Reino Unido vai testar a mistura de vacinas para imunizar contra a covid-19

Primeiros resultados desta série de ensaios clínicos devem sair no Verão. A estratégia é usada para tornar mais eficaz a vacinação contra outras doenças.

Foto
Preparaçao de vacinas da Pfizer-BioNtech Reuters/SERGIO PEREZ

O Reino Unido vai iniciar uma série de ensaios clínicos para verificar se dá bom resultado administrar vacinas diferentes contra a covid-19 na primeira e na segunda doses. A ideia é testar se usar diferentes tipos de vacinas pode gerar o mesmo nível de imunidade do que usando sempre o mesmo.

Seria mais fácil lidar com eventuais faltas de um tipo de vacinas se se soubesse que é seguro e eficaz substituir a segunda dose por outra, de outra marca ou até outra forma de funcionamento, se não houver em stock mais doses da primeira que foi administrada. Assim alguém que tomou uma primeira dose da Pfizer-BioNtech poderia tomar uma segunda da AstraZeneca, por exemplo, e a campanha de vacinação continuaria.

A Universidade de Oxford, que desenvolveu a vacina da AstraZeneca, vai coordenar o ensaio clínico, para o qual vai recrutar 800 pessoas em Inglaterra, a partir de meados de Fevereiro, com mais 50 anos.

Alguns dos voluntários vão ser imunizados primeiro com a vacina da AstraZeneca-Universidade de Oxford e em segundo lugar com a da Pfizer-BioNtech, e outros ao contrário, com um intervalo de quatro ou 12 semanas. No total, serão oito combinações diferentes, cada uma com 100 participantes. Só lá para o Verão deverá começar a haver alguns resultados, disse o secretário de Estado para as Vacinas, Nadhim Zahawi, no programa Breakfast da BBC.

Este número de participantes pode parecer muito reduzido, mas Andrew Garret, vice-presidente executivo da ICON clinical Research, uma entidade certificada para fazer ensaios clínicos no Reino Unido, explica que para este tipo de estudo não é necessário fazer estudos populacionais muito grandes. “O objectivo do ensaio é determinar a resposta do sistema imunitário para a usar como um indicador da eficácia clínica – como tal, o número de participantes necessário é muito mais reduzido se compararmos com um ensaio clínico de fase 3 de uma vacina, que exige cerca de 30 mil voluntários”, explica, num depoimento disponibilizado num agregador de informação de ciência para os media britânicos. “Serão colhidas amostras de sangue regularmente aos participantes para medir o nível de anticorpos e registadas reacções adversas”, adiantou.

Zahawi sublinhou que esta estratégia de misturar diferentes tipos de vacinas tem sido praticada com outras imunizações – para a hepatite, para a poliomielite, sarampo, papeira e rubéola. Alguns programas de vacinação contra o ébola prevêem ainda misturar diferentes vacinas para aumentar a protecção, recorda a BBC.

“Estudos em animais mostraram que há uma melhor produção de anticorpos com uma mistura de vacinas”, comentou ao programa da BBC Radio 4 Matthew Snape, o principal responsável pelo estudo na Universidade de Oxford. “Será muito interessante verificar se os diferentes modos de administração [de cada uma das vacinas] influenciam de facto a resposta imunitária nos seres humanos”, comentou.

“O antigénio usado em todas as vacinas é exactamente o mesmo, o da proteína da espícula do vírus SARS-CoV-2, portanto o sistema imunitário vai reconhecê-lo. Espera-se por isso que responda pelo menos tão bem se for usado um produto diferente como dose de reforço como se fosse usada a mesma vacina que na dose original”, comentou Peter English, consultor em controlo de doenças transmissíveis e ex-director da revista Vaccines in Practice.

“Além disso, algumas vacinas funcionam melhor se for usada uma vacina diferente na dose de reforço”, como a hepatite B, ou algumas vacinas ainda em desenvolvimento para a tuberculose, explicou ainda Peter English.