Agravamento da pandemia: Governo manda hospitais de Lisboa suspender actividade não urgente

Planos de contigência dos hospitais de Lisboa e Vale do Tejo devem subir para nível máximo, “de imediato”, ordena Marta Temido. À espera de procura “crescente”, hospitais devem atribuir “meios humanos à área dos cuidados críticos”.

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Mário cruz/Lusa

A ministra da Saúde, Marta Temido, pediu aos hospitais de Lisboa e Vale do Tejo que suspendam a actividade assistencial programada não urgente para dar resposta à escalada de casos e internamentos por covid-19. Há mais 10.027 infecções em Portugal, o maior valor diário de sempre, e os internamentos sobem há cinco dias consecutivos. Temido espera uma procura “crescente nos próximos dias”.

Num email enviado ao presidente do conselho de administração dos Hospitais do SNS da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, noticiado pelo Expresso (e a que o PÚBLICO teve depois acesso), a ministra Marta Temido diz que “todos os hospitais devem, de imediato, escalar os seus planos de contingência para o nível máximo”. O email sublinha as palavras “de imediato”.

“Todos os hospitais devem garantir a alocação de meios humanos à área dos cuidados críticos, de modo a maximizar toda a capacidade de resposta nesta área”, acrescenta Marta Temido. “Todos os hospitais devem suspender a actividade assistencial programada não urgente que possa reverter em reforço de cuidados ao doente crítico.”

As orientações foram enviadas depois de uma reunião de trabalho nesta terça-feira com a Comissão de Acompanhamento da Resposta Nacional em Medicina Intensiva para a Covid-19 e as ARS. Têm em conta “a actual situação epidemiológica regional e a análise da ocupação de camas de enfermaria e cuidados intensivos na área da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo” e uma procura “que se prevê crescente nos próximos dias”.

“Recorda-se ainda que o funcionamento em rede do SNS depende da percepção de que todas as entidades se encontram e realizam o mesmo nível de esforço, em função de cada realidade”, refere Marta Temido.

Ao PÚBLICO, o Ministério da Saúde diz que este email de Marta Temido “veio recordar as orientações que já haviam sido dadas noutras fases da pandemia, mas, neste caso, dirigidas especialmente à região de LVT”.

“A orientação sobre actividade a cancelar é, como tem sido sempre, para situações de actividade assistencial programada (não urgente) que, pela sua natureza ou prioridade clínica, não implique risco de vida para os utentes, limitação do seu prognóstico e/ou limitação de acesso a tratamentos periódicos ou de vigilância. Com efeito, o que se pretende é assegurar que, sendo necessário, existe aumento da capacidade de resposta ao doente crítico”, esclarece em resposta escrita.

"Capacidade de internamento está no limite"

As unidades de cuidados intensivos são um copo cheio, que corre o risco de transbordar com poucas gotas. A analogia é feita por João Gouveia, presidente da Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos (SPCI).

“Estamos a aproximar-nos de uma situação crítica: temos neste momento 94% de ocupação de doentes covid-19 em Lisboa e Vale do Tejo. Temos valor mais baixos em ocupação não covid, à volta dos 70%. A nossa capacidade de internamento intensivo de doentes covid está no limite e só há duas hipóteses: ou diminuir os doentes que precisam de internamento ou aumentar o número de camas. O ideal será fazer as duas coisas e é isso que o email enviado pela senhora ministra diz”, detalha João Gouveia ao PÚBLICO.

Relativamente aos dados epidemiológicos desta quarta-feira, que mostram 10.027 novas infecções por covid-19, o presidente da SPCI admite que foi uma subida “brusca”, que excede as previsões de evolução da pandemia. Os efeitos na medicina intensiva serão vistos daqui a cinco dias, considera.

“Todos estávamos à espera de um aumento de casos no início de Janeiro, mas, apesar de tudo, foi demasiado brusco, demasiado cedo. Não se esperavam dez mil casos já hoje [quarta-feira]. Pode ser resultante de vários factores, tais como o aumento de contactos no período do Natal, a circulação da nova estirpe, atraso na realização de testes e ainda atrasos relativamente à comunicação dos resultados”, finaliza João Gouveia.