Covid-19. Doentes de Lisboa vão ser transferidos para o Porto. Privados já acusam “elevada pressão e procura”

Ministério da Saúde deu indicações para que cinco doentes com covid-19 internados no Hospital Beatriz Ângelo, em Lisboa, sejam transportados para o Hospital de São João, no Porto. Dez doentes do Hospital Amadora-Sintra serão também transferidos para o Hospital de Santo António, no Porto, e para o Hospital de Gaia. O Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, também está a receber doentes transferidos do Hospital Garcia de Orta.

Foto
Hospital Beatriz Ângelo Rui Gaudencio

Cinco doentes infectados com covid-19, provenientes do Hospital Beatriz Ângelo, em Lisboa, vão ser, ainda esta sexta-feira, transferidos para o Hospital de São João, no Porto. O hospital lisboeta já tem todas as camas dedicadas à covid-19 ocupadas. Os hospitais privados contactados pelo PÚBLICO também já acusam “elevada pressão e procura” com o agravamento da pandemia nas últimas semanas.

“Estão a ser preparados para serem transportados os primeiros cinco doentes para o Hospital de São João, provenientes do Beatriz Ângelo. É previsível que venham ainda hoje”, confirmou fonte do Hospital de São João. Fonte do gabinete de comunicação do Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, confirmou também que a unidade hospitalar recebeu indicações na tarde desta sexta-feira do Ministério da Saúde, através da Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo, para que fossem transferidos cinco doentes da enfermaria covid para o Hospital de São João.

Segundo dados fornecidos ao PÚBLICO, esta sexta-feira o Hospital Beatriz Ângelo contabilizava um total de 121 doentes internados com covid-19 (105 em enfermaria e 16 em unidades de cuidados intensivos), sendo que todas as camas disponíveis em enfermaria e cuidados intensivos dedicadas à covid-19 se encontravam ocupadas. A mesma fonte lembra ainda que este é um hospital distrital que tem, no máximo, 400 camas disponíveis.

Amadora-Sinta envia doentes para o Porto 

Dez doentes com covid-19 internados em enfermaria no Hospital Fernando da Fonseca (Amadora-Sintra) serão também transferidos para o Norte, cinco deles para o Hospital de Santo António, no Porto, e outros cinco para o Hospital de Gaia. Esta é uma “medida preventiva” para dar resposta à afluência esperada para os próximos dias, nomeadamente no fim-de-semana, explicou ao PÚBLICO fonte do hospital, que garante que a unidade não está ainda “em ruptura”. Segundo dados desta sexta-feira, o Hospital Fernando da Fonseca tinha 136 doentes internados com covid-19 em enfermaria (de um total de 150 camas) e 18 em cuidados intensivos (de uma capacidade total de 20 camas). “Da mesma forma que recebemos doentes nas passadas duas semanas de outros hospitais, agora estamos a actuar em rede e precisamos de aliviar pressão” face a um expectável aumento de casos de infecção na região de Lisboa, acrescentou a mesma fonte, destacando que o plano da ARS também prevê o transporte de doentes críticos, embora tal não seja ainda necessário.

O Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, também foi solicitado para colaborar e no sábado de manhã chegaram os primeiros três doentes transferidos do Hospital Garcia de Orta, em Lisboa. Está a ser preparada a transferência de outros dois doentes. 

Por sua vez, o Hospital de Santa Maria, em Lisboa, elevou o nível do seu plano de contingência e criou mais camas de internamento, através da realocação de meios físicos e humanos. Até esta semana o hospital tinha cerca de 160 camas alocadas à covid-19 (120 em enfermaria e 36 em cuidados intensivos) e irá agora passar para 210 (160 em enfermaria e 50 em cuidados intensivos). “Isto é acompanhado também pela criação de camas para internamento não covid. Esta é uma fase obviamente em que há uma grande pressão na assistência aos doentes não covid com outro tipo de patologias, portanto vai ser compensado também com a criação de vagas para internamento não covid”, explicou fonte do hospital. A medida tem como objectivo “responder não só às necessidades dos doentes” que chegam ao hospital, mas também da região. Quanto à actividade cirúrgica não urgente, esta foi já suspensa em Novembro, mantendo-se a actividade urgente, prioritária e oncológica. Contudo, a mesma fonte garante que ainda não foi transportado nenhum doente do Hospital de Santa Maria para o Norte.

A ministra da Saúde, Marta Temido, alertou esta quarta-feira que o país enfrenta uma nova “fase de imensa pressão” no Serviço Nacional de Saúde e que os próximos dias vão ser “muito duros” devido ao aumento de casos de covid-19.

Garcia de Orta aumenta em mais quatro camas a sua capacidade em Cuidados Intensivos

O Hospital Garcia de Orta (HGO) abriu mais quatro camas de cuidados intensivos, aumentando a “capacidade de respostas de medicina intensiva para um total de 28 camas”. “Desse total de camas, 19 camas destinam-se ao tratamento de doentes positivos para a infeção por SARS-COV-2. As restantes camas destinam-se a doentes não covid”, explica fonte hospitalar. Com a pressão verificada nos últimos dias, o hospital “não exclui a possibilidade vir a estabelecer protocolos com unidades privadas de saúde para a contratualização de camas de cuidados intensivos, em caso de necessidade adicional e uma vez esgotada a capacidade de articulação regional”.

Esta sexta-feira, o hospital, que se encontra no terceiro nível do estado de contingência, tem um total de 123 doentes covid-19, sendo que 105 encontram-se internados em enfermaria e 18 em UCI. 

Privados acusam “elevada pressão e procura”

O Hospital da Luz Lisboa não tem mais camas para receber doentes covid-19 já que a procura “vem-se intensificando desde Dezembro”. Segundo fonte do Grupo Luz Saúde, as cerca de 30 camas disponíveis estão todas ocupadas: há oito pessoas nos cuidados intensivos (seis adultos e duas crianças) e 20 em enfermaria (18 adultos e duas crianças). Há ainda dois internamentos na unidade de obstetrícia.

Este hospital, que passou a assumir o diagnóstico e tratamento de doentes com covid-19 logo em Março enquanto as restantes unidades do grupo continuam a fazer o atendimento geral à população, já recebeu 15 doentes de hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS). De acordo com o hospital, a lotação para doentes não covid-19 “também está perto do máximo” e a procura tem aumentado nas últimas semanas em todas as unidades da região de Lisboa e do Norte.

O grupo privado CUF não revela quantas das 32 camas disponíveis estão ocupadas, mas diz que se “verifica uma situação em linha com o resto do país no que diz respeito à capacidade de internamento, covid e não covid, existindo uma elevada pressão e procura”.

O PÚBLICO também contactou o Grupo Lusíadas, mas não obteve resposta até à hora de publicação deste artigo.

Segundo disse Marta Temido em entrevista ao PÚBLICO em Novembro, o Governo tem tentado expandir o número de camas em unidades de cuidados intensivos (UCI) e celebrar alguns acordos com o sector privado e social que também só dispõe, no total, de 112 camas em UCI.

Actualizado 9 de Janeiro: Acrescentada informação sobre a colaboração do Hospital Pedro Hispano.