Ngozi Okonjo-Iweala é a primeira mulher a liderar a Organização Mundial do Comércio

Economista nigeriana liderou a Aliança Global para as Vacinas até ao final do ano passado. Apoio de Biden decidiu a sua eleição.

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Okonjo-Iweala foi ministra das Finanças duas vezes e ministra dos Negócios Estrangeiros da Nigéria LUSA/MARTIAL TREZZINI

A economista nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala foi eleita nesta segunda-feira directora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC). É a primeira mulher e a primeira responsável africana a liderar a organização que funciona como fórum de negociação multilateral para lidar com as regras do comércio global.

A economista assume funções a 1 de Março, para um mandato até 31 de Agosto de 2025. Esperam-na os desafios de uma ordem internacional marcada pela tensão entre os Estados Unidos e a China, uma herança de diferendos comerciais entre os Estados Unidos e a Europa, os desafios da reforma da organização e da recuperação da economia global. No imediato, Okonjo-Iweala disse que a sua primeira prioridade será trabalhar com os membros da OMC para enfrentar a “consequências económicas e sanitárias provocadas pela pandemia”.

Ngozi Okonjo-Iweala liderava a Aliança Global para as Vacinas (GAVI) até há poucas semanas (terminou o mandato a 31 de Dezembro). Fora recentemente enviada especial da União Africana para mobilizar apoio financeiro internacional na luta contra a covid-19 e enviada especial da Organização Mundial de Saúde para a iniciativa “ACT Accelerator”, refere a OMC nas informações sobre a recém-eleita directora-geral.

A economista tem experiência em finanças públicas e na área da cooperação internacional na Ásia, África, Europa, América Latina e América do Norte, indica a organização. Trabalhou durante 25 anos no Banco Mundial como economista na área do desenvolvimento, a cuja presidência chegou a candidatar-se em 2012.

Na Nigéria, tem experiência governativa. Okonjo-Iweala foi ministra das Finanças duas vezes. Primeiro entre 2003 e 2006; depois, entre 2011 e 2015. Pelo meio, foi ministra dos Negócios Estrangeiros, em 2006. Foi a primeira mulher a liderar as duas pastas, refere o currículo divulgado pela OMC.

A OMC descreve-a como uma “negociadora hábil”, com experiência na mediação de “vários acordos que produziram resultados vantajosos para ambas as partes”, e como uma “construtora de consensos eficaz”.

Para a sua eleição foi determinante a chegada da nova Administração norte-americana de Joe Biden. Como a própria OMC refere na nota sobre a economista, os Estados Unidos recusaram-se inicialmente a aderir ao consenso que se formara, entre outros membros da organização, em torno do nome de Okonjo-Iweala e apoiavam a candidata da Coreia do Sul, a ministra do Comércio Yoo Myung-hee. Foi assim até à mudança de Administração. No início de Fevereiro, duas semanas depois da saída de Donald Trump da Casa Branca e da entrada de Biden, a candidata sul-coreana retirou a candidatura e os Estados Unidos deram o seu apoio a Okonjo-Iweala, refere a OMC em comunicado.

Reagindo à sua eleição, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que a escolha da economista nigeriana representa um “momento histórico para o mundo”. A nova directora-geral, disse, conta com o “apoio da Europa”. “Apoiamos a reforma da OMC e ajudaremos a proteger o sistema comercial multilateral baseado em regras”, escreveu no Twitter.

Na corrida ao lugar de directora-geral estiveram oito candidatos. Além das políticas nigeriana e sul-coreana, candidataram-se Amina C. Mohamed (Quénia), Jesús Seade Kuri (México), Abdel-Hamid Mamdouh (Egipto), Tudor Ulianovschi (Moldávia), Mohammad Maziad Al-Tuwaijri (Arábia Saudita) e Liam Fox (Reino Unido).

A GAVI, aliança da qual Ngozi Okonjo-Iweala foi presidente do conselho de administração até ao final do ano passado, é agora liderada por Durão Barroso, ex-primeiro-ministro português e ex-presidente da Comissão Europeia.

O Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), antecessor da OMC, teve como líderes o britânico Eric Wyndham White e os suíços Olivier Long e Arthur Dunkel (nascido em Portugal); a OMC foi liderada pelo irlandês Peter Sutherland, o italiano Renato Ruggiero, o neo-zelandês Mike Moore, o tailandês Supachai Panitchpakdi, o francês Pascal Lamy e o brasileiro Roberto Azevêdo.