Hospitais sob pressão. Ambulâncias formam fila à porta das urgências e doentes esperam horas

No Hospital de Santa Maria, a longa fila de ambulâncias à porta da urgência covid obrigou a que médicos e enfermeiros tivessem de monitorizar os doentes dentro das próprias ambulâncias. Em Torres Vedras, a fila, na sexta-feira à noite, tinha mais de uma dezena de ambulâncias à porta. Os doentes eram na sua maioria idosos e estavam a receber oxigénio no interior das ambulâncias.

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Mário Cruz/Lusa

As urgências hospitalares estão a acusar a pressão do aumento dos doentes com covid-19, com ambulâncias a formarem longas filas e os doentes a esperarem horas para dar entrada. Há falta de macas e de camas disponíveis. E acresce ainda o facto do diagnóstico dos doentes com covid-19 ser mais demorado. Esta sexta-feira à noite foi particularmente difícil, por exemplo, para os hospitais de Santa Maria, em Lisboa, e para o Hospital de Torres Vedras.

No Hospital de Santa Maria, a longa fila de ambulâncias à porta da urgência covid obrigou a que médicos e enfermeiros tivessem de monitorizar os doentes dentro das próprias ambulâncias.

Fonte do hospital explicou ao PÚBLICO que o que aconteceu na noite de sexta-feira é já o reflexo da saturação da resposta hospitalar da região. O Santa Maria já está a receber doentes covid de outras unidades de saúde.

A mesma fonte explicou que “há mais doentes a chegar, que precisam ser estabilizados, e o processo de diagnóstico destes doentes também é mais demorado porque implica mais meios de diagnóstico”.

Para se ter uma ideia, o Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN), ao qual pertence o Santa Maria, tinha nas últimas 24 horas 201 internados com covid-19, sendo que 44 destes doentes estavam em unidades de cuidados intensivos (UCI).

“Perante a grande pressão na urgência dedicada a doentes respiratórios e nos internamentos, o CHULN alargou o seu plano de contingência covid, o que prova não só que o CHULN não está em rotura, como há capacidade de adaptação do seu plano às necessidades assistenciais”, sublinhou a mesma fonte adiantando assim que, nas próximas horas, será reforçada a capacidade de resposta da urgência covid com uma segunda estrutura junto à Urgência Central, com capacidade para cerca de 10 doentes.

Acresce que os actuais postos de atendimento/boxes/quartos da urgência autónoma passarão de 33 para 51 durante a próxima semana. A capacidade de internamento covid em enfermaria passa das actuais 160 para 200 camas, com a abertura nesta sexta-feira de uma enfermaria com cerca de 20 camas e mais 20 camas noutra enfermaria que começa a funcionar no início da semana.

Além disso, a capacidade actual de internamento em cuidados intensivos covid contempla 48 camas, e estão previstas, em caso de necessidade, mais 10 vagas em UCI num próximo passo.

Adianta a fonte do hospital que, “em pouco mais de uma semana, o CHULN somou um total de 90 camas ao seu plano de contingência covid – de um total de 160 para 250 camas, entre enfermarias e UCI —, aumento que é acompanhado também pela criação de vagas de internamento para doentes não covid”.

Doentes receberam oxigénio no interior das ambulâncias

Em Torres Vedras, a fila, na sexta-feira à noite, tinha mais de uma dezena de ambulâncias com doentes com covid-19 à porta das urgências. E ao que o PÚBLICO apurou, os pacientes eram, na sua maioria, idosos e estavam a receber oxigénio no interior das ambulâncias.

Fonte do Centro Hospitalar do Oeste (CHO) ao qual pertence a unidade de Torres Vedras, confirmou o caos vivido nas urgências. “O Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Oeste informa que na sequência da elevada afluência de doentes à Área Dedicada para Doentes Respiratórios (ADR-SU) da Unidade de Torres Vedras nos últimos dias, verificaram-se constrangimentos no tempo de espera para atendimento”, lê-se na resposta ao PÚBLICO, sublinhando que, actualmente, não existem ambulâncias em espera no exterior desta Unidade Hospitalar.

Acrescenta-se ainda que na sequência dos constrangimentos sentidos verificou-se a necessidade de transferência de doentes para outros hospitais, no âmbito da habitual articulação e complementaridade entre instituições do SNS.

De acordo com a mesma fonte, “por forma a reforçar a capacidade de resposta, foi criada na Unidade de Torres Vedras, uma nova enfermaria destinada a doentes covid, com lotação para 21 camas”.

Actualmente o Centro Hospitalar do Oeste dispõe de uma capacidade total de 103 camas de internamento para doentes covid, na Unidade de Torres Vedras (68) e na Unidade de Caldas da Rainha (35).

Prevê-se ainda, que a unidade de internamento no Hospital de Peniche destinada a doentes não covid-19, com capacidade para 21 camas, entre em funcionamento a breve trecho. O Centro Hospitalar do Oeste integra os hospitais de Caldas da Rainha, Torres Vedras e Peniche, tendo uma área de influência constituída pelas populações dos concelhos de Caldas da Rainha, Óbidos, Peniche, Bombarral, Torres Vedras, Cadaval e Lourinhã e de parte dos concelhos de Alcobaça e de Mafra.

No Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central (CHULC), do qual fazem parte, por exemplo, as unidades de São José, Estefânia e o Curry Cabral, até às 00h deste sábado, tinham-se registado 237 internamentos, sendo que destes, 196 estavam em enfermaria, incluindo 6 na unidade de pediatria, 41 em Unidades de Cuidados Intensivos. Já só havia três vagas nos cuidados intensivos.

Já no Hospital Fernando da Fonseca (Amadora-Sintra) foram registadas, nas últimas 48 horas, 477 episódios de urgência, segundo fonte hospitalar que adianta ainda que há até este sábado, 202 pacientes covid internados. Destes 182 em enfermaria e 20 em UCI.

De acordo com a mesma fonte, o hospital tem, diariamente, expandido a capacidade de enfermaria.  Ontem mesmo abriu uma sexta ala covid, com mais 29 camas, reconvertendo uma enfermaria do serviço de ortopedia.

“Estamos preparados e empenhados para continuar a aumentar a nossa resposta para dar resposta ao aumento expectável dos próximos dias”, sublinhou a fonte, acrescentando o facto de, em UCI, terem neste momento 22 camas e capacidade instalada para continuar a abrir camas. 

“Somos o hospital mais pressionado em número de episódios de urgência de toda a região de Lisboa e Vale do Tejo, mas continuamos a garantir resposta à população da Amadora e Sintra. Avanço que continuamos com um número muito elevado de utentes que se dirigem aos nossos serviços sem critérios de urgência hospitalar”, segundo a fonte do HFF, que acrescenta que,” efectivamente, dois em cada três utentes são pulseiras verdes e azuis - o que se acordo com a triagem de Manchester os qualifica como ‘não urgentes'”.

Hospital de Vila Franca de Xira só tem uma cama na enfermaria

No hospital de Vila Franca de Xira apenas há uma cama disponível na enfermaria. Segundo fonte deste hospital estão internados na enfermaria 122 doentes covid (tem capacidade para 123) e 10 no UCI.

A mesma fonte refere que às 16 horas tinham 16 doentes covid nas urgências e 30 estavam a aguardar resultados.  “Há pressão, mas pode piorar nas próximas horas. Para já consegue-se gerir”, refere a fonte do hospital, sublinhando o facto de ainda não ter sido necessário transferir doentes para outras unidades.

Em comunicado, o Hospital Garcia de Orta (HGO) informou que se “mantém a enorme pressão assistencial, devido à elevada procura de ‘doentes covid’ e doentes ‘não covid’ e que dura há mais de 10 semanas, tendo o hospital de recorrer a transferências para outros hospitais do país”.

A administração do hospital  diz mesmo que a manter-se a situação à risco de um cenário de pré-catástrofe. 

De acordo com o mesmo documento, este sábado o HGO regista um total de 169 doentes positivos por infecção por SARS-COV-2, dos quais 148 estão internados em enfermaria, 18 doentes em UCI e três doentes internados em Unidade de Hospitalização Domiciliária (UHD).

“Em enfermaria, o hospital volta a registar um crescimento dos doentes internados positivos para a infecção por SARS-COV-2 e a ajustar a lotação afecta à COVID-19, de modo a acomodar a necessidade do número de doentes internados positivos por infeção por SARS-COV-2”, lê-se, sublinhando que o” HGO permanece no nível III do seu Plano de Contingência, apresentando à data de hoje uma taxa de ocupação superior a 250%, relativamente ao que previa o Plano de Contingência, nomeadamente de 66 camas em enfermaria e 9 de cuidados intensivos, destinadas a doentes positivos para SARS-CoV-2.”

Assim, e considerando a enorme pressão assistencial, decorrente da elevada procura de doentes “covid” e doentes “não covid”, o Hospital Garcia de Orta informa que tem vindo a realizar reafectações sistemáticas de circuitos e espaços, como a conversão de camas de enfermaria cirúrgicas, em camas médicas. Mas as conversões de camas, necessárias no HGO, abrangem também as áreas médicas. No total, e só na última semana, o total de camas reafectadas no Hospital foi de 35.

No Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, a situação não está melhor. Tinha este Sábado 187 doentes com covid internados, destes 170 estavam em enfermaria e 17 na UCI. Quinze dos doentes internados na UCI estavam ventilados.

Gaia recebeu doentes do Amadora-Sintra

O Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho (CHVNG/E) anunciou também este sábado que uma enfermaria de 24 camas reconvertida para doentes covid, mas que se encontrava em ‘stand-by’, entrou em funcionamento devido ao aumento de casos.

“No dia em que ultrapassamos os mil doentes tratados com diagnóstico covid, abrimos a Enfermaria de Medicina 1 como área covid”, disse à Lusa fonte do gabinete de comunicação do CHVNG/E. Segundo o responsável, o Hospital de Gaia recebeu na última noite dois doentes do Hospital Amadora Sinta, estando previsto para segunda-feira a transferência de mais três doentes do mesmo hospital.

Na sexta-feira, às 24 horas, o CHVNG/E tinha internados em enfermaria 71 doentes com infecção pelo novo coronavírus e 15 em cuidados intensivos, referiu a fonte.

O Centro Hospitalar Universitário de São João (CHUSJ) tinha este Sábado à tarde, 120 doentes covid-19 internados, 40 dos quais em cuidados intensivos. Segundo fonte do hospital, “tem havido um aumento de afluência ao Serviço de Urgência nas últimas semanas mas o hospital encontra-se preparado, tranquilo e com capacidade para receber doentes da sua área e de outras áreas geográficas, tal como se tem verificado”.

Refere a mesma fonte que o CHUSJ está actualmente no nível II (em IV) do Plano de Contingência. 

Também o INEM confirma o aumento da corrida às urgências e a consequente fila de ambulâncias: “Devido ao aumento dos números da pandemia de covid-19 e, muito possivelmente, à vaga de frio que se tem feito sentir, tem existido um pico anormalmente elevado de procura dos Serviços de Urgência que afecta praticamente todas as Unidades Hospitalares do país, trazendo uma grande pressão aos serviços e afectando a sua capacidade de resposta”.

Segundo fonte do INEM, “por esta razão, verifica-se que as ambulâncias, em determinadas situações, não conseguem entregar os doentes nos Serviços de Urgência com a celeridade desejável e ficam retidas durante períodos mais ou menos longos nos Serviços de Urgência”.

Bombeiros confirmam caos nas urgências

O próprio presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), em declarações à agência Lusa, denunciou o facto de haver doentes transportados para os hospitais a passar “horas nas macas das ambulâncias”. “Recebi uma informação de um doente que morreu dentro de uma ambulância. Isso é garantido”, avançou Jaime Marta Soares, assumindo que os bombeiros estão a viver “momentos muito difíceis e muito complicados”, porque estão a ser eles a fazer “quase de hospitais”.

“Chegamos lá [aos hospitais], não há macas, e muitas vezes eles estão horas nas nossas macas, alguns dentro das próprias ambulâncias, a ponto de já terem morrido cidadãos dentro das próprias ambulâncias, e muitas vezes as nossas macas ficam lá retidas, nos corredores, nas urgências, onde efectivamente esses hospitais se servem do nosso equipamento para garantir o resguardo dos doentes, já que não têm capacidade com camas, nem com macas” para fazer a recepção, descreveu.

Questionado pela Lusa sobre quais os hospitais que estão a deixar as ambulâncias à espera nas urgências com os pacientes retidos nas macas no interior das viaturas, Marta Soares declarou que é na generalidade dos hospitais do país.

Há muitos anos que há “problemas gravíssimos com os hospitais e com as Administrações Regionais de Saúde (ARS), mas agora com a pandemia da covid-19, agudizou-se”, alerta o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, referindo que “chegam a estar cinco, dez, 15, 20 ambulâncias à frente dos hospitais para deixar os doentes e não as deixam”.

Jaime Marta Soares defende, por isso, que o material se “universalize” com as ambulâncias equipadas com macas adequadas e iguais às dos hospitais e, portanto, quando os bombeiros chegassem ao hospital com o doente deixavam-no na maca e traziam outra maca da unidade hospital, permitindo que não parasse o acesso aos doentes, nem parassem as ambulâncias.

Segundo o presidente da LBP, “98 por cento do transporte de socorro dos doentes em Portugal é feito pelos bombeiros” e a parte que corresponde ao INEM (Instituto Nacional de Emergência Médica) é coberta em “95% por parte dos bombeiros”.