A dor dos outros

Este homem quer saber se está bem, ou seja, quer que lhe confirme e ateste a sua sanidade mental e psicológica e que lhe diga – acima de tudo – que vai conseguir resistir a isto.

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"João, Raquel e Helena estão do lado de lá — o lado da dor dos outros" Jonatán Becerra/Unsplash

Sexta-feira, dia 8 de Janeiro de 2021, recebi um novo paciente – mais alguém à procura de uma escutadora profissional. Trata-se de um homem de 69 anos cuja esposa está internada numa unidade de Cuidados Intensivos há cerca de quatro semanas. Os testes à covid-19 deram positivo em meados de Dezembro e, por obra do malfadado destino, o “bicho” apresentou-se na força máxima no corpo desta mulher, reduzindo a sua capacidade de resposta a quase zero. Urgência – Internamento – UCI.

João (nome fictício) marcou consulta para sexta-feira porque, finalmente, a mulher saiu do estado de coma induzido em que, forçosamente, entrou para poder sobreviver. Precisa de algo que o conforte. Não sabe bem do que se queixa, o que procura, o que espera encontrar. Quase não consegue falar. Dizer de si só mesmo chorando, o que faz por evitar, pelo tanto que já se habituou a conter o sofrimento que tem experimentado nos últimos tempos. Mostrou-se grato por o ter recebido. Esforçou-se por segurar a esperança no olhar, tinha boas notícias da mulher. “Hoje, falei de novo para ela e senti que ela me ouviu e percebeu que era eu!”

Do lado de cá, estou eu, a escutadora profissional. Enquanto acolho, com a máxima atenção e calor humano de que sou capaz, a narrativa que vai conseguindo produzir acerca da sua vivência recente, procuro empatizar com o que vai lá dentro. Angústia, tristeza profunda, medo, desespero pela incerteza do desfecho, desgaste, cansaço extremo. Este homem quer saber se está bem, ou seja, quer que lhe confirme e ateste a sua sanidade mental e psicológica e que lhe diga — acima de tudo — que vai conseguir resistir a isto e que, também ele, vai sobreviver para poder continuar a cuidar da mulher quando — e se! — ela voltar para casa…

Dois dias antes de João, escutei uma jovem médica intensivista no sofá habitual. Vinha bastante escura, semblante pesado, olhar no chão, olheiras fundas assentes num silêncio que anunciava sepultura. Olhámos uma para a outra e percebemos que há momentos em que efectivamente as palavras são demais. Aceno-lhe que sim com a cabeça e Raquel (nome fictício) aceita esse meu gesto como a legitimação que precisa para desabar. Chora com franqueza, com a máxima capacidade que tem para ser honesta consigo mesma, com a máxima possibilidade que lhe resta para continuar humana. “Fiz mais um banco esta noite. O pior da minha vida… Não temos condições para fazer mais e sinto-me à beira de uma desumanização que me assusta.”

Raquel está em quase choque psíquico. Revela não ter mais margem dentro de si para respirar a humanidade que lhe assiste por direito básico. Sente-se a cada semana que passa a “robotizar-se”, a perder-se de vista enquanto pessoa dotada de gentileza, de disponibilidade para se doar ao outro, cuidando com dedicação, amor e rigor através do que escolheu fazer profissionalmente. Sente-se desolada e estupefacta pelo que tem vivido mês após mês no internamento e serviço de urgência, aterrada pela avalanche de casos clínicos que ficam sem resposta. Raquel está além do simples cansaço — aquém da humanidade que, sente, lhe está a escapar por entre os dedos. Teme por si, pela sua quebra de resistência, e lamenta a pouca sorte de todos os que tiver de deixar para trás, enquanto médica. Sente-se triste e profundamente desgostosa, pelos que na sua vida pessoal ama e tem deixado para depois, pela reiterada ausência física e emocional…

Helena (nome fictício) é assistente social. Trabalha num agrupamento de escolas na periferia de Lisboa. Sente-se desde há meses entre a revolta e o desespero. O seu equilíbrio interior, até agora aparentemente à prova de bala, é difícil de manter. Há semanas em que sente que lhe faltam mãos, braços, pernas, cabeça e criatividade para dar resposta aos pedidos de ajuda que não cessam de chegar e para os quais, não tem resposta. As estruturas e meios que existem ao dispor da população com que trabalha são manifestamente insuficientes para tanta desgraça.

Faltam professores, alimentos, roupas, computadores para os miúdos que vão de quarentena poderem continuar a estudar, casas apropriadas para famílias inteiras, numerosas algumas, que não têm como manter o isolamento pretendido. Faltam documentos legais que permitam às pessoas ter acesso ao sistema de saúde bem como a outros benefícios legítimos. Faltam recursos de apoio social. “Não se pensou o problema. Desde Março que temos covid, e tudo o que se viveu e se fez na primeira fase para lhe dar resposta, não se consolidou para que a resposta prosseguisse eficaz. Foi tudo desmantelado! Não consigo compreender como é que não se pensou na questão social e neste descalabro que era mais do que previsível!” 

Falta tudo e falta gente à gente. Escasseia a cada segundo, a manutenção do sentido de dignidade à alma de Helena. Tem-se mostrado desarmada, desencantada, ferida pelo que não consegue fazer. Algumas vezes, questiona se está no lugar certo, na profissão certa, na missão devida. Arregaça as mangas sempre que pode e, nas horas vagas, vai ao supermercado comprar comida para levar a alguns. Roupas e coisas parecidas, leva de casa para tentar aconchegar a dor que lhe vai no peito. Enquanto houver resistência, Helena age. Fá-lo pelos outros e também por si. Não quer desistir nem ver escapar de dentro de si, o chão primeiro — o da dignidade humana, sua e dos demais a quem atende…

Do lado de cá estou eu, a escutadora profissional.

João está de saúde, sim. Tentei explicar-lhe que a dimensão da dor que sentimos cá dentro deve ser proporcional à realidade do que vivemos. O que ele vive é imenso. É de um tamanho grande: o Amor da sua vida tem estado entre a vida e a morte, de facto. E ele tem assistido a tudo isso, dia-a-dia, do lado de fora. Sem outro poder que não seja o de ver (através de vídeo) a mulher inerte, ausente, incapaz de se valer a si mesma, numa espera insuportável e incerta quando à sua validade. Está devidamente deprimido, ansioso e angustiado. Chora João, sempre que puderes. Não tenhas medo de ter medo, tens sido um valente. Ela sobreviveu. Chora agora, para respirares por dentro e te manteres forte para o que vier. Chora, que eu escuto e amparo-te as lágrimas da parte de cá do ecrã.

Raquel está à beira da rutura. Tento negociar com ela algum descanso, reformulando as prioridades que tem, procurando que mantenha as responsabilidades que são as suas. Raquel está além de exausta, francamente deprimida e a perder a capacidade de diferenciação interna. Tudo na vida dela já só soa a guerra e a impotência. Avista-se o inevitável: o rasto do trauma que fica. Que ficará para trabalhar depois. Segura-te, Raquel. Chora, que eu escuto e abraço-te para voltares mais integrada nos próximos passos do caminho.

Helena aguenta-se firme, mas à beira de uma fúria imprevisível. A revolta teima em manter firme a sua saúde mental. Felizmente. Triste, sim, mas não doente. Helena, segura a carteira. Aceita que tens limites, não podes “salvar toda a gente”. Aprende tudo o que puderes agora. Esta pode ser a oportunidade para te amadureceres como assistente social. És forte e competente. E boa gente.

João, Raquel e Helena estão do lado de lá — o lado da dor dos outros.

Do lado de cá, estou eu, a escutadora profissional.

E o seu lado, qual é, posso perguntar?