novos casos diagnosticados, admissões hospitalares e mortes causadas pela covid-19, persistindo ainda número elevado na ocupação dos cuidados intensivos, os melhores resultados na Europa, menção continuada nos noticiários. Oscilamos sempre entre dois pólos extremos: ou a tragédia ou o sucesso, incapazes de meditar sobre as causas do infortúnio e daí retirar as lições necessárias.

O confinamento pós-natalício produziu o efeito desejado. Tem um contraponto. Não obstante promessas reiteradas de aumento do número de testes de diagnóstico e de capacidade para a sua realização, a realidade parece ser o oposto: redução abrupta do número de exames de diagnóstico, o que também explicará o menor número de novos casos identificados. Como a seguir ao primeiro período do primeiro confinamento, quando se impunha um mapa, tão rigoroso quanto possível, da distribuição da doença que balizasse desconfinamento inteligente, faseado e bem planificado. Em artigo na época [1] interrogava-me se o tempo que nos espera será um intermezzo num eterno recomeço do Passado ou, pelo contrário, uma oportunidade para a mudança de hábitos, de paradigmas e de exigência? De facto, a realidade é dura e indesmentível, como o evidenciam os gráficos que tenho usado nestes artigos com a autorização do seu autor [2], mostrando a evolução do número de casos por milhão de habitantes. Já em Maio/Junho de 2020 divergíamos duma Europa como mostra no quadro 1A: em Maio de 2020, queda de número de casos causado pelo confinamento, mas começo de subida progressiva logo após o desconfinamento, que se acentua em Junho (1B), que nos levou a tempo de amargura que recordamos e marcou o fim do milagre português.

Quadro 1A e 1B  – Evolução de novos casos/milhão de habitantes

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Infelizmente, a história parece querer repetir-se. Assiste-se a clamor público para reabertura – começando pelas escolas –, acusação ao lobby dos epidemiologistas e outros peritos, bombardeamento informativo de que atingimos os melhores resultados da Europa... a litania habitual própria de alguns interesses. A realidade em Fevereiro de 2021, como bem se ilustra no Quadro 2 do mesmo autor em pleno confinamento –, emergiu de um pesadelo que, num ápice, nos tinha atirado para o pódio dos piores países do mundo em termos percentuais de infectados e de mortalidade, com o descalabro à porta dos hospitais e o colapso iminente das estruturas públicas de Saúde. E note-se em A no quadro 2 que a descida efectiva do acumulado de casos começa uma semana depois do encerramento das escolas, e que é sustentada até agora (B).

Quadro 2A e 2B – Evolução de novos casos/millhão de habitantes 

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Estaremos preparados para desconfinar? Comecemos pelas escolas, que todos consideramos desejável que possam recomeçar o ensino presencial. Para que a tragédia não se repita era necessário programa claro, faseado e estruturado com: i) disponibilização de testes de diagnóstico fiáveis e não os mais fáceis e baratos que darão uma falsa noção de segurança ii) rastreio sistemático dos contactos (onde estão os rastreadores? Mobilizaram-se os alunos finalistas de Medicina e Enfermagem como alguns de nós sugeriram?) iii) programa de vacinação extensivo aos professores e restantes funcionários escolares.

Temo que nada disto esteja operacional e pronto a começar, evitando-se a repetição de erros e omissões do passado recente, e que tenha em conta duas realidades distintas. Primeiro, as novas mutações virais, cada vez potencialmente mais frequentes e graves quanto menor for a imunização da população; depois, uma sociedade perplexa, efectivamente cansada, preocupada, surpreendida pela incoerência do discurso e de alguma praxis pública, numa percentagem significativa com enormes dificuldades financeiras, um tecido económico exaurido que se arrasta entre expectativas de apoios não concretizados ou insuficientes e sem um horizonte de esperança. E o mínimo que a cidadania informada poderá exigir é coerência e competência no discurso e acção do Poder político. Num artigo recente, Thomas Pueyo [3] resumia com clareza o dilema actual traduzido pelo desequilíbrio entre a maior agressividade de novas mutações virais e a insuficiente protecção da população em consequência dum processo de vacinação que na UE se está a pautar por uma lentidão inaceitável, invocando para o efeito a fábula da lebre – o vírus – e a tartaruga – as vacinas. Como na fábula, a tartaruga vence a lebre pela persistência e determinação, mas para isso precisamos dum esforço colectivo e uma intervenção política determinada. No quadro 3 (adaptado dos dados da DGS e de dados internacionais) mostra-se a situação na Europa até ao fim da semana que passou em comparação com Israel, Reino Unido e EUA.

Quadro 3 – Evolução da Vacinação em Portugal e noutros países

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Estamos longe de ter vacinado uma percentagem significativa e relevante da nossa população e ocupamos a sétima posição no contexto da União. Para os três países que fazem a diferença – o gráfico não inclui os Emirados Árabes, que estão no segundo ou terceiro lugar – há explicações diversas. Os EUA (a verde no gráfico) tenderão a acelerar graças a uma nova política, à sua indiscutível capacidade científica e tecnológica e real poder financeiro. No Reino Unido houve três factores decisivos: i) a decisão de generalizar a primeira dose ao maior número de pessoas atrasando a segunda injecção, decisão sustentada pelo conselho científico de apoio ao governo, ii) integração dos sectores hospitalar e de cuidados primários que permitiram listagens coerentes dos candidatos à vacinação e iii) coerência no processo de selecção, minimizando atropelos que são sempre possíveis. Finalmente Israel, que de uma forma inteligente ganhou espaço de manobra disponibilizando um verdadeiro estudo de campo sobre a eficácia das vacinas que o seu bem organizado sistema de saúde público e privado – uma mais-valia possibilitou.

O atraso na UE é estranho e algumas explicações têm sido avançadas que, a ser verdade, não deixam de surpreender pela negativa, ilustrando a excessiva burocratização dominante que não se compadece com a situação pandémica. Mais uma vez a realidade se sobrepõe à ilusão e às promessas. Será que o nosso sistema de Saúde, que é misto, onde cerca de 10% da população não tem acesso porque não tem médico de família e outros 30% são utilizadores dos sectores privado e social, estará organizado, em todo o País, de modo a produzir listagens coerentes e hierarquizadas dos candidatos à vacinação segundo os critérios oficias em vigor? Acompanhei os esforços de informatização nos serviços de Saúde como director de serviço hospitalar e no sector privado também, mas defronto-me frequentemente com problemas graves de comunicação, inter-operabilidade e compatibilização de programas diversos. Será o sistema na sua operacionalização capaz de assegurar equidade, incluindo estes dois grupos que menciono, uns cujo acesso à Saúde é limitado pela falta de recursos e de médicos de família e, no outro extremo, os que por opção individual e legítima recorreram preferencialmente ao sector não público? Ou haverá penalizados, como está a acontecer com os profissionais de saúde que trabalham fora do SNS?

Tomo conhecimento hoje das declarações do responsável pela task force da vacinação, que saúdo pela clareza e frontalidade. Primeiro, a possibilidade de atrasar a segunda injecção da vacina alargando o número de vacinados, o que é um objectivo prioritário. Os ingleses fizeram-no e o exemplo tem sido seguido por outros. Depois, a potencial falta de vacinas que poderá ter como efeito atrasar todo o processo em curso para 2022. O que obviamente seria uma tragédia, para uma Economia tão dependente do Turismo. Um problema cujas implicações num mercado concorrencial na Europa e no mundo seriam catastróficas. Nada acontece por acaso e, como afirmou Henri Poincaré, o acaso não é mais que a medida da nossa ignorância! Este problema da disponibilidade de vacinas é político e como tal tem que ser enfrentado. Portugal – na presidência rotativa da União – precisa fazer ouvir a sua voz, com uma intervenção clara e fundamentada, lado a lado com a Comissão. O silêncio nem sempre é de ouro!

De facto, os ventos não parecem favoráveis, mas a arte da navegação para o bom piloto é saber aproveitar os ventos desfavoráveis para chegar ao bom porto. E daí reforçar o apelo à coerência no discurso e na acção, evitando descoordenações, sugestões agradáveis sem consequência e que apenas servem para dissipar energia e incrementar a entropia na Comunidade. Começar um processo de desconfinamento, sem um plano claro, estruturado e faseado será rapidamente mal percebido pela sociedade, conduzirá a excessos, erros e abusos, cujas consequências são mais que previsíveis.  O The Times trouxe ontem em grande destaque o plano do governo britânico para o desconfinamento progressivo e faseado. Pode discordar-se dos protagonistas – incluo-me no grupo e lamentei o “Brexit!” –, mas reconheço decisão e coragem política. E, como mencionei em mais que um artigo, o sistema de aconselhamento científico do governo britânico pareceu-me exemplar – até soube emendar a trajectória! –, sem a cacafonia das sessões do Infarmed (adopto sem reservas a expressão usada por Daniel Oliveira!) e a crítica excelente de C. Sakellarides, que subscrevo. De modo algum concordarei com a sugestão do conceito de lobby dos epidemiologistas, tenho consideração científica, profissional e pessoal pelos seus participantes, mas o sistema não pode, nem deve, funcionar assim. E o exemplo britânico, que vem da guerra e ao qual já me referi citando a magnífica exposição sobre Churchill’s Scientists, poderia ser exemplo. Há um responsável que aparece ao lado dos políticos, que faz a síntese das controvérsias naturais e das diferentes perspectivas dos investigadores e aponta um caminho num exercício de accountability pública do sistema científico. De facto... It’s a long... long way to Tipperary!

Este será um tempo muito difícil e exigente. Não se compadece com facilitação, cedência a interesses e temor das decisões difíceis. E o dever de exigência não será apenas dos responsáveis, é também de todos nós, de uma cidadania empenhada e lúcida. A responsabilidade será sempre nossa, pois a nós, cidadãos, pertence o dever democrático irrecusável de escolher!

Referências:

[1] Fernandes e Fernandes, José: Desconfinamento... E agora, que rumo?, PÚBLICO, 6 de Maio de 2020
[2] Aires de Sousa, José: A Matemática do Covid n.ºs 60 e 114
[3] Pueyo, Thomas: Variants vs. Vaccines: The Race between the Tortoise and the Hare, Fevereiro 8, 2021