Covid-19: hospitais de Lisboa acusam “pressão” com aumento de idas às urgências e internamentos

Há hospitais a suspender actividade programada não urgente; outros estudam a melhor estratégia para fazer face aos próximos dias — que se esperam de “grande pressão”, com o esperado aumento de internamentos. No Hospital de Santa Maria, em Lisboa, um dos maiores do país, registou-se, na segunda-feira, o terceiro dia com mais episódios de urgência desde o início da pandemia.

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Hospital de Santa Maria, em Lisboa MÁRIO CRUZ/LUSA

Alguns hospitais de Lisboa tinham já começado a suspender a actividade não prioritária, outros estudam ainda a estratégia a adoptar, depois de a ministra da Saúde, Marta Temido, ter pedido aos hospitais da região de Lisboa e Vale do Tejo que suspendam a actividade assistencial programada não urgente para dar resposta à escalada de casos e internamentos por covid-19. Porém, esses hospitais acusam já alguma “pressão”, numa altura em que os episódios de urgência e as hospitalizações aumentam.

O Hospital de Santa Maria, em Lisboa, o maior hospital do país, suspendeu já a actividade cirúrgica não urgente em Novembro, numa altura em que uma orientação do Ministério da Saúde apontava para essa hipótese. À data, o hospital anunciou que iria manter toda a actividade urgente e prioritária, incluindo actividade de ambulatório, como consultas, cirurgias de ambulatório, exames de diagnóstico e sessões de hospital de dia — isto é, actividades que não exigem internamento. Por sua vez, a actividade não urgente e não prioritária (que tinha sido suspensa nas instalações do Hospital de Santa Maria) foi recuperada através de um protocolo com entidades privadas e do sector social que permite às equipas do hospital utilizarem os blocos operatórios dessas entidades para operar doentes que pertencem às listas de espera de várias especialidades.

O protocolo foi estabelecido há cerca de um mês e a estratégia “vai manter-se enquanto houver necessidade e a situação epidemiológica da região e do país o obrigar”, nota ao PÚBLICO fonte do gabinete de comunicação do Hospital de Santa Maria.

A mesma fonte refere que “esta é, de facto, uma fase de grande pressão quer nas urgências quer nos internamentos covid e não covid”, acrescentando que segunda-feira passada foi o terceiro dia em que foram registados mais episódios na urgência central (que engloba a urgência tradicional e a urgência covid) desde o início da pandemia, com o Hospital de Santa Maria a registar 462 episódios, dos quais cerca de 150 estavam relacionados com a doença provocada pelo novo coronavírus. Este número foi apenas superado em dois dias em meados de Outubro. Esta tendência voltou a verificar-se na terça-feira, tendo sido registados cerca de 422 episódios de urgência — “um nível ainda bastante alto e superior ao que foram as médias dos últimos dois meses”. Em termos de hospitalizações, o Hospital de Santa Maria (que tem 160 camas alocadas à covid-19) contabiliza actualmente 140 doentes com covid-19 internados — sendo este também o número mais alto desde o início da pandemia —, 35 dos quais em unidade de cuidados intensivos.

No Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, a pressão é “muito intensa há algum tempo”, pelo que foram também já adoptadas medidas no sentido de reduzir a actividade do hospital para alocar mais doentes com covid-19, “que ocupam neste momento um quarto ou mais da capacidade do hospital”, refere fonte hospitalar. Entre estas medidas inclui-se a assinatura de protocolos com a Administração Regional de Saúde para proceder à actividade cirúrgica em entidades privadas, acrescenta a mesma fonte, destacando que o hospital não tem “mais níveis de contingência para subir”. Por outro lado, a unidade tem vindo a tentar reunir mais recursos para os doentes covid-19 e a contratualizar mais camas para os casos sociais (covid e não covid) para que haja mais espaço para os internamentos.

Nos últimos dez dias, foram internados mais 29 doentes com covid-19 no Hospital Beatriz Ângelo, que contabiliza actualmente 106 pacientes internados com a doença, dos quais 16 em unidades de cuidados intensivos.

Afluência às urgências durante o Inverno

O Hospital Fernando da Fonseca (Amadora-Sintra) revela também estar “a sentir muita pressão”, mas adianta que não se encontra ainda “em situação de ruptura”. Quanto à suspensão da actividade programada não urgente, não há ainda detalhes sobre quando entrará em vigor, embora fonte do hospital destaque que, para já, será mantida a cirurgia oncológica, assim como a cirurgia do trauma e urgência.

Esta pressão no hospital, que serve uma população de cerca de 600 mil habitantes, deve-se também a um crescimento dos episódios de urgência não covid devido às temperaturas baixas e a um aumento da procura dos serviços hospitalares no Inverno. As idas das pessoas às urgências têm aumentado, embora uma grande parte, cerca de 65%, correspondam a pulseiras verdes e azuis (ou seja, a casos não urgentes). Em comunicado, a própria Direcção-Geral da Saúde alerta que “as previsões meteorológicas apontam para a continuação de tempo frio e seco” e das temperaturas baixas durante a próxima semana, o que poderá ter “repercussões sobre a mortalidade nos próximos dias, nomeadamente nas pessoas com 65 ou mais anos”, deixando algumas recomendações para que as pessoas se protejam.

Mas o frio não explica tudo, pelo que o Hospital Fernando da Fonseca está “a tentar dar um passo à frente” e refere estar “bem preparado para esta nova vaga” da covid-19, tendo inaugurado nas últimas semanas de Dezembro uma nova urgência dedicada integralmente à covid-19 e uma unidade de cuidados intensivos covid com 15 camas, que vai entrar em funcionamento dentro de dias. O hospital está também a equacionar a possibilidade de aumento de camas para doentes com covid-19 nos próximos dias, embora refira que será necessária uma alocação dos recursos humanos (decorrentes do cancelamento da actividade programada não urgente) para essas enfermarias. Além disso, fonte do hospital destaca que já foram mobilizados para os próximos dias 17 ventiladores não invasivos “para dar resposta ao aumento de casos que todos os hospitais estão a sentir”.

O Hospital Fernando da Fonseca tem actualmente uma taxa de ocupação de cerca de 95% ao nível dos internamentos, com 117 pacientes com covid-19 internados em enfermaria e 16 em unidade de cuidados intensivos (mais um doente do que no dia anterior). Ao nível da enfermaria, embora não se tenha registado de ontem para hoje uma “grande afluência”, este aumento é esperado nos próximos dias.

Já o Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central (CHULC) nota que a actividade programada continua a realizar-se “apesar dos constrangimentos decorrentes da resposta ao crescente número de internamentos por covid-19” e que “mantém, dentro do possível, a sua actividade assistencial a doentes não covid, sobretudo tratando-se de casos urgentes e prioritários”. Quanto às flutuações nos atendimentos diários em urgência (geral e polivalente, obstétrica e ginecológica e pediátrica) “não são significativas, embora com uma ligeira tendência de subida”. Segundo dados fornecidos ao PÚBLICO, na terça-feira foram registados 501 episódios de urgência, enquanto no dia 16 de Dezembro foram registados 411.

Em termos totais, o CHULC contabilizava esta quarta-feira, até às 16h, 204 pacientes com covid-19 internados, o que corresponde a um aumento de 59 pessoas nos últimos onze dias, admitindo que “de acordo com o plano de contingência, o CHULC está a aproximar-se do seu limite ao nível dos internamentos covid-19”.

Suspender actividade não urgente para libertar recursos

Por sua vez, o Centro Hospitalar de Leiria (CHL) revelou esta quarta-feira que tem disponíveis sete das 120 camas para doentes com covid-19 e admite suspender a actividade cirúrgica e médica programada e não urgente, para libertar recursos humanos, camas e equipamentos.

Em resposta à agência Lusa, o CHL refere que “neste momento estão ocupadas 113 camas” e que “está a adaptar a sua capacidade de internamento covid-19 e tomará as medidas que forem necessárias para acorrer a este aumento de doentes covid-19”.

O CHL apela ainda às pessoas com sintomas respiratórios que “antes de se dirigirem à urgência, contactem a Linha Saúde 24 e dirijam-se à ADR-C [área dedicada às doenças respiratórias], que em Leiria funciona no estádio municipal”, de forma a “reduzir a crescente afluência aos serviços de urgência”.

A pressão é também sentida no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), que já se viu obrigado a aumentar o número de camas disponíveis, sendo expectável que venham a ser necessárias mais camas para doentes estáveis e em enfermaria com covid-19. Actualmente, o CHUC tem uma capacidade de 180 camas para covid-19, 170 das quais estão ocupadas, havendo 47 doentes em estado crítico em cuidados intensivos (num total de 53 camas), segundo dados fornecidos ao PÚBLICO. Na terça-feira, o CHUC anunciou que vai alargar para cerca de 230 as camas disponíveis para doentes estáveis com covid-19.

Nesta quarta-feira, o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) alertou que o Hospital dos Covões (que pertence ao CHUC), em Coimbra, está “em ruptura e sem condições de trabalho e segurança”, havendo cerca de 30 doentes com covid-19 “a necessitarem de ser internados sem que para tal haja lugar”, referiu, em nota de imprensa enviada à agência Lusa, acrescentando que o aumento de camas para doentes com covid-19 tem de ser acompanhado por um reforço de profissionais.

Nos hospitais do Norte, a ocupação das camas dedicadas à covid-19 era na segunda-feira de 78,3% nos cuidados intensivos, segundo dados da Administração Regional de Saúde do Norte (ARS-Norte) a que a Lusa teve acesso e que revelam que estavam internados, à data, em cuidados intensivos na região Norte 213 doentes infectados com o novo coronavírus, sendo que 137 desses doentes estavam ventilados. De acordo com os dados da ARS-Norte, há 1175 camas dedicadas a doentes covid-19 nos hospitais da região e estavam internados na segunda-feira 852 doentes em enfermaria, o que corresponde a uma taxa de 72,5%.

A ministra da Saúde, Marta Temido, alertou esta quarta-feira — dia em que foram registadas mais 10.027 infecções em Portugal, o maior valor diário de sempre — que o país enfrenta uma nova “fase de imensa pressão” no Serviço Nacional de Saúde e que os próximos dias vão ser “muito duros” devido ao aumento de casos de covid-19.