Zeca, anda ver o sol chegar

Volvidos este mês 34 anos sobre a sua morte, José Afonso ensinou-nos que, apesar da incerteza, do medo e da ansiedade, mesmo na noite mais escura podemos comprometer-nos com aquele íntimo sentido onde o coração começa.

Numa carta enviada, de Faro, à Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense a 27 de Abril de 1964, a agradecer o convite para participar nas comemorações do 52.º aniversário daquela agremiação alentejana, José Afonso enfatizava a certo passo: “Pessoalmente interessa-me que não seja dado um carácter de exibição no estilo ‘Variedades’ à apresentação das minhas canções e que tudo decorra no clima de solidariedade que a vossa agremiação se propõe incentivar para além duma simples finalidade recreativa.” Esta nota é reveladora e sintetiza bem várias tonalidades da sua personalidade: uma postura espontânea e pouco alinhada com o empolamento, o culto da imagem e o vedetismo; uma modéstia dotada de espírito crítico e que não descurava uma concepção muito pessoal de dignidade artística da sua performance pública, demarcando-se de ideias de “aligeiramento”, banalização, lugar comum; e, nas entrelinhas, o gérmen de uma consciência crescente da dimensão política da sua linguagem, que, no fundo, não queria ser conotada ou reduzida a um acto de puro entretenimento musical.

Como permanecer quieto e inebriado pelas luzes dos holofotes quando o prazer da marcha (o espírito on the road) era para si também uma atitude estética e ética? Há na obra de José Afonso um elogio da mobilidade, da atopia, da imersão da/na viagem, de uma errância que questiona, (re)constrói e liberta. Sabemos que em todos os tempos houve uma tensão dialéctica entre a disciplina e a errância, entre a ordem dominante e a força transgressora, e tendemos a negativizar ou a recear mais o que não é fixo, estático ou linear, porque mais imprevisível, divergente, “anómalo”, temível. O escritor e viajante Bruce Chatwin ficava incomodado quando comummente confundiam a errância do nómada com a errância daquele que não sabia por onde ir. Para Zeca, essa inquieta deambulação revestia-se de uma sabedoria intuitiva, de uma poética subversiva, de uma ebulição criativa (ora em lume brando, ora voraz), de uma curiosidade congénita que buscava a “congregação emocional das pessoas” como gostava de sublinhar, não obstante a faceta precária e instável de um modus vivendi que não se coadunava com a linha recta nem com um itinerário rígido. Daí que este andarilho se enfiasse amiúde nos buracos que aparecessem no meio de bailes e casamentos, onde se adaptava às circunstâncias tantas vezes pouco adequadas, e cantasse por sua conta e risco, respondendo pelos seus actos.

Revisito as palavras do meu amigo e saudoso José Louro, figura maior do ensino e do teatro a sul, que, ao recordar o colega de docência nascido em Aveiro, desnudava assim as vicissitudes dos dias:

Fosse em Santo António do Alto, um miradouro isolado no topo de Faro, fosse no teu barco com o António Barahona e o Pité, fosse em nossa casa, quantas cantigas tuas se eclipsaram no mesmo éter, no mesmo vazio. Tu pegavas na tua viola (eras o único, entre nós, que dedilhava as cordas e, mesmo assim, lastimando e protestando que os teus dedos não iam além das duas posições básicas de, como dizias, acompanhar o teu “tem grelinhos, tem grelinhos no quintal” ou o “caga cão, caga gato, caga o feijão carrapato”) e, versejando um provisório lá-lá-rá-lá-lá, pedias insistentemente que decorássemos tal improviso para, no dia seguinte, arranjarmos qualquer modo de o gravar. Só que o nosso ouvido e a nossa memória novamente dissipavam o que poderia ter sido uma coisa bonita saída do teu talento. “Merda!” — dizias tu, “nunca mais consigo arranjar um desses gravadores portáteis!”.

É que o dinheiro era pouco e, quando no dia 30 ias à livraria pagar os livros fiados durante o mês, lá ficava uma boa parte do teu ordenado de professor, e o que restava lá se convertia em muitos pequenos-almoços, almoços, jantares e ceias reduzidos a uns tantos copos de leite! E lá vinha agora uma nova revoada de protesto contra o leite através da frase: “Ó pá, estou cheio de gases!” A vida era dura.

Lembro-me de o Zé Louro falar do grande zelo e amor de José Afonso pelos estrados e palcos das sociedades recreativas algarvias, onde tantas vezes actuou, com maior frequência a partir de 1959, à socapa ou à revelia da polícia política, espraiando a limpidez da sua voz, deixando lastro. E, curiosamente, é sabido que Zeca costumava menorizar-se como músico, afirmando frequentemente que todos tocavam viola melhor do que ele e que o superavam na forma de comunicar com o público, que se esquecia das letras, que não sabia ler pautas musicais... Mesmo que tecnicamente isso pudesse ter um fundo de realidade, quem privou mais de perto com ele, como Louro, destaca uma verdade que a sua voz e modo de interpretar encerravam, os quais tinham o condão de criar, logo nas primeiras notas entoadas, um élan, um clima de partilha e cumplicidade com a audiência, independentemente do contexto.

Num dos seus mais brilhantes textos cronísticos, Alexandre O’Neill afirmaria que um poeta é um distraído terrivelmente atento. E apesar de José Afonso nunca se ter assumido como poeta, mas sim como autor de canções, para muitos que o conheceram mais profundamente ele era, porventura, um dos distraídos mais lúcidos com quem conviveram. Se, por um lado, tudo parecia escapar-lhe, passar-lhe ao lado sem deixar rasto, havia nele, paralelamente, uma dimensão interrogativa, de auto-questionamento, de recusa de qualquer tutela, filiação (era um espírito livre e insubmisso, irrenunciavelmente libertário e por vezes bizarro) ou rótulo, de atenção obsessiva a tudo o que o cercava, ao que se relacionasse com a política e a economia.

Ainda segundo José Louro, era frequente ouvi-lo dizer sobre algo novo que lhe era dado a conhecer: “Não percebi nada disto, mas gostei muito.” Havia nele abertura de espírito e uma instintiva vontade de abraçar o desconhecido e de construir pontes, nomeadamente entre conteúdos mais eruditos e a cultura popular. A propósito do inspirador amigo, Louro recordava ainda:

Saio dessas sessões [atuais de homenagem a Zeca] e penso no cheiro a lodo com que tu chegavas à praia de Faro, para dormir numa tenda em pleno areal, após teres atravessado o Parchal, em competição com aqueles de nós que seguiam enxutos pela estrada; penso nas tuas peúgas, uma de cada cor, ou até na ausência delas por já não haver mais na gaveta; penso na tua gravata com um nó perene que, à entrada na escola, enfiavas ao pescoço, quer houvesse um colarinho quer um cós de t-shirt; penso na tua voz, com dias de limpidez total e com dias em que afirmavas que “qualquer galinha-choca me faz concorrência”.

Luiza Neto Jorge, que privou com Zeca em Faro nessa sua fase de fruição panteísta, descreve o amigo como “um tipo completamente despistado, um tipo distraído ao máximo a quem estavam sempre a acontecer coisas inimagináveis”. Exemplo disso é o episódio ocorrido na Beira, em Moçambique, para onde José Afonso partiu em 1964 com Maria Zélia, ao encontro dos pais e dos dois filhos do primeiro casamento, aí leccionando durante três anos. O casal habitava num prédio com seis apartamentos, geminados, três de cada lado, aos quais se acedia pela traseira através de uma escada de serviço comum. Ao final de uma tarde, ao regressar das aulas, Zeca entrou, esfomeado, pela cozinha de um dos apartamentos e sentou-se a comer um pudim que foi buscar ao frigorífico, altura em que estranhou e se lembrou que Zélia não costumava fazer pudim. Percebeu então que se tinha enganado na porta e entrara na casa do vizinho. No dia seguinte houve muitos pedidos de desculpa aos vizinhos, que só então caíram em si de espanto.

Numa entrevista mais tarde, a propósito da sua vivência algarvia, José Afonso falaria de uma fase de euforia extremamente gratificante e do convívio com as coisas mais felizes da sua vida, em que discutia com amigos pontos de vista vários e em que havia, como que ritualmente, o hábito da caminhada, de andar a pé até Olhão, Quarteira e até a ainda mais longe. Numa carta remetida de Faro ao seu irmão em Janeiro de 1961, Zeca assegurava ter “exterminado certos resíduos de patetismo bucólico que outrora o traziam em perpétuo estado de deliquescência”. Acreditava na revolução interior pelo contacto com os outros, mais do que na exterior, pois para ele as mudanças deveriam assentar “numa reivindicação integral da vida a partir de cada personalidade”. No Algarve terá sentido aquela sensação de apaziguamento e abertura de horizontes que Miguel Torga também fala num dos seus escritos sobre a região, quando alude à harmonia dos seres e da paisagem que o lavavam da fuligem que se lhe agarrara aos ossos e lhe clarificavam as courelas encardidas que trazia no coração.

José Afonso apaixonou-se por essa bem-aventurança terrena, por um Algarve “sem nenhum dos atavios que aviltam a condição dum céu” (para usar impressões de Torga novamente). Tornou-se um “artista litoral”, pois sem mar, sem sol, sem esse diálogo físico com o espaço sem limites, não se reconheceria, e foi isso que lhe permitiu atingir o pouco equilíbrio que o mantinha, como confessa numa outra missiva também endereçada na época ao irmão João. Fez uma vida muito pagã, de ligação à natureza, deambulando pelos bailaricos das colectividades e contactando de perto com o fervilhar e as epifanias do quotidiano popular, sem pensar demasiado em cantigas, embora fosse fazendo uma ou outra aqui e ali. Já Manuel Alegre recorda que, ainda em Coimbra, Zeca resolveu um dia partir para Marrocos, mas que ainda conseguiram apanhá-lo a tempo graças a um grupo de ciganos que conheciam. Como se a tentação e o apelo do sul, esse impulso de homo viator, já estivessem profundamente inscritos nele. “Ou talvez daquele azul de que fala Mallarmé e que era, de certo modo, a cor da sua voz. Ele era como a cigarra e precisava do espaço do Verão, Alentejo, Algarve, a planície, as areias e o mar” (Alegre).

O barco referido na letra Tenho barcos, tenho remos (canção gravada durante esta fase) pertencia a uma pequena sociedade constituída por Eduardo dos Santos Pité, António Barahona, António Bronze e José Afonso, que o salvaram da decomposição e do esquecimento. A embarcação era alcunhada pelos pescadores de barco do Tosse, Tosse ou Barco do Diabo, referências às viagens e noitadas, envoltas em surrealismo, passadas na ria – e era, segundo a poetisa Luiza Neto Jorge, o “catalisador dessa subversão do quotidiano” que unia aquele grupo de amigos. Pité, que foi aluno de Zeca e seu grande amigo e companheiro à época, vagueava com ele pelas ruas de Faro até altas horas da noite numa cúmplice boémia que também era fonte de inspiração. Por vezes desapareciam, segundo Neto Jorge provavelmente para fazer nudismo: “Um dia, o Zeca vinha com as cuecas molhadas que trazia na mão. Entrou desse modo na sala de aula enquanto poisou as cuecas em cima de uma secretária.” Situações vividas pelos quatro, em comunidade perfeita com o mar algarvio, agrupam-se numa espécie de ciclo fraterno representativo de uma das fases mais harmoniosas da vida de José Afonso. Foi nesse ambiente dos sapais da ria de Faro e dos areais do sotavento que nasceram canções como o Menino do Bairro Negro ou o Senhor Poeta, tantas vezes entoadas por José Afonso no quase mítico barco.

Sobre este período conta-se ainda um curioso episódio por altura, em pleno Verão, da visita de um membro do Governo ligado ao Ministério da Educação a Faro. Alunos e professores de todos os estabelecimentos de ensino da cidade foram convidados a dar-lhe as boas-vindas e a assistir a um discurso dessa individualidade que foi proferido directamente da varanda do Governo Civil de Faro. Nesse momento, Zeca não estava presente. A dada altura apareceu um indivíduo vindo do Cais da Porta Nova, que fica junto à marina, apetrechado de remos e de um balde, transportando ainda uma cana de pesca, e que vestia calções e t-shirt e calçava chinelos. Os presentes rapidamente perceberam que se tratava do professor Zeca Afonso. Com um ar distraído, fez questão de “desfilar” silenciosamente pela rua e, ao passar por um enorme cordão humano, é ovacionado com mais aplausos do que a entidade oficial tinha recebido. O regime de então considerou o seu gesto como uma provocação “silenciosa”, uma vez que José Afonso poderia ter tomado outro itinerário, mais curto, mas não o fez. Fez sim questão de seguir o caminho mais longo. Para muitos este acto foi considerado uma lição de enorme coragem e de grande incentivo, exortando o espírito de todos aqueles que pretendessem vencer o medo.

Foi também no Algarve, mais particularmente na Fuzeta, que José Afonso conheceu aquela que viria a ser a sua segunda mulher, Maria Zélia, com a qual viveu “uma vida muito viva, vivida com paixão e algum desequilíbrio”, e com quem acabou por casar contra a vontade da família dela. Confessaria o cantautor: “O conhecimento da Zélia, num lugar do Algarve, reconciliou-me com a água fresca e com os tons maiores. Passei a fazer canções maiores.” Zeca grava em 1964 um EP que integrava as canções Coro dos Caídos, Ó Vila de Olhão, Canção do Mar e Maria, esta última dedicada precisamente a Zélia. É ela que lhe dá estabilidade emocional, afectiva e familiar, que lhe acolhe os humores e rumores, que se converte no grande pilar de sustentação de uma vida andarilha, rebelde e marcada por devaneios criativos mas também por privações e marginalizações impostas pela ditadura em relação ao ensino: “Maria / Nascida no monte / À beira da estrada / Maria / Bebida na fonte / Nas ervas criada // Talvez / Que Maria se espante / De ser tão louvada / Mas não / Quem por ela se prende / De a ver tão prendada.” Em carta enviada ao irmão João em 1963, sobre a sua relação com Zélia, José Afonso revelava, de forma optimista, estar convencido que desta vez acertara. O amparo da mulher, dos amigos e dos alunos e o convívio com a natureza algarvia e sua luz e água mediterrânicas foram esses portos seguros, essa nutrição de que o materialmente desprendido, hipocondríaco (frequentemente com queixas do foro respiratório, más digestões, azia e “pedra no diafragma”) e imprevisível Zeca precisava para prosseguir em frente. Ele era, segundo José Louro contava, um homem tenso e impaciente, e de uma pureza rebelde quase infantil. Tinha sempre pressa sem a ter e trazia em si uma ansiedade permanente, como se o dia seguinte fosse um insustentável novelo de incertezas. “Compensava” isso com uma declarada propensão humorística e uma fina ironia, que o levavam a caricaturar tudo.

A própria relação com Zélia não deixou de ter contornos pouco convencionais. Para essa situação contou o facto de o cantautor ser divorciado e manifestar ódio “pelas mãezinhas das meninas que fiscalizavam os seus comportamentos, ao mesmo tempo que se dispunham a deixá-lo sozinho com as filhas, pretextando uma ida às compras para que as filhas preparassem a armadilha ao doutor”. Na Fuzeta, José Afonso era encarado como um tipo que vinha do exterior, fora do sistema deles e que lhes escapava. Hostilizado e olhado como uma figura um bocado aberrante, apenas conseguia encontrar-se com Zélia nos meses de Junho e Julho na ilha de Faro. Não obstante isso, considerava Olhão a sua terra adoptiva, onde todas as semanas se deslocava e através de um roteiro pessoal deambulava pelo cais e pelas cabanas. Mais tarde reconheceria ter tido sempre uma grande paixão por aquela terra, que imaginava como a do “trabalho e dos indivíduos temperados pela experiência”, enquanto Faro “era a cidade dos administrativos, dos engravatados, dos pequenos comerciantes”. E não esqueceria no último disco “Galinhas do Mato”, de 1985, essa marcante anatomia da errância a sul, que o levou a lugares fraternos como o Escandinávia Bar, na Fuzeta, restaurante “sem rendas de mesa fina”, onde desfilavam chocos com tinta, sardinhas assadas, whiskies com soda e um “búzio a bater palmas”, como reza a letra da sua canção.

Ao falar do contexto que deu origem à canção Ó Vila de Olhão (publicada em 1964 e dedicada aos pescadores olhanenses, cujo humor popular ele tanto apreciava), Zeca recorda as suas muitas viagens de comboio àquela localidade: “A meio do caminho da Fuzeta, entre Olhão e Marim, a vila vai-se adelgaçando, a viagem torna-se mais rápida e ruidosa, devido ao vento que entra pelas janelas. Pode-se berrar sem que ninguém nos ouça.” Servida pela cadência mecânica do “pouca-terra”, aquela crónica rimada sobre as vicissitudes por que passa o mexilhão quando o mar bate na rocha alude metaforicamente a Henrique Ferreiro, dirigente da Junta Central das Casas de Pescadores onde era delegado do Governo junto dos organismos das pescas e apoiante do Estado Novo: “Ó Vila de Olhão / da Restauração / Madrinha do povo / Madrasta é que não / Quem te pôs assim / Mar feito num cão / Foi o tubarão.”

A fase algarvia correspondeu ainda a um período de vital mudança e renovação no repertório do cantautor e na música ligeira que até então se fazia em Portugal, nomeadamente com o EP Balada do Outono (em 1960) e a não inclusão, pela primeira vez, do som da guitarra em 1962 no álbum Coimbra Orfeon de Portugal. No mesmo ano edita o EP que inclui canções como Menino d’Oiro, No lago do breu, Tenho barcos, tenho remos e Senhor Poeta, sendo acompanhado apenas à viola por Rui Pato, figura-chave como instrumentista neste processo de renovação estética e de criação de uma nova linguagem musical e poética, nascendo a “balada” como género musical contemporâneo e autónomo, que já não era fado de Coimbra nem canção tradicional portuguesa. Em 1963, a edição dos temas Os vampiros e Menino do Bairro Negro marca definitivamente, pela sua temática e abordagem musical, a assunção da balada como instrumento de intervenção política e cívica. Rui Pato, seu fiel companheiro e amigo, recorda esses anos de oiro, precários mas extremamente inventivos, vivenciados a sul:

Os ensaios eram poucos, feitos quase sempre nas férias. Foi a minha primeira oportunidade de conhecer o Algarve: em 1963, fiquei uma semana em sua casa no n.º 68 da Rua Duarte Pacheco, em Faro. Partíamos de manhã com destino à ilha do Farol ou da Armona, de barco, com a viola e uma ração de duas sanduíches e duas meloas. Quando eu não podia ir ter com ele, vinha ele a Coimbra à boleia ou então apanhava o comboio até à estação para o qual o pouco dinheiro de que dispunha dava (dizia: “Venda-me um bilhete de 60 escudos em 2.ª classe em direcção ao Norte.”), fazendo o resto à boleia ou a pé, e cá chegava cheio de fome, sem um tostão no bolso, e com um bornal com uma muda de roupa, alguns medicamentos e muitos livros.

Como professor (uma das suas paixões) teve uma carreira relativamente curta, que começaria no Colégio de São José em Mangualde e passaria depois por Aljustrel, Lagos, Faro, Alcobaça e Setúbal. Sobre esse ofício insistia amiúde na crença de que a sua acção era sobretudo de carácter existencial, na medida em que queria pôr os alunos a funcionar como pessoas, incutindo-lhes um espírito crítico e fazendo com que exercitassem a sua imaginação à margem das directivas oficiais. Ao irmão João, que o visitou em Faro em 1962, encontrando-o à mesa de um café a perguntar aos alunos as notas que mereciam, José Afonso afirmou acreditar na libertação das pessoas através de uma formação pedagógica que não se cingisse apenas a programas e livros. A experiência de docente, altamente estimulante para o seu trabalho musical, que tivera em Mangualde, onde colheu junto dos alunos “uma certa visão poética e ao mesmo tempo pedagógica”, foi depois complementada através de “um tipo de relações de uma pureza impossível” com gente mais madura, trabalhadores e operários que conheceu nas aulas nocturnas de Olhão e Faro. Nos alunos deixou a imagem de alguém que não usava fato nem gravata (esta vinha sempre guardada no bolso para quando era chamado ao gabinete do director), não seguia o programa e falava de futebol e outras coisas do dia-a-dia, sendo que as aulas não duravam mais de 30 minutos. Usava os sapatos desatados, não raras vezes apenas uma meia e faltava para ir fazer gravações a França e concertos por outros lugares, como a Suíça, Alemanha e Suécia (1962). A pretexto do ensino da língua francesa no Curso Geral de Comércio em Faro, permitia aos discentes a audição na sala de discos de figuras então icónicas, como Charles Aznavour, Françoise Hardy ou Gilbert Bécaud.

Antes da capital algarvia, seria em Lagos que em Outubro de 1957 começaria o seu périplo algarvio a nível docente, na então Escola Comercial e Industrial Vitorino Damásio (actual Escola Secundária Gil Eanes), colaborando também na campanha eleitoral do general Humberto Delgado. José Afonso guarda desse período um sentimento paradoxal: por um lado, como uma fase muito difícil da sua vida por causa da ida dos filhos para África; por outro, por Lagos ter sido para ele como que uma redenção, proporcionando-lhe o contacto com o mar, com uma atmosfera pagã feita de bailes de Carnaval e confrarias de foliões a que se foi associando. “Recordo-me que, durante meses, comi até na casa de uma família que me colocava (como é que hei-de dizer?) uma marmita de comida e todos nós, cada um munido do seu respectivo garfo, nos servíamos do mesmo prato. Era a tradição das caldeiradas e também dos arrozes de conquilhas.” E como a sua vida era fértil em encontros inusitados, Zeca relata-nos mais um episódio que reflecte bem a empatia que facilmente estabelecia com os outros apesar da sua introversão:

Uma vez, em Lagos, entrei num urinol público e comecei a assobiar uma cantiga, e o sujeito que estava ao lado respondeu-me: “Essa é boa.” Continuei a assobiar e, finalmente, o sujeito esperou e perguntou-me: “Ouça lá, você gosta mais do assobio singelo ou dobrado?” A partir daí, entabulei uma certa amizade com ele, que me parece que era, não tenho a certeza, o famoso “Chico falta d’Ar”.

Sem memória de o ter ouvido na infância, só descobrindo mais tarde o seu imenso legado, imagino facilmente este despojado e distraído Zeca e a sua “voz de vento” (o vento do sol que permanece), andarilhando pelos recantos do sul, com as letras escritas num monte de papéis debaixo do braço (que amiúde deixava cair), armado de viola e alguma timidez diante do microfone, espalhando “os acordes da terra, / os obscuros gritos / e os delírios e as fúrias / de uma revolta justa / contra eternos vampiros” (António Ramos Rosa). Por terras do Algarve, o intemporal cantautor encontraria horizontes férteis e luminosos para desbravar caminhos, para ampliar essa genuína ligação ao humano e a inventividade musical que tanto o singularizavam. Em Faro, onde viveu no n.º 12 da típica rua Professor Norberto da Silva, em pleno coração da zona histórica, e perante a insistência da dona da casa para que viesse viver para o piso térreo que estava vago, José Afonso contrapunha frisando que nas águas furtadas é que se sentia realmente bem, desfrutando de boa vista para a ria.

Face à profunda ferida e angústia sociais, o seu canto foi carícia e fina energia, “ressuscitando o ser / em plenitude de água / e de um fogo amoroso”, como Ramos Rosa escreveria. José Afonso ensinou-nos que, apesar da incerteza, do medo e da ansiedade, mesmo na noite mais escura podemos comprometer-nos com aquele íntimo sentido onde o coração começa, com aquele insondável sopro que faz levantar as pedras sobre as pedras, com aquela espantosa alegria que nos guia na resistência, na esperança e na mudança, com o recomeço da viagem. Deve ser, muito provavelmente, para isso que serve a utopia, o direito ao sonho e ao delírio, a “sabedoria da ilusão” (Lipovetsky): para não deixarmos de caminhar sob a presença distante das estrelas. Volvidos este mês 34 anos sobre a sua morte, bebo na força e determinação, que hoje como que nos arrebatam, das palavras desse intemporal mestre da errância (volvida arte): “Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz. Embora com reservas, acreditava o suficiente no que estava a fazer, e isso é o que fica.” Ser inteiro em cada coisa é estar certo.