Dados provisórios indicam que vacina russa tem 91,6% de eficácia

Na análise de dados de 20 mil participantes no ensaio clínico verificou-se que a vacina Sputnik V é eficaz e bem tolerada contra a covid-19 sintomática em maiores de 18 anos e também em adultos com mais de 60 anos.

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Vacina conhecida como Sputnik V RDIF/EPA

Os resultados preliminares do ensaio clínico com o regime de duas doses da vacina russa e que envolveram quase 20 mil participantes mostram que a Sptunik V é eficaz e bem tolerada. Num artigo publicado esta terça-feira na revista The Lancet, os investigadores adiantam que o ensaio em curso vai continuar para incluir um total de 40 mil participantes e que se pretende ainda avaliar a eficácia da vacina em menores de 18 anos, bem como o efeito protector de uma dose única desta vacina e ainda a protecção contra infecções assintomáticas.

“O desenvolvimento da vacina Sputnik V tem sido criticado pela pressa inapropriada, pela opção por atalhos e ausência de transparência. Mas o resultado aqui relatado é claro e o princípio científico da vacinação é demonstrado, o que significa que outra vacina pode agora juntar-se à luta para reduzir a incidência da covid-19”, lê-se num comentário que acompanha o artigo na revista The Lancet e que é assinado por dois investigadores que não estiveram envolvidos neste estudo: Ian Jones, da Universidade de Reading, e Polly Roy, da Escola de Medicina e Higiene Tropical de Londres, no Reino Unido.

No estudo divulgado esta terça-feira concluiu-se que a eficácia do regime de duas doses da vacina russa é de 91,6% contra a covid-19 sintomática num ensaio que envolveu 20 mil participantes, três quartos dos quais receberam a vacina e um quarto recebeu um placebo. “O ensaio relata 16 casos de covid-19 no grupo da vacina (0,1% [16 casos entre 14.964]) e 62 casos (1,3% [62 entre 4902]) no grupo do placebo”, lê-se no comunicado sobre o ensaio.

Quatro mortes sem ligação à vacina

Os resultados indicam ainda que não terá sido registado nenhum efeito adverso grave que pudesse ser associado à vacinação. Os autores confirmam que no estudo foram registadas quatro mortes (três em participantes vacinados e uma do grupo do placebo), mas esclarecem que nenhum destes óbitos foi associado à vacina. “No grupo da vacina, uma morte foi associada a uma fractura. Dois tiveram condições subjacentes e desenvolveram sintomas de covid-19 nos quatro a cinco dias seguintes após a primeira dose da vacina. Com base no período de incubação da doença, ambos os participantes foram considerados já infectados antes da inclusão no ensaio, apesar de um teste de PCR negativo. No grupo do placebo, a morte foi associada a um AVC”, especifica o comunicado.

O documento acrescenta que os eventos adversos graves (aqueles que exigiram admissão hospitalar) “foram raros” tanto no grupo do placebo (0,4%, 23 casos em 5435) como no da vacina (0,2%, 45 casos em 16.427) e nenhum desses efeitos foi associado à vacinação.

Num subgrupo de mais de dois mil adultos com mais de 60 anos incluído no ensaio, verificou-se que a vacina é igualmente eficaz e bem tolerada, com uma eficácia avaliada em 91,8% neste grupo.

Dose e reforço

A Gam-Covid-Vac, conhecida como Sputnik V, é uma vacina em duas partes que inclui dois vectores de adenovírus que foram modificados para exprimir a proteína do vírus SARS-CoV-2. Os adenovírus são também enfraquecidos para impedir que se possam replicar em células humanas e não poderem causar doenças.

Neste ensaio, os participantes receberam uma dose com um dos adenovírus modificados, seguida de uma dose de reforço com outro adenovírus 21 dias mais tarde. No artigo, os autores justificam que “a utilização de um vector diferente de adenovírus para a vacinação de reforço pode ajudar a criar uma resposta imunitária mais poderosa (em comparação com a utilização do mesmo vector duas vezes), uma vez que minimiza o risco do sistema imunitário desenvolver resistência ao vector inicial”.

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Nesta fase, o ensaio envolveu 20 mil participantes mas vai continuar até incluir 40 mil EPA/SERGEI ILNITSKY

“A nossa análise intercalar do ensaio aleatório, controlado, de fase 3 da Gam-Covid-Vac na Rússia demonstrou uma elevada eficácia, imunogenicidade, e um bom perfil de tolerabilidade em participantes com 18 anos ou mais”, conclui Inna Dolzhikova, co-autora principal do artigo e investigadora no Centro Nacional de Investigação Gamaleya de Epidemiologia e Microbiologia, na Rússia.

Muitas vacinas para chegar a todos

Num balanço sobre o actual cenário da investigação de vacinas para combater esta pandemia, o comunicado refere que há neste momento, a nível mundial, “64 vacinas candidatas que estão actualmente em avaliação clínica (incluindo 13 vacinas candidatas na fase 3) e 173 vacinas estão em análises pré-clínicas. “As vacinas candidatas da fase 3 incluem uma variedade de plataformas de vacinas, tais como vacinas vectoriais, vacinas ARNm, vacinas inactivadas, e nanopartículas de proteínas recombinantes adjuvantes”.

Denis Logunov, também co-autor principal do artigo da mesma instituição, defende no comunicado da The Lancet que o combate à pandemia “requer a introdução de diferentes vacinas baseadas em diferentes mecanismos de acção para cobrir diversas exigências globais em matéria de saúde”. E acrescenta: “A nossa vacina, juntamente com outras vacinas para o SARS-CoV-2, ajuda a diversificar o pipeline mundial de vacinas.”

Esta fase do ensaio clínico da vacina russa decorreu entre 7 de Setembro e 24 de Novembro de 2020 em 25 hospitais e clínicas de Moscovo. Os participantes que receberam a vacina e o placebo realizaram testes de PCR num rastreio e no momento da segunda dose da imunização (passados 21 dias da primeira). “Um outro teste de PCR foi feito se os participantes relatassem sintomas de infecção respiratória”, adianta o estudo que refere ainda que “a eficácia da vacina foi calculada com base na proporção de participantes com covid-19 confirmado por PCR”.

Uma vez que os casos de covid-19 só foram detectados após os participantes relatarem sintomas da infecção, a análise da eficácia desta vacina não avaliou o possível efeito protector que poderá ter em casos de infecção assintomáticos, algo que os investigadores querem explorar em análises futuras. Por outro lado, o artigo relata os resultados de um acompanhamento médio com a duração de 48 dias após a primeira dose, o que significa que não foi avaliada a duração total da protecção.

Os resultados desta fase do ensaio clínico surgem após uma avaliação anterior que confirmou a segurança e imunogenicidade de duas formulações diferentes desta vacina (uma congelada, outra liofilizada). No estudo agora realizado foi utilizada a forma líquida da vacina, que requer o seu armazenamento a 18 graus Celsius negativos.

Dose única, crianças e outras questões em aberto

Apesar dos poucos casos de covid-19 registados nos participantes do ensaio, os autores notam ainda que nenhuma das pessoas vacinadas teve doença moderada ou grave, algo que se verificou no grupo do placebo onde se registaram 20 casos. Assim, os resultados preliminares apontam para o equivalente a uma eficácia de 100% desta vacina contra a covid-19 moderada ou grave.

O estudo publicado agora não tinha como objectivo avaliar a eficácia de um regime de dose única desta vacina. No entanto, os investigadores defendem que os resultados obtidos indicam que valerá a pena explorar essa pista. “Os resultados sugerem o início precoce de um efeito parcialmente protector 16-18 dias após uma imunização de dose única. A partir do dia 15-21, a eficácia contra a covid-19 moderada ou grave foi de 73,6%”, adiantam sublinhando, no entanto, que será necessária uma investigação mais aprofundada para tirar conclusões sólidas. Algo que a equipa de investigação deverá fazer com a recente aprovação recebida para investigar a eficácia de um regime de dose única da vacina.

No grupo das situações que merecem uma investigação mais detalhada há outros pontos importantes. Assim, será necessário confirmar os resultados num grupo mais diversificado de participantes que, desta vez, só incluiu caucasianos. É também necessários avaliar a eficácia e segurança desta vacina noutros grupos de risco que não foram incluídos nesta fase. Por fim, os autores referem que falta ainda investigar o efeito protector da vacina em adolescentes e crianças, bem como em mulheres grávidas. O trabalho de análise vai continuar e pretendendo-se incluir um total de 40 mil pessoas para avaliar a segurança e eficácia desta vacina.