Tribunal polaco condena historiadores por investigação sobre cumplicidade no Holocausto

Livro que reúne casos de colaboração de polacos com os nazis durante a ocupação valeu processo aos académicos. Legislação impulsionada pelo Governo nacionalista visa “liberdade de investigação”, dizem.

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O portão da entrada principal no maior campo da morte nazi, Auschwitz-Birkenau, na Polónia. ANDRZEJ GRYGIEL/EPA

Um tribunal de Varsóvia decidiu esta terça-feira que dois historiadores mancharam a memória de um autarca polaco com uma investigação que revela actos de cumplicidade de polacos com nazis e que devem pedir desculpas à família. Trata-se do primeiro grande teste à legislação polémica que criminaliza referências à cumplicidade de polacos no Holocausto nazi e muitos académicos avisam que pode abrir um precedente.

O Congresso Nacional Judaico divulgou um comunicado onde se afirma “consternado” com o veredicto e o centro de memória do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém, considerou que as acusações “equivalem a um ataque ao esforço para alcançar um retrato completo e equilibrado da história do Holocausto” e “constituem um ataque grave à investigação livre e aberta”, uma posição partilhada por muitas organizações e investigadores,

Condenados a pedir desculpas por “divulgarem informação incorrecta” e “atentarem contra o bom nome de um herói polaco”, mas não a indemnizar a sua família, os historiadores, anunciaram que vão recorrer da decisão.

Barbara Engelking, directora do Centro Polaco de Investigação do Holocausto, e Jan Grabowski, da Universidade de Otava, no Canadá, são co-autores da investigação publicada no livro Night Without End: The Fate of Jews in Selected Counties of Occupied Poland, onde se debruçam sobre o destino da população judaica em alguns distritos durante a ocupação nazi da Polónia, entre 1939 e 1945, e na forma como uma parte da população polaca tratou os judeus.

Um das muitas histórias que relatam é a de Edward Malinowski, de uma aldeia, Malinowo, no Nordeste do país, que ajudou a salvar uma judia, mas também foi cúmplice na morte de “várias dezenas de judeus”. Foi uma sobrinha de Malinowski, a octogenária Filomena Malinowski, que levou o caso a tribunal, exigindo o pedido de desculpas e uma indemnização de 27 mil euros.

Filomena Malinowski não avançou sozinha, contando com o apoio de media conservadores e da Liga Polaca Contra a Difamação – uma organização nacionalista e próxima do partido no Governo, o Partido Lei e Justiça – que tem como objectivo “defender o nome da Polónia e do povo polaco contra actos de vilificação nos media internacionais e deturpações no mundo da política”. Maciej Swirski, presidente da Liga, disse à AFP que a investigação dos dois historiadores ofende “todos os polacos”.

Os críticos da legislação – uma lei diferente, de 2018, incluía penas de prisão, mas gerou tanta controvérsia que foi abandonada – acusam o Governo nacionalista de Varsóvia de tentar encobrir o papel de responsáveis polacos no Holocausto e desencorajar a investigação académica nos casos de colaboração. A questão é ainda mais complexa, com muitos polacos a não conseguirem ver-se noutro papel que não seja o de vítimas – a ocupação foi brutal e os exemplos de resistência aos nazis são muitos e impressionantes.

Segundo um inquérito de 2017, 55% dos polacos sentem-se “incomodados” por menções de cumplicidade de polacos com crimes contra judeus durante a II Guerra Mundial e a maioria acredita mesmo que os seus antepassados se arriscaram e sacrificaram para salvar judeus, nunca os denunciando.

Liberdade de investigação e de expressão

“O que está em causa é um processo do Estado polaco contra a liberdade de investigação académica”, disse antes do veredicto Grabowski, que é professor de História na Universidade de Otava, no Canadá, citado pela agência Associated Press. “O Holocausto não está aqui para ajudar o ego e o moral dos polacos; é um drama que envolve a morte de seis milhões de pessoas – o que parece ter sido esquecido pelos nacionalistas.”

Não é a primeira vez que ​o especialista em Holocausto se vê perseguido e atacado pelo seu trabalho. Depois da publicação do livro Hunt for Jews, em 2011, onde calcula que mais de 200 mil judeus tenham sido mortos directa ou indirectamente por polacos, foi retratado num site polaco como um Goebbels, o ministro nazi da propaganda. O professor processou o site e ganhou.

Num texto publicado no site do Centro Polaco de Investigação do Holocausto, dependente da Academia Polaco das Ciências (que publicou o livro), Barbara Engelking defendeu que “o objectivo deste tipo de processos é pôr em causa a credibilidade e a competência dos acusados”, assim como “provocar um efeito dissuasor, desencorajando outros investigadores a tentar conhecer e escrever a verdade sobre o Holocausto na Polónia”. Para a investigadora, trata-se de “um grande perigo para a liberdade de expressão”.